Nutrição e saúde mental: qual o impacto no humor?

Mulher sorridente levando uma garfada de bolo de chocolate com creme e frutas vermelhas à boca, sentada à mesa da cozinha ao lado de uma caneca.

A relação entre nutrição e saúde mental tem recebido cada vez mais atenção. Afinal, embora fatores psicológicos, sociais, ambientais e genéticos participem da saúde mental, as evidências científicas também apontam que a alimentação pode fazer parte desse cenário.

Um dos mecanismos estudados envolve o chamado eixo intestino-cérebro, sistema de comunicação que conecta o trato gastrointestinal ao sistema nervoso central. Nesse sentido, participam dessa comunicação o sistema nervoso, hormônios, células do sistema imunológico e substâncias produzidas ou modificadas pela microbiota intestinal.

Por isso, o que acontece no intestino pode gerar sinais capazes de influenciar diferentes funções do organismo. No entanto, isso não significa que exista um alimento específico capaz de sozinho melhorar o humor ou que cuidar da microbiota seja, por si só, suficiente para prevenir ou tratar transtornos mentais.

Nesse contexto, entender a relação entre nutrição e saúde mental ajuda a compreender por que uma alimentação equilibrada pode ser considerada um dos pilares que compõem o cuidado com a saúde.

Qual é a relação entre nutrição e saúde mental?

Cuidar da saúde mental vai muito além da terapia. Isso ocorre porque existem diversas outras variáveis que desempenham papel fundamental nesse equilíbrio, como os alimentos que compõem as refeições do dia a dia. 

Afinal, a alimentação fornece energia e nutrientes necessários para o funcionamento do organismo, incluindo o sistema nervoso. Além disso, o padrão alimentar pode influenciar processos como inflamação, estresse oxidativo, metabolismo e composição da microbiota intestinal, condições que afetam diretamente a saúde mental.

Em razão disso, diferentes pesquisas têm investigado a relação entre alimentação e condições como depressão e ansiedade.

Nesse contexto, é importante considerar o padrão alimentar como um todo, e não atribuir os possíveis efeitos sobre a saúde mental a um único alimento ou nutriente. Desse modo, dietas com maior presença de alimentos in natura e minimamente processados, por exemplo, fornecem fibras, vitaminas, minerais e compostos bioativos que atuam na proteção neurológica e na regulação dos neurotransmissores.

O que é o eixo intestino-cérebro?

O eixo intestino-cérebro é uma rede de comunicação entre o trato gastrointestinal e o cérebro. Essa comunicação ocorre nos dois sentidos: o cérebro pode interferir no funcionamento intestinal, enquanto sinais originados no intestino também podem chegar ao sistema nervoso central. 

Essa troca de informações acontece por diferentes vias, entre elas: 

  • Sistema nervoso entérico;
  • Nervo vago;
  • Sistema imunológico;
  • Hormônios;
  • Metabólitos produzidos pela microbiota;
  • Substâncias envolvidas no metabolismo de neurotransmissores.

Assim sendo, alterações no ambiente intestinal podem gerar repercussões além do próprio sistema digestório, refletindo em diversos aspectos relacionados à saúde mental como, humor, emoções e resposta ao estresse. 

Como a microbiota intestinal participa dessa comunicação?

O intestino abriga uma grande comunidade de micro-organismos, formada principalmente por bactérias, compondo o que é conhecido como microbiota.  

Vale ressaltar que a composição e a atividade dessa microbiota podem ser influenciadas por diversos fatores, incluindo alimentação, medicamentos, idade, ambiente e estilo de vida. 

Nesse contexto, quando determinados componentes dos alimentos chegam ao intestino, podem servir de substrato para o metabolismo bacteriano. É o que acontece, por exemplo, com diferentes tipos de fibras alimentares. 

A fermentação dessas fibras pela microbiota pode resultar na formação de ácidos graxos de cadeia curta (AGCC), principalmente acetato, propionato e butirato. Essas substâncias exercem diferentes funções no organismo e estão entre os metabólitos investigados devido a sua potencial associação com a saúde mental. 

Além disso, a microbiota também atua na regulação dos níveis de serotonina, um neurotransmissor fortemente relacionado ao humor, apetite, comportamento social, desejo sexual, sono, aprendizagem e motilidade gastrointestinal. 

Esses são alguns dos caminhos estudados para compreender como microbiota, nutrição e saúde mental podem estar relacionadas.  

A serotonina produzida no intestino melhora o humor?

A maior parte da serotonina do organismo é produzida no trato gastrointestinal e a microbiota intestinal participa da regulação dessa produção. 

A esse respeito, a serotonina exerce diversas funções no organismo e está envolvida, por exemplo, na motilidade gastrointestinal. Entretanto, há uma diferença importante entre a serotonina produzida no intestino e aquela presente no sistema nervoso central. 

