Durante a amamentação, é comum surgirem dúvidas sobre a alimentação da lactante, como: o que a mãe pode ou não comer. Alguns alimentos são conhecidos popularmente por “aumentar o leite”, enquanto outros são evitados por medo de provocar cólicas no bebê ou até diminuir a produção.
No entanto, muitas dessas recomendações não possuem evidência científica e não passam de crenças populares que as famílias transmitem de geração em geração.
A alimentação da lactante deve ter como principal objetivo atender às maiores necessidades de energia e nutrientes desse período, preservar a saúde materna e contribuir para a manutenção da amamentação, garantindo assim, os benefícios da amamentação para mães e filhos. Isso não significa seguir uma dieta especial ou excluir alimentos do cardápio.
Durante a lactação, o organismo passa por adaptações metabólicas importantes para sustentar a produção de leite. Por isso, as necessidades nutricionais podem ser diferentes das apresentadas antes e durante a gestação.
Além disso, embora o organismo preserve relativamente a composição do leite materno, é importante ressaltar que a alimentação e o estado nutricional da mãe influenciam a presença de alguns nutrientes.
Portanto, o que realmente deve fazer parte da alimentação da lactante? Neste texto, você entenderá mais a fundo quais cuidados são importantes e quais crenças sobre alimentação e produção de leite você precisa desmistificar.
Como deve ser a alimentação da lactante?
De maneira geral, a lactante não precisa seguir uma dieta específica. A recomendação é manter uma alimentação variada, equilibrada e suficiente para atender às necessidades da mãe e da produção de leite.
Nesse sentido, a alimentação da lactante pode incluir diferentes grupos alimentares, priorizando os alimentos in natura e minimamente processados, como:
- Frutas;
- Verduras e legumes;
- Feijões e outras leguminosas;
- Cereais e grãos, preferencialmente integrais;
- Leite e derivados com baixo teor de gordura;
- Ovos, carnes, peixes e outras fontes de proteínas;
- Oleaginosas e sementes;
- Fontes de gordura insaturadas.
Mais do que procurar um alimento específico capaz de melhorar a amamentação, é importante observar a alimentação como um todo e garantir variedade suficiente para fornecer energia, proteínas, vitaminas e minerais.
Além disso, é de extrema importância manter a ingestão de água e líquidos nos níveis adequados para evitar o risco de desidratação e garantir a produção adequada de leite materno.
A lactante precisa comer mais durante a amamentação?
A produção de leite humano demanda um alto gasto de energia do organismo feminino e, por isso, as necessidades energéticas da mulher aumentam de forma significativa durante a lactação.
As reservas corporais acumuladas naturalmente durante a gestação fornecem parte dessa energia necessária para produzir o leite. No entanto, a mãe precisa obter a outra parte por meio da alimentação.
Além disso, as necessidades energéticas da mãe também se modificam de acordo com as diferentes fases do período da lactação e as demandas do bebê. Por exemplo, durante a fase de aleitamento materno exclusivo, as necessidades calóricas da mãe atingem o seu nível mais alto, pois o bebê depende integralmente do leite humano para se nutrir.
Entretanto, isso não significa simplesmente “comer por dois”. A quantidade de energia necessária deve ser individualizada, considerando fatores como, por exemplo, idade, peso, estado nutricional, nível de atividade física, período pós-parto e frequência da amamentação.
Da mesma forma, restrições alimentares importantes também merecem atenção, uma vez que déficits energéticos prolongados podem comprometer o estado nutricional materno e, em determinadas situações, interferir na produção de leite.
Quais nutrientes merecem atenção durante a amamentação?
Uma alimentação variada é capaz de fornecer grande parte dos nutrientes necessários durante a lactação. No entanto, alguns micronutrientes merecem atenção especial devido ao aumento das necessidades ou à influência do estado nutricional materno.
Entre eles estão iodo, vitamina B12, vitamina D, ferro, vitamina A e DHA, além de outros nutrientes que devem fazer parte de uma alimentação adequada.
O ferro merece atenção principalmente pela recuperação dos estoques maternos após o parto, especialmente em mulheres que apresentaram perdas sanguíneas importantes ou anemia. Além da avaliação da necessidade de suplementação, o consumo de alimentos fontes de ferro associados a fontes de vitamina C pode contribuir para melhorar sua absorção.
O DHA, um ácido graxo da família do ômega-3, por exemplo, participa do desenvolvimento cerebral e visual do bebê, e sua concentração no leite materno está relacionada ao consumo da mãe. Nesse sentido, é importante priorizar o consumo de alimentos fonte e garantir o aporte materno adequado.
O iodo também merece atenção, pois participa da produção dos hormônios tireoidianos e do desenvolvimento neurológico. Durante a amamentação, o bebê obtém esse mineral por meio do leite materno.
A vitamina D também deve ser observada durante esse período, pois sua concentração no leite materno é naturalmente baixa e depende do estado nutricional da mãe. Nesse sentido, a avaliação da ingestão, da exposição solar e da necessidade de suplementação pode fazer parte do acompanhamento nutricional da mãe.
A vitamina A participa de funções relacionadas à imunidade, ao crescimento e à diferenciação celular. Em situações de deficiência, a adequação desse nutriente também pode influenciar as concentrações de retinol no leite materno.
Por fim, a vitamina B12 requer cuidado especial em mulheres vegetarianas estritas ou veganas e em condições que comprometem sua absorção, pois a deficiência materna pode resultar em baixa disponibilidade da vitamina para o bebê.
