A síndrome dos ovários policísticos mudou de nome: o que isso significa?

Na imagem, uma representação do sistema reprodutor feminino para falar da síndrome dos ovários policísticos.

A síndrome dos ovários policísticos passou recentemente por uma mudança histórica de nomenclatura após um consenso internacional envolvendo especialistas, organizações científicas e pacientes de diferentes países. Agora, a condição passa a ser chamada de Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina (SOMP).

A mudança busca representar de forma mais adequada a complexidade da síndrome, que vai muito além da presença de alterações ovarianas. Além das manifestações reprodutivas, a condição também envolve alterações hormonais, metabólicas e impactos psicológicos importantes.

Apesar da atualização do nome, por enquanto, os critérios diagnósticos e o tratamento permanecem os mesmos. 

O principal objetivo da mudança é melhorar a compreensão da síndrome dos ovários policísticos entre pacientes e profissionais de saúde, reduzindo interpretações equivocadas e ampliando o olhar sobre os diferentes impactos da condição. 

Neste texto, vamos explicar por que a síndrome dos ovários policísticos passou a ser chamada de Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina, quais foram os motivos para a mudança e o que permanece igual no diagnóstico e no tratamento. 

Epidemiologia da síndrome dos ovários policísticos

A síndrome dos ovários policísticos é uma das condições endócrinas mais frequentes em mulheres em idade reprodutiva. Segundo o consenso global publicado no The Lancet em 2026, a condição afeta cerca de uma em cada oito mulheres no mundo, representando mais de 170 milhões de pessoas.

Apesar da alta prevalência, muitas pacientes ainda permanecem sem diagnóstico ou recebem a confirmação apenas após anos de investigação. 

Esse atraso pode ocorrer porque a síndrome dos ovários policísticos apresenta manifestações variadas, que envolvem alterações menstruais, hiperandrogenismo, resistência à insulina, sintomas dermatológicos e impactos emocionais.

Nesse sentido, a mudança de nomenclatura também busca ampliar o reconhecimento da condição e facilitar a comunicação entre pacientes e profissionais de saúde, favorecendo um diagnóstico mais oportuno e uma abordagem clínica mais completa.

O que mudou no nome da síndrome dos ovários policísticos?

Agora passa a ser denominada Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina (SOMP). A atualização foi definida após um consenso global publicado no periódico científico The Lancet e envolvendo 56 organizações científicas e grupos de pacientes. 

Segundo os especialistas envolvidos no processo, o nome anterior era considerado limitado e pouco representativo da complexidade da síndrome dos ovários policísticos

Isso porque o termo focava principalmente nos ovários, enquanto a condição apresenta manifestações hormonais, metabólicas, dermatológicas e reprodutivas. 

Além disso, o novo nome também busca melhorar a comunicação sobre a síndrome dos ovários policísticos e reduzir estigmas relacionados ao diagnóstico, principalmente em pacientes que associavam a condição exclusivamente à fertilidade ou à presença de “cistos” nos ovários.

Por que o termo “ovários policísticos” era considerado inadequado?

Um dos principais motivos para a mudança é que o nome síndrome dos ovários policísticos pode gerar interpretações equivocadas. Apesar do termo, a condição não é caracterizada pela presença de cistos ovarianos patológicos.

No exame, o ultrassom costuma identificar múltiplos pequenos folículos ovarianos com desenvolvimento interrompido, e não cistos propriamente ditos. 

Além disso, outro ponto importante é que nem todas as mulheres com essa síndrome apresentam alterações ovarianas visíveis nos exames de imagem. Em alguns casos, os sintomas hormonais e metabólicos estão presentes mesmo sem alterações características no ultrassom. 

Essa limitação do nome também contribuía para uma visão muito restrita da condição, frequentemente associada apenas à ginecologia e à fertilidade. No entanto, atualmente já se sabe que a síndrome dos ovários policísticos possui impactos muito mais amplos sobre a saúde metabólica e hormonal feminina.

O que significa SOMP?

A nova sigla “SOMP” significa Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina. Cada termo foi escolhido para refletir características importantes da antiga denominação.

O termo “metabólica” reforça a relação da condição com alterações como resistência à insulina, obesidade e maior risco cardiometabólico.

Já “poliendócrina” destaca o envolvimento de diferentes hormônios e sistemas endócrinos no desenvolvimento da síndrome, como insulina, androgênios, hormônio luteinizante (LH) e hormônio antimülleriano (AMH).

A escolha do novo nome também levou em consideração fatores como clareza na comunicação, precisão científica e facilidade de implementação global. Além disso, especialistas envolvidos no consenso destacaram a importância de um nome que representasse melhor os impactos da síndrome dos ovários policísticos ao longo da vida da paciente.  

A síndrome dos ovários policísticos vai muito além dos ovários

A síndrome dos ovários policísticos está associada a diferentes alterações hormonais, metabólicas e reprodutivas. Entre os sintomas mais frequentes estão irregularidade menstrual, acne, aumento de pelos em regiões de padrão masculino e ganho de peso.

Além das manifestações reprodutivas, a condição também pode estar relacionada à resistência à insulina, presente em cerca de 85% das pacientes.

Pacientes apresentam maior risco cardiometabólico, incluindo diabetes tipo 2 e hipertensão arterial, quando comparadas à população geral. Ademais, outro aspecto importante envolve os impactos emocionais, com maiores taxas de ansiedade e depressão.

