O uso de medicamentos como semaglutida e tirzepatida pode promover uma perda de peso significativa durante o tratamento. Entretanto, após a interrupção, o reganho de peso é frequente e pode ser acompanhado pelo retorno da fome, mudanças no comportamento alimentar e preocupação com a possibilidade de recuperar os resultados alcançados.
Isso acontece porque, com a suspensão, os efeitos do medicamento sobre a fome e a saciedade deixam de atuar, enquanto adaptações fisiológicas relacionadas ao próprio emagrecimento podem dificultar a manutenção do peso perdido. Por isso, o reganho de peso não deve ser interpretado como falta de disciplina ou dificuldade em seguir o tratamento.
Nesse período, reorganizar a alimentação, lidar com o retorno do apetite e cuidar da relação com a comida e com o próprio corpo são partes importantes da nova fase. Mas como fazer essa transição e reduzir o risco de reganho de peso após parar as canetas emagrecedoras? A seguir, entenda quais estratégias nutricionais, comportamentais e de estilo de vida podem ajudar na manutenção dos resultados.
Por que pode ocorrer reganho de peso após parar de usar as canetas emagrecedoras?
Os medicamentos baseados em incretinas, como Mounjaro e Ozempic, atuam em mecanismos centrais envolvidos na regulação da fome e da saciedade no cérebro, além de retardarem o esvaziamento gástrico. Enquanto estão sendo utilizados, esses efeitos contribuem para que, por exemplo, muitas pessoas sintam menos fome, reduzam o consumo de calorias e experimentem um alívio do “ruído alimentar”, quando a comida ocupa a mente.
Quando o medicamento é suspenso, seu efeito farmacológico deixa de atuar. Ao mesmo tempo, o próprio emagrecimento pode desencadear adaptações fisiológicas que favorecem o aumento da fome e dificultam a manutenção do peso perdido.
De fato, os ensaios clínicos ajudam a demonstrar esse fenômeno. Em um estudo, participantes que interromperam a semaglutida apresentaram aumento médio de 6,9% do peso corporal nas semanas seguintes, enquanto aqueles que continuaram o tratamento mantiveram a trajetória de perda de peso.
Da mesma forma, com a tirzepatida, foram encontrados resultados semelhantes. Após uma perda média de 20,9% durante as primeiras semanas de tratamento, os participantes que interromperam o tratamento apresentaram aumento médio de 14,0% do peso. 3
Esses achados reforçam que a obesidade é uma condição crônica. Portanto, o período após a suspensão precisa ser considerado como uma nova etapa do cuidado, que demanda reorganização alimentar, prática de exercício físico e acompanhamento multidisciplinar.
O retorno da fome significa que o tratamento não funcionou?
Antes de tudo, é importante destacar que sentir mais fome depois de interromper a medicação não significa necessariamente que o tratamento falhou ou que a pessoa perdeu o controle sobre a alimentação.
Durante o uso das canetas emagrecedoras, é comum ocorrer redução da fome, do apetite e da ingestão alimentar. Algumas pessoas também relatam diminuição da preocupação recorrente com comida, frequentemente descrita como food noise.
Com a interrupção, essas experiências podem mudar novamente.
Por isso, compreender previamente que a fome pode aumentar ajuda a evitar que essa mudança seja interpretada como falta de força de vontade. Além disso, permite planejar estratégias para lidar com a nova percepção dos sinais de fome e saciedade.
Nesse momento, tentar compensar o retorno do apetite com restrições alimentares intensas ou longos períodos sem comer pode dificultar a construção de uma rotina sustentável. A alimentação precisa ser reorganizada para essa nova fase, considerando as necessidades nutricionais e a resposta individual.
Como organizar a alimentação para reduzir o risco de reganho de peso?
Depois da interrupção das canetas emagrecedoras, o objetivo não deve ser tentar compensar o retorno do apetite por meio de uma restrição alimentar intensa. Uma estratégia mais sustentável é estruturar uma rotina alimentar que favoreça adequação nutricional e saciedade. Alguns cuidados incluem:
- Incluir fontes de proteínas ao longo do dia, como ovos, carnes, peixes, leite e derivados e leguminosas;
- Consumir frutas, vegetais, cereais integrais e leguminosas como fontes de fibras;
- Priorizar alimentos in natura ou minimamente processados;
- Manter uma hidratação adequada;
- Evitar permanecer longos períodos sem comer quando isso resultar em fome excessiva;
- Planejar refeições e lanches de acordo com a rotina e as necessidades individuais;
- Observar os sinais de fome e saciedade durante a adaptação após a retirada do medicamento.
A ingestão adequada de proteínas merece atenção principalmente porque a perda de peso pode ser acompanhada por redução de massa magra. A necessidade deve ser individualizada de acordo com características clínicas, composição corporal, alimentação e nível de atividade física.
