Na pré-história, a evolução da espécie humana foi marcada por diferentes períodos, dentre os quais se destaca o período Paleolítico. Durante essa fase, os grupos humanos se organizavam em pequenas comunidades e dependiam diretamente de recursos disponíveis na natureza para sobreviver.
A alimentação, por exemplo, baseava-se exclusivamente na caça e coleta, bem antes do desenvolvimento do que conhecemos como agricultura e criação de animais. Nesse contexto, estabeleceu-se um modo de vida bem característico, onde os indivíduos ficaram conhecidos como “caçadores-coletores”.
Os hábitos alimentares desses indivíduos eram centrados em alimentos mais naturais e não processados, formando a base do que é a dieta paleolítica que conhecemos hoje.
Portanto, a dieta paleolítica pode ser caracterizada como um padrão alimentar inspirado na alimentação de populações que viveram no período Paleolítico, antes do desenvolvimento da agricultura. Além disso, nos últimos anos, esse modelo ganhou popularidade como estratégia para perda de peso e prevenção de doenças crônicas.
Contudo, junto a isso surgem alguns questionamentos importantes: será que a dieta paleolítica funciona? A dieta paleolítica faz sentido nos dias atuais, considerando o contexto alimentar, ambiental e científico?
Para responder, é necessário compreender o que é a dieta paleolítica, como funciona a dieta paleolítica, o que se come nesse padrão alimentar e quais são seus possíveis benefícios e limitações à luz das evidências científicas atuais.
Confira no texto a seguir um pouco mais sobre esse padrão alimentar e sua aplicabilidade nos dias atuais.
O que é a dieta paleolítica?
A dieta paleolítica, também chamada de “dieta do caçador-coletor”, é uma interpretação moderna do que se acredita ter sido o padrão alimentar dos ancestrais durante o período Paleolítico ou “Idade da Pedra”.
A versão moderna da dieta paleolítica surgiu na década de 1970, quando um médico gastroenterologista, Walter L. Voegtlin, publicou “A Dieta da Idade da Pedra”, defendendo uma alimentação rica em carne e pobre em carboidratos, baseada nos supostos hábitos dos caçadores-coletores.
Posteriormente, em 1985, propôs-se que doenças crônicas modernas poderiam estar relacionadas à incompatibilidade entre dietas atuais e os alimentos para os quais o organismo humano evoluiu.
Mais recentemente, em 2002, Loren Cordain popularizou a dieta paleolítica com o livro “A Dieta Paleo: Perca peso e fique saudável comendo os alimentos para os quais você foi projetado”, reforçando a ideia de alinhar a alimentação contemporânea aos padrões biológicos dos nossos ancestrais.
Desde então, a dieta paleolítica vem sendo constantemente estudada por diversos pesquisadores, e se popularizou em algumas regiões.
Para entender: como funciona a dieta paleolítica?
Esse modelo busca reproduzir os hábitos alimentares dos humanos anteriores ao desenvolvimento da agricultura, focando-se em alimentos obtidos por meio da caça, pesca e coleta.
Ou seja, colocando os princípios em prática, a dieta paleolítica prioriza alimentos in natura e minimamente processados integrais. Ao mesmo tempo, restringe ou elimina alimentos introduzidos após a revolução agrícola, incluindo grãos, leguminosas, laticínios, açúcares refinados e produtos industrializados e ultraprocessados.
Com base nessa lógica, a dieta paleolítica propõe a hipótese de que essa estratégia possa contribuir para a melhora de marcadores metabólicos. Essa ideia parte do princípio de que muitas doenças crônicas modernas estariam relacionadas à diferença entre a alimentação atual, rica em alimentos ultraprocessados e alta densidade calórica, em contraste com a alimentação ancestral.
O que se come na dieta paleolítica?
Atualmente, a dieta Paleo é caracterizada por:
Maior consumo de
- Frutas;
- Vegetais;
- Raízes e tubérculos;
- Carnes magras;
- Peixes e frutos do mar;
- Ovos;
- Nozes.
Menor consumo (ou exclusão) de
- Laticínios;
- Grãos;
- Leguminosas;
- Açúcar adicionado;
- Alimentos ultraprocessados.
Não há uma distribuição fixa de macronutrientes. No entanto, esse padrão alimentar costuma apresentar maior ingestão de proteínas e menor consumo de carboidratos, quando comparado à dieta ocidental padrão.
