Metabolismo lento, dificuldade para perder peso e a busca por estratégias para otimizar o metabolismo estão entre as principais queixas dos pacientes no consultório de nutrição. Diante desse cenário, é fundamental compreender a integração entre os sistemas corporais e, entre as interações fisiológicas importantes para a regulação do metabolismo, destaca-se o eixo fígado-tireoide.
Uma vez na corrente sanguínea, esses hormônios se ligam a transportadores e são conduzidos para o fígado. As células hepáticas são responsáveis tanto pela ativação quanto pela inativação dos hormônios tireoidianos, assim, mantendo o balanço homeostático no organismo.
O T4 pode ser convertido em T3, que segue para desempenhar suas funções, tanto no próprio fígado quanto em outros órgãos. Contudo, também pode ocorrer a transformação do T4 e do T3 em T3 reverso, que é uma forma inativa do hormônio, assim, evitando o excesso e prevenindo um estado hipermetabólico.
Eixo fígado-tireoide e metabolismo:
No estado de equilíbrio, a tireoide e o fígado possuem papel-chave na regulação do metabolismo corporal. O fígado é o órgão central na metabolização de lipídios, carboidratos e proteínas, enquanto os hormônios tireoidianos regulam as vias hepáticas envolvidas nos processos anabólicos e catabólicos do metabolismo dos macronutrientes.
Dessa forma, as disfunções tireoidianas podem impactar o metabolismo hepático dos macronutrientes. No hipotireoidismo – quando a tireoide não produz os hormônios em quantidade adequada – pode ocorrer a diminuição da sensibilidade à insulina, além de aumento nos níveis de triglicerídeos, colesterol total, LDL-colesterol e tendência ao ganho de peso. Enquanto no hipertireoidismo – caracterizado pela produção excessiva de hormônios tireoidianos – há tendência à perda de peso e à redução dos níveis de LDL-colesterol.
Saúde do fígado e da tireoide:
Diante da relação bidirecional do eixo fígado-tireoide, alterações na saúde hepática podem impactar a função tireoidiana, assim como disfunções tireoidianas podem refletir no metabolismo do fígado.
A desregulação na produção dos hormônios tireoidianos pode tornar o fígado mais suscetível a diferentes condições:
- No hipotireoidismo, há maior predisposição para o desenvolvimento de Doença Hepática Gordurosa não Alcoólica (DHGNA) devido ao favorecimento para o acúmulo de gordura no fígado, inflamação e progressão para fibrose;
- No hipertireoidismo, podem ocorrer alterações na função hepática, incluindo elevação das enzimas hepáticas, em decorrência do aumento do metabolismo hepático.
Por outro lado, alterações na função hepática podem impactar a saúde tireoidiana, como, por exemplo:
- Desenvolvimento de Tireoide de Hashimoto em indivíduos com Hepatite C, em razão da estimulação do sistema imune provocada pela infecção hepática.
- Redução nos níveis de T3 e aumento na concentração sérica de T3 reverso em casos de cirrose, devido à alteração das enzimas responsáveis pela conversão dos hormônios tireoidianos.
Nutrientes essenciais para o eixo fígado-tireoide:
A saúde do fígado e da tireoide é fundamental para o equilíbrio do eixo fígado-tireoide, nesse contexto, a nutrição é uma poderosa aliada ao fornecer os nutrientes-chave para esses órgãos. Confira abaixo alguns nutrientes importantes:
- Iodo: principal mineral para a síntese dos hormônios tireoidianos. Sua deficiência pode levar ao bócio, danos cerebrais irreversíveis e hipertireoidismo. A principal forma de consumo de iodo é através do sal de cozinha iodado, que a legislação brasileira estabelece a obrigatoriedade de fortificar o sal com iodo, assim, reduzindo em grande escala a deficiência desse mineral na população.
- Selênio: esse mineral atua como cofator das enzimas essenciais para ativação e a desativação dos hormônios tireoidianos, processos que ocorrem principalmente no fígado e nos rins. Essas enzimas, conhecidas como deiodinases, convertem a tiroxina (T4) em triiodotironina (T3), a forma biologicamente ativa do hormônio, ou em T3 reverso (rT3), a forma inativa. A principal fonte alimentar de selênio é a castanha do Brasil (também chamada de castanha-do-Pará).
- Além disso, o aporte de carboidratos, lipídios e proteínas em proporções adequadas é crucial para evitar o desbalanço de qualquer um desses macronutrientes e a sobrecarga hepática.
A nutrição adequada é indispensável para o pleno funcionamento desses órgãos e do eixo fígado-tireoide, contudo, condições patológicas também precisam de cuidados farmacológicos adequados prescritos por médicos.
Conclusão
As interações entre os sistemas corporais são essenciais para o funcionamento do organismo. Entre elas, o eixo fígado-tireoide se destaca como um importante regulador no metabolismo dos macronutrientes e, consequentemente, no metabolismo corporal. Nesse contexto, a promoção da saúde do fígado e da tireoide por meio de uma alimentação equilibrada e adequada contribui para a homeostase do organismo, a saúde metabólica e o bem-estar do indivíduo.
Referências:
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