Por isso, dietas restritivas ou exclusões alimentares durante a amamentação devem ser avaliadas individualmente para evitar prejuízos à saúde do bebê.
A hidratação é importante durante a amamentação?
A produção de leite aumenta as necessidades hídricas e é comum que a lactante perceba mais sede durante esse período.
A água pode ser obtida tanto em sua forma pura, mas também por meio da ingestão de bebidas e alimentos consumidos ao longo do dia. Frutas, verduras, legumes, leite e preparações como sopas, por exemplo, contribuem para a ingestão hídrica.
Uma estratégia prática é manter uma garrafa de água sempre por perto ao longo do dia, especialmente nos momentos de amamentação.
Entretanto, beber volumes excessivos de água não significa produzir mais leite. Manter uma hidratação adequada é importante para atender às necessidades maternas, mas a produção de leite depende principalmente dos mecanismos fisiológicos da lactação e do esvaziamento das mamas.
Existem alimentos que aumentam a produção de leite?
Não existe um alimento específico que, isoladamente, garanta aumento da produção de leite.
Na prática, a produção de leite é regulada principalmente pela sucção do bebê e pelo esvaziamento frequente das mamas. Quando o leite permanece acumulado por períodos prolongados, mecanismos locais reduzem a atividade secretora. Por outro lado, o esvaziamento adequado e frequente favorece a manutenção da produção.
Por esse motivo, diante da percepção de baixa produção, o primeiro passo não deve ser procurar um alimento específico, mas sim investigar possíveis dificuldades relacionadas à pega, frequência das mamadas, retirada do leite materno e como resolver as principais dificuldades na amamentação.
Existem alimentos que “secam” o leite?
Também é comum encontrar listas de alimentos que deveriam ser evitados porque supostamente diminuiriam a produção de leite. Porém, assim como não existem alimentos que, isoladamente, aumentam a produção, também não há um alimento específico que seja capaz de reduzir a produção do leite humano.
De maneira geral, não há necessidade de excluir alimentos específicos da alimentação da lactante apenas por esse motivo. Mulheres que amamentam, em geral, não precisam evitar alimentos específicos e devem ser incentivadas a manter uma alimentação saudável e diversificada.
Quando ocorre uma redução percebida na produção, é importante avaliar outros fatores que podem estar envolvidos, principalmente frequência das mamadas, pega e esvaziamento das mamas.
A verdadeira baixa produção de leite é relativamente rara, e a percepção materna de “pouco leite” nem sempre corresponde a uma redução real. Por isso, fatores como o ganho de peso do bebê, as micções, o desenvolvimento e a técnica de amamentação precisam ser considerados nessa avaliação.
Como organizar a alimentação durante a amamentação?
O período pós-parto costuma envolver mudanças importantes na rotina, sono irregular e menos tempo disponível para preparar refeições. Por isso, uma alimentação nutricionalmente adequada também precisa ser viável. Algumas estratégias podem facilitar:
- Manter frutas e outros alimentos práticos disponíveis;
- Planejar refeições simples e completas;
- Incluir uma fonte de proteína nas principais refeições;
- Variar frutas, verduras e legumes ao longo da semana;
- Consumir feijões e outras leguminosas regularmente;
- Manter água acessível durante o dia;
- Evitar restrições alimentares sem indicação;
- Buscar ajuda para organizar compras e preparo das refeições quando possível.
Não é necessário alcançar uma alimentação “perfeita”. O objetivo é construir uma rotina possível, variada e nutricionalmente adequada às necessidades desse período.
O que é realmente essencial na alimentação da lactante?
A alimentação da lactante não precisa ser baseada em alimentos especiais, receitas para aumentar o leite ou proibições.
Durante a amamentação, o mais importante é garantir energia e nutrientes suficientes, manter uma alimentação variada, cuidar da hidratação e avaliar individualmente a necessidade de suplementação.
Também é importante lembrar que a alimentação materna é apenas um dos fatores envolvidos na amamentação. A produção de leite depende fortemente da sucção, da frequência das mamadas e do esvaziamento adequado das mamas.
Por fim, nesse período, o acompanhamento com nutricionista pode ajudar a avaliar as necessidades energéticas e nutricionais, identificar possíveis inadequações, orientar a suplementação quando necessária e evitar restrições baseadas em mitos. Dessa forma, é possível cuidar da alimentação da mãe sem transformar a amamentação em mais uma rotina de regras e proibições.
Referências:
- MASQUIO, D. C. L. et al. Guia prático para assistência nutricional de gestantes e lactantes. São Paulo: Centro Universitário São Camilo, 2025. E-book.
- BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Saúde da criança: aleitamento materno e alimentação complementar. 2. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2015. 184 p. (Cadernos de Atenção Básica, n. 23).
- JOUANNE, Marie; ODDOUX, Sarah; NOËL, Antoine; VOISIN-CHIRET, Anne Sophie. Nutrient Requirements during Pregnancy and Lactation. Nutrients, [S. l.], v. 13, n. 2, art. 692, 21 fev. 2021.
- BELUSKA-TURKAN, Katrina et al. Nutritional Gaps and Supplementation in the First 1000 Days. Nutrients, [S. l.], v. 11, n. 12, art. 2891, 27 nov. 2019.
- BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Departamento de Promoção da Saúde. Guia alimentar para crianças brasileiras menores de 2 anos. Brasília: Ministério da Saúde, 2019. 265 p.

