Fórmulas de cálculo energético que todo Nutri precisa conhecer

Na imagem, um Nutri utlizando o WebDiet para calcular as necessidades energéticas de cada paciente

O cálculo das necessidades energéticas, também chamado de cálculo energético, é uma etapa fundamental do atendimento nutricional e serve como base para a prescrição do planejamento alimentar.  

É a partir dessa estimativa que o Nutricionista define estratégias compatíveis com os objetivos clínicos, o estado nutricional e a rotina do paciente, garantindo um plano alimentar mais individualizado e eficaz. 

Para que o cálculo seja assertivo, é indispensável compreender como calcular, para quem calcular e qual a fórmula mais adequada. A aplicação inadequada de fórmulas ou a escolha incorreta do método pode levar à subestimação ou superestimação das demandas energéticas. 

Isso pode acabar levando a erros comuns no cálculo energético e comprometendo os resultados do tratamento nutricional. 

Portanto, determinar corretamente a necessidade energética é essencial para manter um equilíbrio adequado entre ingestão e gasto calórico, evitando tanto déficits quanto excessos energéticos.  

Questões como, “como calcular a necessidade energética diária? ou “Como escolher a melhor fórmula para cada paciente?” são centrais na prática nutricional e serão abordadas ao longo deste texto. 

Diferença entre TMB, GET e VET

Na prática clínica, é comum haver confusão entre os termos TMB, GET e VET, frequentemente utilizados para o cálculo energético e prescrição nutricional.  

Nesse sentido, compreender a diferença entre eles é essencial para evitar erros na definição das necessidades energéticas.  

Primeiramente, é importante entender que o gasto energético diário é determinado por diferentes componentes, que representam toda a energia que o corpo utiliza ao longo de um dia. Entre eles, destacam-se: 

TMB (Taxa Metabólica Basal) ou GEB (Gasto Energético Basal):

Corresponde à quantidade mínima de energia necessária para manter as funções vitais do organismo. É a base da maioria das fórmulas de cálculo energético. 

Efeito térmico dos alimentos (ETA): 

Refere-se à energia usada nos processos de digestão, absorção, transporte e metabolismo dos nutrientes. Representa, em média, cerca de 5 a 10% do gasto energético diário total, variando conforme a composição da dieta. 

Atividade física (AF): 

Corresponde à energia gasta durante movimentos corporais voluntários, incluindo atividades do dia a dia, exercícios físicos estruturados e o nível geral de atividade habitual. É considerado o componente mais variável do gasto energético total entre os indivíduos. 

GET (Gasto Energético Total): 

Representa o total de energia gasta pelo indivíduo ao longo do dia. É calculado a partir da soma da TMB, fator atividade física, efeito térmico dos alimentos e, quando aplicável, fatores de estresse metabólico ou injúria.  

Ou seja, o GET reflete a real demanda energética diária do indivíduo. 

VET (Valor Energético Total): 

Refere-se ao valor calórico total prescrito no plano alimentar. O VET pode ser igual, superior ou inferior ao GET, variando de acordo com o objetivo da prescrição nutricional, como manutenção do peso, emagrecimento ou ganho de massa corporal. 

Entender essas diferenças permite ao nutricionista ajustar a prescrição de forma mais segura e alinhada aos objetivos do paciente. 

Como calcular o Gasto Energético Total? (GET)

As fórmulas para cálculo energético são utilizadas para estimar as necessidades energéticas do paciente quando métodos mais precisos, como a calorimetria indireta, não estão disponíveis.  

Abaixo estão as fórmulas para o cálculo energético que todo nutricionista precisa conhecer, pois são as principais equações que o auxiliam na construção da prescrição nutricional.  

Harris-Benedict (1984): 

Essa é uma das equações mais conhecidas e tradicionais para estimar o Gasto Energético Basal (GEB), utilizada especialmente em indivíduos não obesos. 

Sua versão original foi publicada em 1919, mas em 1984 foi publicada uma versão revisada, que utiliza peso, estatura, idade e sexo biológico para o cálculo. Contudo, por ser um estudo realizado em uma população de média compleição física, o grau de exatidão dos cálculos é grande apenas nesse público.  

Nesse sentido, não é recomendada a aplicação para pessoas muito magras, com sobrepeso ou obesidade, e até para indivíduos musculosos, pois é uma equação que não considera a composição corporal.  

Por definir a Taxa Metabólica Basal (TMB), posteriormente é necessário multiplicar o resultado pelo fator atividade física para a estimativa do GET. 

Mifflin et al. (1990): 

É recomendada especialmente para indivíduos com sobrepeso e obesidade, por apresentar melhor aproximação dessa realidade clínica. Utiliza as variáveis peso, estatura e idade. 

Diferentemente da equação de Harris-Benedict, a equação de Mifflin pode empregar o valor de massa livre de gordura nos cálculos quando aplicada para indivíduos com sobrepeso. 

Além disso, é necessário aplicar o fator atividade física ao resultado obtido na equação para a estimativa do gasto energético total.  

