Os diferentes compartimentos corporais: guia para recém-formados

Imagem ilustrativa com os diferentes compartimentos corporais

Entender os compartimentos corporais é essencial para quem está iniciando a prática clínica. Eles são a base da composição corporal e ajudam o nutricionista a avaliar corretamente o estado nutricional, identificar os riscos à saúde e acompanhar a evolução do paciente ao longo do tempo. Esse conhecimento também permite entender como o corpo está organizado internamente. 

O texto a seguir abordará um pouco mais sobre os diferentes compartimentos corporais e sua influência na avaliação da composição corporal durante acompanhamento nutricional. 

O que são compartimentos corporais? 

Os compartimentos corporais são divisões que demostram como o peso corporal, ou massa corporal total, está distribuído entre diferentes estruturas e/ou tecidos. Entre eles estão a massa muscular, a massa adiposa (ou massa gorda), a massa óssea, a água intra e extracelular, e os órgãos, cada um com suas funções específicas e importância para a saúde.  

Além disso, diferentes modelos propõem algumas formas de separar esses compartimentos corporais, a fim de identificar seus componentes e avaliar a composição corporal adequadamente.  

Quais são os compartimentos da composição corporal?  

composição corporal pode ser analisada por diferentes modelos, que variam de acordo com o número de compartimentos considerados. Esses modelos são utilizados tanto em pesquisa quanto na prática clínica e ajudam a compreender melhor a organização corporal e suas implicações para a saúde

Modelo bicompartimental: 

É o modelo clássico e mais utilizado na prática clínica por sua simplicidade e aplicabilidade. Divide o corpo em dois compartimentos principais: 

  • Massa gorda (ou adiposa
  • Massa corporal magra (ou massa livre de gordura) 

Nesse modelo, a massa corporal magra inclui tecido muscular, água, órgãos, ligamentos, tendões e ossos. É importante destacar que a massa magra não deve ser considerada sinônimo de massa muscular, embora os músculos representem um de seus principais componentes.  

Modelo tricompartimental: 

O modelo tricompartimental adiciona maior detalhamento à análise, ao separar o corpo em: 

  • Massa gorda 
  • Massa magra 
  • Conteúdo mineral ósseo 

Modelo tetracompartimental: 

Por fim, o modelo tetracompartimental é considerado um dos mais completos, dividindo o corpo nos seguintes compartimentos:  

  • Massa gorda 
  • Água corporal total 
  • Proteínas corporais 
  • Conteúdo mineral ósseo 

Diferença entre massa magra e massa gorda 

Na prática clínica, a avaliação antropométrica geralmente se baseia no modelo bicompartimental, dividindo o corpo em dois seguimentos: massa gorda, ou adiposa, e a massa corporal magra. 

  • Massa gorda: formada basicamente por gordura presente tanto no tecido adiposo quanto em outros tecidos. A massa gorda pode ser classificada em gordura subcutânea, localizada logo abaixo da pele, ou visceral, encontrada ao redor dos órgãos internos. 
  • Massa corporal magra: é um compartimento heterogêneo, que compreende todos os tecidos isentos de gordura, incluindo água, músculos, ossos, proteínas viscerais e órgãos internos.  

Um dado interessante é que a musculatura esquelética representa cerca de 40% da massa corporal total, compondo apenas um dos componentes da massa magra.  

Como os compartimentos corporais influenciam a saúde? 

Os compartimentos corporais exercem influência direta sobre a saúde, no risco de doenças e na funcionalidade do organismo. Alterações na proporção entre massa gorda, massa magra e água corporal refletem adaptações fisiológicas e, muitas vezes, processos patológicos. 

O excesso de massa gorda, especialmente quando concentrado na região abdominal (gordura visceral), está associado a maior risco de doenças crônicas não transmissíveis, como diabetes tipo 2, hipertensão arterial, dislipidemias e doenças cardiovasculares.  

Por outro lado, a redução da massa magra, principalmente da massa muscular esquelética, compromete a força, a capacidade funcional e a autonomia do indivíduo. A perda progressiva de massa muscular, como observada na sarcopenia, está relacionada ao aumento do risco de quedas, hospitalizações, infecções e mortalidade, especialmente em idosos e pacientes com doenças crônicas.  

Além disso, o estado de hidratação, representado pela distribuição da água corporal intra e extracelular, influencia a pressão arterial, o desempenho físico e a interpretação dos métodos de avaliação corporal. Alterações nesse compartimento podem indicar condições clínicas como edema, desidratação ou inflamação.  

Assim, compreender como os compartimentos corporais influenciam a saúde permite ao nutricionista identificar riscos que não são evidentes apenas pela análise do peso corporal ou do IMC. 

Avaliação e interpretação da composição corporal 

Atualmente, na prática clínica, existem diversos métodos de avaliação da composição corporal, como a antropometria, bioimpedância, avaliação por dobras cutâneas e, mais recentemente, tecnologias baseadas em imagens, como a ferramenta Body3D do WebDiet.  

A partir desses métodos é possível quantificar os diferentes compartimentos corporais, interpretar e avaliar os resultados, monitorar mudanças ao longo do tempo e orientar intervenções nutricionais individualizadas. 

  • Antropometria: inclui a análise das variáveis como peso, estatura, Índice de Massa Corporal (IMC), circunferências e pregas cutâneas. O IMC é útil para avaliar a massa corporal total, mas não diferencia massa magra de massa gorda, devendo sempre ser interpretado em conjunto com outras medidas.  
  • Bioimpedância elétrica (BIA): estima os compartimentos corporais com base na condução elétrica dos tecidos, sendo influenciada pelo estado de hidratação e pela padronização do protocolo.  
  • Body3D: ferramenta baseada em imagens fotográficas que permite estimar circunferências e perímetros corporais, auxiliando a avaliação da composição corporal e possibilitando o acompanhamento à distância. 

interpretação da composição corporal deve considerar a evolução ao longo do tempo, o contexto clínico, o perfil do paciente e a associação entre diferentes métodos. Dessa forma, o nutricionista consegue realizar um diagnóstico mais completo e fundamentar melhor suas decisões clínicas.  

Na prática clínica, o melhor método de avaliação corporal é aquele que o nutricionista consegue aplicar com consistência ao longo do acompanhamento. 

Conclusão

Compreender adequadamente os compartimentos corporais é fundamental na prática clínica para interpretar a composição corporal de forma mais precisa. O conhecimento sobre a distribuição dos diferentes compartimentos permite ir além do peso, interpretar melhor os resultados e tomar decisões mais seguras.  

Referências

  1. QUARESMA, M.V.L.D.S. et al. Manual de avaliação da composição corporal: aspectos teóricos e práticos para avaliação e monitoramento dos compartimentos corporais. São Paulo: Setor de Publicações – Centro Universitário São Camilo, 69 p., 2024. 
  1. SAMPAIO, L.R. Avaliação nutricional. Salvador: EDUFBA, 158 p., 2012. 
  1. KASPER, A. M. et al. Come Back Skinfolds, All Is Forgiven: A Narrative Review of the Efficacy of Common Body Composition Methods in Applied Sports Practice. Nutrients, 2021;13(4):1075. 
  1. ROSSI, L.; CARUSO, L. GALANTE, A.P. Avaliação nutricional: novas perspectivas. 2. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2015 
  1. Ward, L.C. Bioelectrical impedance analysis for body composition assessment: reflections on accuracy, clinical utility, and standardisation. Eur J Clin Nutr, 73, 194–199 (2019). https://doi.org/10.1038/s41430-018-0335-3

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