Introdução
Falar sobre saúde da população negra no Brasil é falar sobre desigualdades, heranças históricas e sobre caminhos de cuidado que fazem diferença ao longo da vida.
E existe um consenso na literatura científica que algumas doenças são mais prevalentes na população negra devido à uma combinação de fatores genéticos e, sobretudo, fatores ambientais, como socioeconômicos e de estilo de vida.
Dentre as condições com maior incidência nessa população, destacam-se a hipertensão arterial, diabetes mellitus tipo 2, anemia e doenças falciformes. A maior parte dessas condições tem relação com a alimentação, estilo de vida e com o ambiente em que as pessoas vivem.
Diante desse cenário, a nutrição surge como uma ferramenta poderosa de prevenção e cuidado. Por isso, compreender os principais alimentos e hábitos alimentares que ajudam a prevenir doenças comuns na população negra é uma forma de mitigar os riscos e promover um cuidado integral, valorizando a saúde e o bem-estar geral dessa população.
Ao longo deste texto, você verá como a alimentação pode atuar na prevenção de doenças mais comuns na população negra.
Hipertensão Arterial
A hipertensão é uma das doenças mais comuns na população negra, e tanto a sua gravidade quanto a frequência de complicações relacionadas a essa condição tendem a ser maiores nesse grupo. Um dos fatores que ajudam a explicar o porquê desse risco aumentado são as diferenças e variações genéticas, que podem influenciar nos mecanismos de regulação da pressão arterial.
Apesar disso, não estão completamente esclarecidas as causas exatas dessa maior suscetibilidade. Contudo, alguns estudos apontam hipóteses que envolvem os fatores ambientais e sociais, para além da questão genética. Uma das hipóteses, apresentada no artigo de Elijovich F. et al. (2025), sugere que indivíduos negros tendem a apresentar aumentos mais intensos da pressão arterial quando expostos ao sódio, mesmo sem consumo excessivo.
Isso ocorre porque mecanismos renais, vasculares e hormonais envolvidos na regulação do sódio parecem ser diferentes nessas populações, contribuindo para valores pressóricos mais altos.
Alimentos e hábitos alimentares que ajudam a prevenir a hipertensão arterial:
Diante da maior incidência e prevalência de hipertensão na população negra, a alimentação ganha um papel central tanto para a prevenção, quanto no controle da doença.
Os padrões alimentares mais protetores são aqueles que incluem mais frutas, vegetais, grãos integrais e alimentos in natura, como orienta a dieta DASH. Quanto mais alimentos frescos, naturais e minimamente processados, maior o impacto na redução da pressão arterial. Por isso, inclua no seu dia a dia:
- Frutas;
- Vegetais variados;
- Grãos integrais e leguminosas (feijões, grão de bico, lentilha, ervilha e soja);
- Alimentos fonte de gorduras boas, como azeite de oliva extravirgem, abacate, nozes e sementes, peixes;
- Preparações caseiras, diminuindo o consumo dos ultraprocessados;
- Uso de temperos naturais no lugar de caldos e outros temperos prontos.
Evidências recentes mostram que seguir o padrão DASH e reduzir a ingestão de sódio produz reduções expressivas da pressão arterial e melhora do risco cardiovascular.
Diabetes Mellitus Tipo 2 (DM2)
O diabetes tipo 2 também está entre as doenças mais comuns na população negra, com pesquisas mostrando que intervenções nutricionais culturalmente adaptadas, que levam em consideração os sabores, preparos e alimentos familiares, podem melhorar marcadores metabólicos importantes, incluindo a redução da glicemia (HbA1c).
De forma geral, uma dieta equilibrada, rica em alimentos integrais, leguminosas, frutas, verduras, legumes e proteínas magras, é fundamental para a prevenção de DM2. Além disso, é fundamental evitar os alimentos ultraprocessados, em sua maioria ricos em açúcares, gorduras saturadas, sódio e aditivos alimentares.
E o ponto central não é “seguir uma dieta ideal”, mas adaptar a alimentação para que ela caiba na rotina e na cultura alimentar de cada indivíduo.
Outros desafios
A adesão à DASH ou padrão alimentar Mediterrâneo pode enfrentar desafios práticos, uma vez que o acesso a alimentos frescos é desigual e difícil em alguns casos. Além disso, muitas vezes não há adaptações culturais das receitas, o que pode dificultar a aceitação e adesão.
Contudo, quando esses fatores são considerados na elaboração de um plano alimentar, a adesão melhora e os benefícios são mais evidentes. Por isso, estratégias de prevenção de doenças em população negra devem respeitar o repertório alimentar da população e levar em consideração fatores socioeconômicos que acabam influenciando as escolhas alimentares.
No Brasil, esse debate precisa considerar desigualdades estruturais que atravessam a população negra. Pessoas negras vivem, em média, sob piores condições de moradia, renda e saneamento, além de enfrentarem maior dificuldade de acesso a serviços de saúde. Esses determinantes influenciam diretamente a alimentação e dificultam a adoção de padrões alimentares protetores.
Portanto, promover saúde da população negra no Brasil exige reconhecer essas vulnerabilidades e ampliar o acesso a recursos básicos.
Conclusão
Promover a saúde da população negra no Brasil é reconhecer que alimentação, cultura e acesso caminham lado a lado. As doenças mais comuns nesse grupo têm relação direta com o ambiente alimentar e com condições sociais que muitas vezes dificultam escolhas saudáveis, além de fatores genéticos não modificáveis.
É importante destacar que nenhum alimento isolado tem o poder de prevenir completamente uma doença. Embora certos alimentos desempenhem um papel importante na redução do risco, o conjunto das escolhas alimentares equilibradas associadas a um estilo de vida saudável é o que realmente contribui para a prevenção das doenças mais comuns na população negra.
Falar em prevenção de doenças na população negra vai muito além de listar nutrientes: envolve construir estratégias possíveis, que respeitem a rotina, os sabores, a cultura alimentar e a realidade de acesso das pessoas. Alimentos in natura, frutas, vegetais e preparações caseiras seguem como pilares importantes, mas é a forma como essas orientações se conectam ao cotidiano que realmente faz diferença.
Referências
- Elijovich F, Kirabo A, Laffer CL. Salt Sensitivity of Blood Pressure in Black People: The Need to Sort Out Ancestry Versus Epigenetic Versus Social Determinants of Its Causation. Hypertension. 2024 Mar;81(3):456-467. doi: 10.1161/HYPERTENSIONAHA.123.17951. Epub 2023 Sep 28. PMID: 37767696; PMCID: PMC10922075.
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- Wadi, Noor M et al. Culturally tailored lifestyle interventions for the prevention and management of type 2 diabetes in adults of Black African ancestry: a systematic review of tailoring methods and their effectiveness. Public health nutrition vol. 25,2 (2022): 422-436. doi:10.1017/S1368980021003682
- MINISTÉRIO DA SAÚDE (Brasil). Boletim temático da Biblioteca do Ministério da Saúde. Brasília: Ministério da Saúde, v. 1, n. 1, mar. 2021. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/boletim_tematico/populacao_negra_novembro_2022.pdf