FAO/WHO (1985/2004):  

Equações desenvolvidas para estimar as necessidades energéticas em populações adultas, considerando idade, sexo, peso corporal, sendo utilizadas sobretudo em contextos populacionais e epidemiológicos. 

Assim como as anteriores, define a TMB do indivíduo, devendo ser multiplicada pelo fator atividade para a obtenção do GET. 

EER/IOM (2023): 

A sigla EER corresponde ao termo em inglês Estimated Energy Requirement que, em português, significa Necessidade Energética Estimada.  

A primeira versão dessa fórmula foi publicada em 2005, mas a versão mais recente, publicada em 2023, foi atualizada usando técnicas mais modernas, o que ampliou a sua aplicabilidade para a população em geral.  

São consideradas as equações mais atuais para indivíduos saudáveis, incluindo crianças, adultos, gestantes e lactentes, e estimam o gasto energético a partir de variáveis como peso, estatura, idade, sexo e nível de atividade física.  

Fórmula de bolso (kcal/kg): 

Esse é um método prático e rápido, bastante utilizado na rotina clínica. Consiste na multiplicação do peso corporal por um valor calórico estimado (kcal/kg), definido de acordo com a condição nutricional e/ou patológica do indivíduo.  

O quadro abaixo demonstra os valores das taxas calóricas de acordo com cada condição ou objetivo: 

Condição fisiopatológica/ Objetivo nutricional Taxa calórica (kcal/kg de peso corporal) 
Perda de peso 20 a 25 kcal/kg de peso corporal 
Manutenção de peso 25 a 30 kcal/kg de peso corporal 
Ganho de peso 30 a 35 kcal/kg de peso corporal 

Além disso, também é possível realizar a estimativa da necessidade energética pela fórmula de bolso para crianças, levando em consideração a idade, conforme a tabela abaixo: 

Idade (anos) Necessidade energética (kcal/kg de peso corporal) 
0 a 1 90 a 120 kcal/kg de peso corporal 
1 a 7 75 a 90 kcal/kg de peso corporal 
7 a 12 60 a 75 kcal/kg de peso corporal 
12 a 18 30 a 60 kcal/kg de peso corporal 

Cunningham (1980): 

Equação indicada principalmente para indivíduos com baixo percentual de gordura e alto volume de massa muscular, sendo amplamente utilizada na avaliação de atletas e pessoas fisicamente ativas.  

Diferentemente de outras fórmulas, utiliza o peso corporal e a massa magra como parâmetros para o cálculo do gasto energético, e não diferencia sexo. 

Tinsley (2018): 

Essa também é uma equação indicada para indivíduos fisicamente ativos, especialmente aqueles com alto volume muscular e baixo percentual de gordura.  

Como escolher a melhor fórmula para cada paciente?

A escolha da fórmula para o cálculo energético deve sempre considerar o perfil do paciente, o contexto clínico e os objetivos de cada um, uma vez que não existe uma equação universalmente aplicável para todos os indivíduos.  

De forma geral, algumas orientações práticas podem auxiliar na tomada de decisão: 

  • Indivíduos eutróficos: as equações EER/IOM ou Harris-Benedict costumam apresentar boa aplicabilidade na prática clínica; 
  • Indivíduos com sobrepeso e obesidade: a equação de Mifflin et al é amplamente recomendada por apresentar melhor aproximação da realidade metabólica nesse grupo; 
  • Pacientes hospitalizados ou com doenças crônicas: Harris-Benedict pode ser utilizada, desde que ajustada com fator injúria, conforme a condição clínica;  
  • Indivíduos atletas ou com alto volume muscular: equações como Cunningham e Tinsley podem ser mais indicadas, pois consideram melhor a influência da massa magra no gasto energético. 

Independentemente da fórmula escolhida, é fundamental compreender que o cálculo energético representa uma estimativa inicial. A resposta clínica, a evolução do paciente e o acompanhamento contínuo devem orientar ajustes na prescrição nutricional ao longo do tempo. 

O que entendemos sobre cálculo energético então?

cálculo energético é uma ferramenta essencial na prática nutricional, mas não substitui o raciocínio clínico. Conhecer as fórmulas, entender suas indicações e limitações e saber interpretar corretamente os resultados são habilidades fundamentais para o Nutricionista. 

Mais do que encontrar um número exato, a prescrição nutricional eficaz depende da capacidade do Nutri de acompanhar a resposta do paciente, ajustar o plano alimentar e considerar a individualidade biológica, clínica e comportamental.  

Assim, mais importante é saber quando, como e com quem usar as equações, integrando o cálculo energético ao raciocínio clínico e à individualidade biológica de cada paciente. 

Referências

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  1. Tinsley GM, Graybeal AJ, Moore ML. Resting metabolic rate in muscular physique athletes: validity of existing methods and development of new prediction equations. Appl Physiol Nutr Metab. 2019 Apr;44(4):397-406. doi: 10.1139/apnm-2018-0412. Epub 2018 Sep 21. PMID: 30240568. 
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