Afinal, a serotonina intestinal não atravessa a barreira hematoencefálica. Na prática, isso significa que a serotonina produzida no intestino não chega diretamente ao cérebro para melhorar o humor.

Sendo assim, no sistema nervoso central, a serotonina precisa ser sintetizada localmente. Para isso, o organismo utiliza o triptofano, aminoácido essencial obtido por meio da alimentação e precursor da serotonina. 

Como o padrão alimentar pode influenciar a saúde mental?

Além disso, outro mecanismo investigado na relação entre nutrição e saúde mental envolve a inflamação. 

A microbiota intestinal participa da manutenção da barreira intestinal e da interação entre o intestino e o sistema imunológico. Alterações nesse ambiente podem favorecer respostas inflamatórias que têm sido estudadas em diferentes condições de saúde.

Enquanto padrões alimentares com maior participação de alimentos in natura e minimamente processados têm sido investigados por seus possíveis benefícios, estudos observacionais, por outro lado, têm encontrado associação entre maior consumo de alimentos ultraprocessados e piores desfechos relacionados à saúde mental.

Só para exemplificar, uma revisão sistemática e meta-análise encontrou associação entre maior exposição aos ultraprocessados e maior ocorrência de sintomas depressivos e ansiosos. 

Entretanto, boa parte das evidências disponíveis é observacional. Dessa forma, esses resultados demonstram uma associação, mas não permitem afirmar que o consumo de ultraprocessados seja, isoladamente, responsável pelo desenvolvimento da depressão.

Diferentes mecanismos podem estar envolvidos e continuam sendo investigados, incluindo qualidade nutricional da alimentação, inflamação, estresse oxidativo e alterações relacionadas à microbiota intestinal.

Nesse cenário, embora a relação da nutrição e saúde mental ainda ser uma área de estudo relativamente recente, os achados demonstram que a dieta mediterrânea está entre os padrões alimentares mais estudados quando o assunto é o impacto positivo da alimentação no sistema nervoso.  

Esse padrão alimentar é caracterizado pelo predomínio de frutas, hortaliças, leguminosas, cereais integrais, oleaginosas, sementes e azeite de oliva, além do consumo de peixes. 

Nesse sentido, ensaios clínicos e revisões sistemáticas têm investigado sua relação com sintomas depressivos, com resultados que sugerem possíveis benefícios.

Quais alimentos podem fazer parte de uma alimentação favorável à saúde mental?

Em vez de procurar um alimento específico capaz de aumentar a serotonina ou melhorar o humor, a estratégia mais adequada é observar a qualidade da alimentação de forma global. Nesse contexto, podem fazer parte da rotina: 

  • Frutas;
  • Verduras e legumes;
  • Feijões e outras leguminosas;
  • Cereais integrais;
  • Oleaginosas e sementes;
  • Azeite de oliva;
  • Peixes;

A presença de diferentes alimentos vegetais também contribui para o consumo de fibras, que podem servir como substrato para a microbiota intestinal, favorecendo o seu equilíbrio.

Além do mais, a variedade alimentar ajudam a fornecer diferentes nutrientes necessários ao funcionamento do organismo. Portanto, a relação entre nutrição e saúde mental deve ser compreendida a partir do conjunto da alimentação e do contexto individual.

Cartaz com infográfico sobre a conexão da alimentação com a saúde mental

Probióticos podem ajudar na saúde mental?

O interesse crescente pela relação entre microbiota, nutrição e saúde mental também tem despertado a atenção para o uso de probióticos e prebióticos para saúde.  

Alguns estudos encontraram melhora em escores de depressão ou ansiedade após intervenções com esses produtos. No entanto, os resultados ainda apresentam diferenças importantes entre as pesquisas. Cepas utilizadas, doses, duração das intervenções e características dos participantes, por exemplo, variam consideravelmente. 

Por isso, em conclusão, as evidências atuais não justificam considerar qualquer probiótico como estratégia universal para melhorar o humor ou tratar transtornos mentais.

Como cuidar de nutrição e saúde mental na rotina?

A relação entre nutrição e saúde mental vai além da ideia de que determinados alimentos ou nutrientes sozinhos aumentam a produção de neurotransmissores responsáveis pelo bem-estar.

O eixo intestino-cérebro mostra que existe uma comunicação complexa entre microbiota, sistema nervoso, sistema imunológico e metabolismo. Ao mesmo tempo, estudos sobre padrões alimentares demonstram que a qualidade da alimentação pode ser parte importante dos diferentes fatores relacionados à saúde mental.

Na prática, priorizar uma alimentação variada, com maior participação de alimentos in natura e minimamente processados, além de diferentes fontes de fibras, é uma estratégia que contribui para a saúde de forma global. 

Quando houver sintomas persistentes de ansiedade, depressão ou outras alterações relacionadas à saúde mental, a alimentação deve integrar, e não substituir, o acompanhamento adequado com profissionais de saúde.

Referências:

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