Nos últimos anos, as “canetas emagrecedoras” vêm ganhando cada vez mais destaque como uma alternativa rápida de perda de peso. Mais conhecidas por seus nomes comerciais Ozempic, Wegovy e Mounjaro, essas medicações estão levantando um intenso debate e provavelmente você já ouviu várias discussões sobre elas, seja em conversas com amigos, na internet ou na televisão.

Esses medicamentos foram desenvolvidos originalmente para o controle da diabetes tipo 2 e tiveram sua indicação expandida para o tratamento da obesidade. A grande problemática é que, diante do seu grande potencial de promover o emagrecimento rápido, eles passaram a ser amplamente utilizados de forma “off-label”, ou seja, sem indicação clínica, o que pode acarretar em danos à saúde.
O “boom” do uso dessas canetas ganhou ainda mais força pelo culto à magreza extrema e o apelo no emagrecimento feminino, público que está mais exposto à imposição de padrões estéticos e problemas de autoestima.
Historicamente, o corpo da mulher sempre foi alvo de julgamentos e comparações, que, atualmente, são cada vez mais potencializados pelas redes sociais, influenciadores e pela mídia. Essa cobrança acompanha as mulheres ao longo de toda a vida: desde a infância, adolescência, na vida adulta e até no envelhecimento.
Diante disso, é importante questionarmos: As canetas emagrecedoras são uma solução para todos? Elas são realmente necessárias ou fazem parte de mais uma tendência perigosa dos padrões estéticos femininos?
Pressão estética em cada fase da mulher
Cada fase de vida é acompanhada por uma série de mudanças hormonais na mulher, o que pode influenciar em diversos aspectos estéticos e principalmente na resistência biológica à perda de peso. Mas em dois momentos essa pressão pode ser mais forte: na aceitação do corpo no pós-parto e no envelhecimento.
Como consequência, àquelas que não se enquadram nos padrões de beleza femininos de magreza impostos pela sociedade, buscam diversas alternativas para se adequarem, entre elas, o uso das canetas emagrecedoras.
No puerpério, o corpo passa por diversas alterações hormonais, além de comumente ocorrer retenção de peso. Esses fatores, aliado a todas as outras mudanças vivenciadas nessa fase, impactam diretamente na saúde emocional da mulher. Diante dessa vulnerabilidade física e mental, a pressão para emagrecer se torna ainda mais forte, incentivando a busca de soluções rápidas.
Como exemplo, podemos citar o caso da ex-tenista profissional Serena Willians. Recentemente ela revelou em uma entrevista que após a gestação, o seu corpo não “respondia mais da mesma forma”, e por isso, “seu organismo precisava” das canetas emagrecedoras.
Isso nos leva a refletir: se até mesmo uma ex-atleta de alta performance, com treinos intensos, alimentação equilibrada e com um corpo definido sentiu essa necessidade, como mulheres anônimas que enfrentam os mesmos desafios sem todo o suporte da atleta podem enxergar esses medicamentos?
Além do pós-parto, outro momento de intensa pressão é a chegada da menopausa e o ganho de peso. As mudanças hormonais na mulher durante esse período contribuem para a alteração da composição corporal e no favorecimento do acúmulo de gordura. Somada ao aparecimento de pele flácida, rugas e do cabelo grisalho, o ganho de peso contribui ainda mais para problemas relacionados a autoestima e na saúde emocional da mulher madura.
Esses cenários contribuem para que mulheres em diferentes faixas etárias e estados de saúde estejam recorrendo as canetas emagrecedoras para se encaixarem no peso aceitável pela sociedade.
Afinal, esses remédios são para todos?
Diante dos resultados considerados “milagrosos” que esses medicamentos prometem, será que eles seriam a resposta para que todas as mulheres se encaixem no que é considerado “bonito” pelos padrões estéticos?
A resposta é não! O uso das canetas emagrecedoras, embora promova a perda de peso rápida, exige indicação clínica criteriosa e supervisão médica cuidadosa. Já são relatados diversos efeitos colaterais, como vômitos, náuseas, fraqueza, perda de apetite, que podem levar a possíveis deficiências nutricionais.
Além disso, um efeito estético notável é a perda de gordura facial que resulta em uma aparência envelhecida e flácida, podendo, ironicamente, impactar negativamente a autoestima do indivíduo.
Como vencer as tendências estéticas?
A busca pela autoestima deve começar pela autoaceitação, reconhecimento e pela valorização de qualidades internas e externas. Muito além do apelo estético, essa prática deve ser motivada pela preocupação com a saúde, bem-estar e a promoção de um envelhecimento saudável.
Existem caminhos mais equilibrados para a perda de peso, como a adoção de uma alimentação adequada, prática de exercícios físicos e o autocuidado. É claro que o processo pode ser um pouco mais lento e difícil sem o uso de medicamentos, mas em compensação, não há efeitos colaterais e os resultados são, sem dúvida alguma, mais benéficos. Contar com profissionais capacitados como nutricionistas, médicos, educadores físicos e psicólogos é fundamental para chegar ao emagrecimento saudável.
Além disso, vale lembrar que o corpo expressa a história da sua vida. As mudanças corporais que surgem com a idade, as marcas da gravidez, os sinais de envelhecimento carregam uma série de memórias e emoções, e valem muito mais que uma tendência perigosa.
Referências
- RYAN, Nanette; SAVULESCU, Julian. The Ethics of Ozempic and Wegovy. Journal of Medical Ethics, 2025.
- Gois, Ísis ., & Faria, A. L. de . (2021). A cultura da magreza como fator social na etiologia de transtornos alimentares em mulheres: uma revisão narrativa da literatura: doi.org/10.29327/217514.7.1-12. Revista Ibero-Americana De Humanidades, Ciências E Educação, 7(1), 18.
- Wu CH, Gau ML, Cheng SF, Chen TL, Wu CJ. Excessive gestational weight gain and emotional eating are positively associated with postpartum depressive symptoms among taiwanese women. BMC Womens Health. 2023 Sep 1;23(1):464. doi: 10.1186/s12905-023-02625-4. PMID: 37658388; PMCID: PMC10474696.
- SERENA WILLIAMS, tenista, revela uso de caneta emagrecedora e vira garota-propaganda de Mounjaro. O Globo, 22 ago. 2025. Saúde. Disponível em: https://oglobo.globo.com/saude/noticia/2025/08/22/serena-williams-tenista-revela-uso-de-caneta-emagrecedora-e-vira-garota-propaganda-de-mounjaro.ghtml
- Yelland, S., Steenson, S., Creedon, A. & Stanner, S. (2023) The role of diet in managing menopausal symptoms: A narrative review. Nutrition Bulletin, 48, 43–65. https://doi.org/10.1111/nbu.12607