O acompanhamento nutricional também pode ajudar a ajustar a quantidade e a distribuição dos alimentos conforme o apetite retorna, sem recorrer a dietas excessivamente restritivas para tentar impedir qualquer oscilação do peso.
Como lidar com o medo de recuperar o peso perdido?
O medo do reganho de peso pode surgir principalmente quando a perda foi expressiva ou aconteceu em um intervalo relativamente curto.
Depois de vivenciar mudanças no corpo, nas roupas, na alimentação e até na forma como outras pessoas reagem à aparência, a possibilidade de recuperar parte do peso pode gerar ansiedade, frustração ou preocupação excessiva com a balança.
Esse medo também pode favorecer comportamentos pouco sustentáveis, como restrição alimentar intensa, pesagens muito frequentes ou preocupação constante com alimentação e aparência.
Por isso, a manutenção dos resultados não deve ser avaliada exclusivamente pelo peso. Mudanças no comportamento alimentar, composição corporal, prática de atividade física, qualidade da alimentação e parâmetros de saúde também podem fazer parte do acompanhamento.
Além disso, estratégias comportamentais como planejamento prévio, automonitoramento do peso corporal e manejo do estresse podem ajudar durante essa fase. Quando existe sofrimento relacionado à comida, ao corpo ou ao medo de engordar, o acompanhamento psicológico também pode ser necessário.
Exercício físico ajuda a manter o peso perdido?
Sem dúvida, o exercício físico é outro componente importante durante e após o tratamento.
O treinamento resistido, como a musculação, fornece estímulo para preservação e desenvolvimento da massa muscular. Esse cuidado é particularmente relevante durante processos de emagrecimento, nos quais parte da massa perdida pode ser composta por tecido magro.
Exercícios aeróbicos também podem fazer parte da rotina e oferecem benefícios para a saúde cardiovascular, capacidade física e saúde geral.
Por isso, quando possível, combinar exercícios resistidos e aeróbicos é mais interessante do que utilizar a atividade física apenas como uma forma de aumentar o gasto calórico para compensar a alimentação.
A prática deve respeitar condições clínicas, capacidade funcional, preferências e possibilidades individuais.
Por que o acompanhamento deve continuar depois de parar a medicação?
A interrupção do medicamento não representa necessariamente o fim do tratamento da obesidade.
Afinal, após a suspensão, o acompanhamento permite observar mudanças na fome, no comportamento alimentar, no peso, na composição corporal e em parâmetros cardiometabólicos.
Também é uma oportunidade para adaptar estratégias que funcionavam durante o uso do medicamento. Uma pessoa que apresentava pouco apetite, por exemplo, pode precisar reorganizar quantidades e horários das refeições quando a fome retorna.
Da mesma forma, o acompanhamento psicológico pode ser importante quando surgem ansiedade, medo intenso de recuperar peso, sofrimento relacionado à imagem corporal ou comportamentos alimentares excessivamente restritivos.
Assim, médico, nutricionista, profissional de educação física e psicólogo podem participar do cuidado de acordo com as necessidades individuais.
Como reduzir o risco de reganho de peso após parar as canetas emagrecedoras?
O reganho de peso é frequente após a interrupção de medicamentos como Mounjaro e Ozempic, mas não deve ser entendido simplesmente como falta de disciplina ou fracasso do tratamento.
A retirada do efeito farmacológico, o retorno do apetite e as adaptações fisiológicas relacionadas à perda de peso ajudam a explicar por que a manutenção pode se tornar mais difícil.
| Desafio/Mudança | Estratégia Recomendada |
|---|---|
| Efeito farmacológico e alterações da descontinuação | Evitar dietas muito restritivas como forma de compensação. |
| Fase de pós-descontinuação | Reorganização abrangente envolvendo alimentação adequada, atividade física, preservação da massa muscular, estratégias comportamentais e atenção à saúde mental. |
Planejar essa transição antes mesmo da última dose e manter o acompanhamento depois da interrupção pode ajudar a identificar precocemente dificuldades e adaptar as estratégias às novas necessidades.
O cuidado após as canetas emagrecedoras deve buscar resultados sustentáveis, preservando a saúde física, a relação com a alimentação e o bem-estar psicológico.
Referências
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- TZANG, Chih-Chen et al. Metabolic rebound after GLP-1 receptor agonist discontinuation: a systematic review and meta-analysis. EClinicalMedicine, v. 90, 2025.
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- SIEVENPIPER, J. L. et al. Nutritional and lifestyle supportive care recommendations for management of obesity with GLP-1-based therapies: An expert consensus statement using a modified Delphi approach. Obesity pillars, p. 100228, 2025.