Nesse contexto, a mudança de nomenclatura também busca ampliar a compreensão da síndrome dos ovários policísticos como uma condição sistêmica, e não apenas ginecológica.

O diagnóstico da síndrome dos ovários policísticos mudou?

Apesar da mudança no nome, os critérios diagnósticos permanecem os mesmos. O diagnóstico continua sendo realizado a partir da avaliação clínica, laboratorial e de imagem, após exclusão de outras condições hormonais que possam apresentar sintomas semelhantes. 

Em mulheres adultas, o diagnóstico considera a presença de pelo menos dois dos seguintes critérios: 

  1. Irregularidade menstrual ou disfunção ovulatória;
  2. Hiperandrogenismo clínico ou laboratorial (excesso de hormônios masculinos);
  3. Alterações ovarianas compatíveis ao ultrassom ou níveis elevados de hormônio antimülleriano (AMH).

Já as adolescentes (com idade entre 10 e 19 anos) devem apresentar os dois primeiros critérios para o diagnóstico.

O que muda para pacientes e profissionais de saúde?

A mudança no nome da síndrome dos ovários policísticos não altera o tratamento nem os exames utilizados no acompanhamento clínico. O principal impacto está na forma como a condição é comunicada, buscando reduzir o estigma e melhorar a compreensão sobre a natureza sistêmica e multidisciplinar da doença.

Para pacientes, a atualização pode ajudar a reduzir interpretações equivocadas sobre a presença de “cistos” ovarianos e ampliar a compreensão sobre os impactos metabólicos e hormonais envolvidos na síndrome dos ovários policísticos.

Já para os profissionais de saúde, a mudança reforça a necessidade de um olhar mais amplo e multidisciplinar para o manejo da condição. Isso inclui não apenas os sintomas reprodutivos, mas também aspectos metabólicos, cardiovasculares, comportamentais e emocionais.

Além disso, especialistas envolvidos no consenso destacam que a atualização da nomenclatura pode contribuir para melhorar políticas públicas, linhas de pesquisa e estratégias de educação em saúde relacionadas à síndrome dos ovários policísticos

Apesar disso, a transição para a nova nomenclatura será gradual, ao longo de três anos, com atualização de prontuários, diretrizes clínicas e sistemas de codificação global, como o CID. Isso reforça a necessidade de um olhar multidisciplinar para o manejo da condição. 

O papel da alimentação e do acompanhamento multidisciplinar

A alimentação possui papel importante no manejo da síndrome dos ovários policísticos, principalmente nos casos associados à resistência à insulina, excesso de peso e alterações metabólicas.

Mudanças no estilo de vida são consideradas parte importante do tratamento da síndrome dos ovários policísticos. Ou seja, estratégias alimentares individualizadas, associadas à prática regular de exercícios físicos, podem contribuir para a melhora da sensibilidade à insulina, organização dos ciclos menstruais e redução de fatores de risco cardiometabólicos.

Na prática clínica, abordagens com alimentos de menor carga glicêmica, aumento do consumo de fibras e redução de alimentos ultraprocessados costumam fazer parte das estratégias utilizadas no acompanhamento nutricional. 

Além disso, a prática de exercícios físicos também pode auxiliar no controle do peso, na resistência à insulina e no hiperandrogenismo.

Alguns micronutrientes e compostos bioativos também vêm sendo estudados no contexto da síndrome dos ovários policísticos, como vitamina D, magnésio, cromo, mio-inositol, coenzima Q10 e vitamina E. 

Esses nutrientes podem estar relacionados à melhora de parâmetros metabólicos, hormonais e inflamatórios em algumas pacientes.

Portanto, o acompanhamento multidisciplinar pode ser importante para um cuidado mais amplo e individualizado, envolvendo nutricionistas, endocrinologistas, ginecologistas, psicólogos e outros profissionais conforme as necessidades de cada paciente.

O que a mudança da SOP para SOMP representa?

A mudança da síndrome dos ovários policísticos para Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina busca representar de forma mais adequada a complexidade da condição e ampliar o olhar sobre seus impactos hormonais, metabólicos e reprodutivos.

Embora o tratamento e os critérios diagnósticos permaneçam os mesmos, a atualização da nomenclatura reforça que a síndrome dos ovários policísticos vai além das alterações ovarianas e exige uma abordagem mais ampla e individualizada.

Essa mudança também contribui, portanto, para melhorar a comunicação entre profissionais e pacientes, reduzindo interpretações equivocadas sobre a condição e fortalecendo a importância do acompanhamento multidisciplinar ao longo do tratamento.

Referências:

  1. TEEDE, Helena J. et al. Polyendocrine metabolic ovarian syndrome, the new name for polycystic ovary syndrome: a multi-step global consensus process. The Lancet, 2026. DOI: 10.1016/S0140-6736(26)00717-8.
  2. SOCIEDADE BRASILEIRA DE ENDOCRINOLOGIA E METABOLOGIA. Consenso Global Propõe Novo Nome para a Síndrome dos Ovários Policísticos. SBEM, 2026. Disponível em: https://www.endocrino.org.br/.
  3. G1. Síndrome dos ovários policísticos muda de nome após consenso global com 56 organizações. G1 Saúde, 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/saude/.

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