Dieta paleolítica benefícios e malefícios
Estudos observacionais e ensaios clínicos sugerem que a dieta paleolítica pode estar associada a melhorias em diferentes marcadores metabólicos, como:
- Risco cardiovascular: maior adesão ao padrão paleolítico tem sido associada à redução do risco de doenças cardiovasculares. Parte desse efeito pode estar relacionada à menor ingestão de alimentos ultraprocessados e açúcares adicionados.
- Mortalidade: pesquisas de coorte indicam associação entre maior adesão ao padrão e menor risco de mortalidade por todas as causas, embora os mecanismos envolvidos ainda sejam discutidos.
- Saúde metabólica e diabetes tipo 2: em indivíduos com diabetes tipo 2, o padrão paleolítico demonstrou melhora no controle glicêmico, redução de triglicerídeos e melhora da sensibilidade à insulina quando comparado a dietas convencionais em alguns estudos.
- Composição corporal: revisões sistemáticas apontam redução de peso corporal, IMC e circunferência da cintura, especialmente no curto prazo.
É importante destacar que muitos desses efeitos podem estar relacionados à redução do consumo de alimentos ultraprocessados e ao aumento da ingestão de alimentos in natura.
Além disso, algumas evidências científicas sobre os efeitos da dieta paleolítica na prevenção de obesidade, diabetes, dislipidemias e doenças cardiovasculares ainda são limitadas e inconclusivas.
Isso porque grande parte dos estudos apresenta amostras reduzidas, curta duração do acompanhamento e heterogeneidade nos protocolos alimentares aplicados. Nesse sentido, há uma maior dificuldade na interpretação dos resultados e consolidação das associações.
Apesar dos possíveis benefícios, a dieta paleolítica é considerada um padrão alimentar restritivo e apresenta algumas limitações:
- Deficiência de micronutrientes: a exclusão de laticínios e a restrição de sal iodado podem comprometer a ingestão dos micronutrientes cálcio e iodo, especialmente em consumos prolongados.
- Exclusão de grupos de alimentos importantes: grãos integrais e leguminosas estão associados à redução de risco cardiovascular e melhora da saúde intestinal, o que gera debate sobre a exclusão desses grupos.
- Sustentabilidade e custo: o maior consumo de proteínas animais pode elevar o custo da alimentação e impactar a sustentabilidade ambiental.
- Maior consumo de proteína de origem animal: além das implicações econômicas e ambientais, a ingestão elevada de carne vermelha pode impactar negativamente a saúde cardiovascular.
Para quem a dieta paleolítica é indicada?
A dieta paleolítica não apresenta uma indicação concretizada ou público-alvo específico. No entanto, muitos artigos científicos avaliam seus efeitos em indivíduos com sobrepeso e obesidade, e/ou que apresentam doenças crônicas não transmissíveis.
Apesar disso, pode não ser a melhor estratégia para pessoas com risco de baixa ingestão de cálcio, atletas de alta demanda energética sem ajuste adequado de carboidratos, ou indivíduos com dificuldade de adesão a padrões alimentares restritivos.
Portanto, o acompanhamento nutricional é crucial para garantir a adequação de macro e micronutrientes, prevenir possíveis deficiências e ajustar o plano alimentar conforme as necessidades de cada indivíduo.
Conclusão
Ao avaliar os benefícios e malefícios da dieta paleolítica, observa-se que esse padrão alimentar pode estar associado a melhorias metabólicas e antropométricas, especialmente quando comparado a padrões alimentares ricos em alimentos ultraprocessados.
No entanto, é importante considerar que se trata de um padrão alimentar restritivo, que exclui grupos com evidência científica de benefícios à saúde, como grãos integrais e leguminosas.
Parte dos efeitos positivos descritos nas evidências científicas sobre a dieta paleo pode estar relacionada à melhora global da qualidade da alimentação, com maior consumo de frutas, vegetais, peixes e nozes, alimentos que são fontes de fibras, micronutrientes e ácidos graxos mono e poli-insaturados (MUFA e PUFA).
Além disso, também há uma redução do consumo de alimentos processados e ultraprocessados, açúcar, óleos refinados e excesso de sal, alimentos e ingredientes cujo consumo excessivo está sabidamente associado a impactos negativos na saúde.
Ou seja, os benefícios podem decorrer mais da melhora global da qualidade da dieta do que da dieta paleolítica em si.
Dessa forma, ao questionar se a dieta paleolítica faz sentido nos dias atuais, é fundamental considerar que a escolha de qualquer padrão alimentar deve priorizar equilíbrio nutricional, adequação às necessidades do indivíduo e uma abordagem baseada em evidências, evitando restrições desnecessárias que possam comprometer a diversidade alimentar e a sustentabilidade da dieta.
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