Estroboloma

Estroboloma

A microbiota humana é composta por uma série de microrganismos que vivem no corpo humano e apresentam desde funções metabólicas à imunológicas no organismo, impactando diretamente em nosso bem-estar e qualidade de vida. 

A riqueza e variedade da composição da microbiota intestinal, por exemplo, é bem conhecida, assim como o seu papel essencial na absorção e síntese de nutrientes, manutenção da integridade da mucosa intestinal e proteção contra patógenos.  

Alterações ou desequilíbrios no microbioma intestinal podem desencadear uma série de doenças. Por outro lado, a manutenção do equilíbrio, ou homeostase, desses microrganismos intestinais influencia na promoção de saúde e prevenção de diversas doenças. 1   

Estudos recentes identificaram que o estado de disbiose pode ter relação com a desregulação do sistema imunológico e alterações no metabolismo do estrogênio. Nesse sentido, surgiu o conceito “estroboloma”, mas você sabe o que significa?  

Definição e mecanismo do estroboloma: 

Em linhas gerais, o estroboloma é o conjunto de genes da microbiota intestinal responsáveis pelo metabolismo de estrogênio. 

O microbioma intestinal é predominantemente composto por cinco filos bacterianos (Firmicutes, Bacteroidetes, Proteobacteria, Actinobacteria e Verrucomicrobia), que se desenvolvem desde o nascimento e de acordo com as exposições a outros fatores ambientais, como a alimentação.  

Algumas bactérias que compõem o microbioma intestinal são responsáveis por metabolizar estrogênio, mais especificamente por meio da secreção de enzimas B-glucuronidases e B-glucosidades por bactéricas entéricas, promovendo a desconjugação e reabsorção do estrogênio livre.  

Em condições normais, o estrogênio produzido pelo organismo circula no sangue de forma livre ou ligado à proteínas. Posteriormente, esse estrogênio e seus metabólitos podem ser conjugados pelo fígado e excretados para serem eliminados pelo intestino.  

No entanto, a maior proporção de Firmicutes/ Bacteroidetes, parece favorecer o aumento da desconjugação desse estrogênio ligado e promove a reabsorção dos estrogênios livres, aumentando os níveis circulantes desse hormônio no sangue.  

Esse mecanismo, contribui para o estado de hiperestrogenismo e pode acabar contribuindo para a fisiopatologia de uma série de condições clínicas, como a endometriose e cânceres dependentes de estrogênio.  

Portanto, o estroboloma interfere diretamente na eliminação e circulação sanguínea de estrogênio livre. Nesse sentido, é de extrema importância adotar práticas e estratégias que modulem a composição da microbiota intestinal feminina a fim de evitar que o estroboloma leve o organismo a um estado patológico.  

Relação da disbiose e distúrbios ginecológicos: 

O estrogênio desempenha um papel central na patogênese de diversas condições relacionadas ao seu desequilíbrio, que incluem endometriose, infertilidade, dor pélvica e até determinados tipos de câncer hormônio-dependentes.  

Uma relação bidirecional entre o microbioma e o desenvolvimento de alguns distúrbios ginecológicos pode ser observada. Isso porque, a disbiose intestinal contribui para um estado pró-inflamatório e aumento da atividade das enzimas B-glucuronidase, que por sua vez promovem maior reabsorção de estrogênio livre para a circulação.  

Por outro lado, estudos também investigam que pacientes acometidas por distúrbios ginecológicos, como a endometriose por exemplo, podem apresentar alterações em sua microbiota, com a prevalência de bactérias produtoras de β-glucuronidase e que podem favorecer a atividade do estroboloma.  

O estado hiperestrogênico pode superestimular o tecido endometrial e desencadear infertilidade, irregularidades do ciclo menstrual ou contribuir para inflamação uterina e dor.  

Em relação à endometriose, que já uma condição clínica estrogênio-dependente, a influência do estroboloma e consequente aumento dos níveis do estrogênio circulante favorecem o agravamento das lesões e dos sintomas.  

Além disso, o excesso de estrogênio pode estimular a proliferação celular e contribuir para o desenvolvimento de cânceres do trato reprodutor feminino, como câncer de mama e endometrial.  

Influência da nutrição no estroboloma? 

Pode-se concluir que a integridade e saúde do intestino é um fator chave para garantir o bem-estar e melhor qualidade de vida. Considerando a relação direta da microbiota intestinal com o estroboloma e desfechos negativos à saúde da mulher, garantir a modulação intestinal adequada, mantendo a eubiose, e a desintoxicação dessas pacientes é crucial. E, nesse aspecto, a alimentação apresenta papel importantíssimo. 

Alguns pontos importantes incluem priorizar uma dieta com perfil anti-inflamatório, rica em fibras, contendo alimentos fermentados e probióticos. Além disso, restringir a ingestão de álcool, gorduras saturadas e açúcares também são medidas importantes para favorecer a saúde intestinal.  

O ganho de peso também pode interferir na desregulação hormonal do estrogênio, uma vez que o tecido adiposo é um dos responsáveis pela produção de estrogênio no organismo2. Nesse sentido, manter o peso corporal adequado e pensar em uma dieta de perda de peso para pacientes com obesidade ou sobrepeso também pode ser uma estratégia para melhor regulação do estrogênio circulante.  

Referências: 

  1. Jiang I, Yong PJ, Allaire C, Bedaiwy MA. Intricate Connections between the Microbiota and Endometriosis. Int J Mol Sci. 2021 May 26;22(11):5644. doi: 10.3390/ijms22115644. PMID: 34073257; PMCID: PMC8198999. 
  1. Elkafas H, Walls M, Al-Hendy A, Ismail N. Gut and genital tract microbiomes: Dysbiosis and link to gynecological disorders. Front Cell Infect Microbiol. 2022 Dec 16;12:1059825. doi: 10.3389/fcimb.2022.1059825. Erratum in: Front Cell Infect Microbiol. 2023 May 12;13:1211349. doi: 10.3389/fcimb.2023.1211349. PMID: 36590579; PMCID: PMC9800796. 
  1. Leonardi M, Hicks C, El-Assaad F, El-Omar E, Condous G. Endometriosis and the microbiome: a systematic review. BJOG. 2020 Jan;127(2):239-249. doi: 10.1111/1471-0528.15916. Epub 2019 Sep 19. PMID: 31454452. 
  1. Mary E Salliss, Leslie V Farland, Nichole D Mahnert, Melissa M Herbst-Kralovetz, The role of gut and genital microbiota and the estrobolome in endometriosis, infertility and chronic pelvic pain, Human Reproduction Update, Volume 28, Issue 1, January-February 2022, Pages 92–131, https://doi.org/10.1093/humupd/dmab035  
  1. Zhang P. Influence of Foods and Nutrition on the Gut Microbiome and Implications for Intestinal Health. Int J Mol Sci. 2022 Aug 24;23(17):9588. doi: 10.3390/ijms23179588. PMID: 36076980; PMCID: PMC9455721. 

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