Nas redes sociais, revistas e televisão somos constantemente bombardeados com padrões de beleza considerados ideais pela sociedade moderna. Os corpos considerados “perfeitos” estão diariamente expostos na mídia, o que intensifica cada vez mais a busca por esse ideal inalcançável. Junto a isso, com o aumento da prevalência e incidência do sobrepeso e obesidade na população, crescem também as buscas por um emagrecimento rápido, muitas vezes motivado unicamente por razões estéticas, principalmente entre as mulheres.
Diante do contexto, diversas dietas da moda acabam surgindo e ganhando destaque a todo momento. A maioria desses modismos alimentares prometem resultados milagrosos em pouco tempo, atraindo pessoas que buscam por soluções imediatas, muitas vezes sem considerar os riscos à saúde e todo o contexto que envolve a alimentação.
História dos modismos alimentares
A maioria das dietas da moda são amplamente divulgadas por celebridades, influenciadores digitais ou até mesmo por outros profissionais sem a formação adequada na área de nutrição. O resultado disso são dietas sem embasamento científico, baseadas em restrições severas de grupos alimentares ou no consumo excessivo de somente um grupo alimentar considerado “ideal” e na adoção de práticas alimentares que não se sustentam a longo prazo, pois não consideram o contexto e as individualidades de cada pessoa.
Quando o assunto é emagrecimento, por exemplo, uma das primeiras ideias que costumam surgir é a de eliminar os carboidratos da dieta, já que eles frequentemente são apontados como os grandes vilões do “corpo ideal”. Nesse contexto, as dietas low carb ganharam popularidade e são constantemente propagadas, ignorando todo o contexto individual. Além disso, essa visão simplificada ignora o papel fundamental que os carboidratos desempenham para o organismo, de ser uma das principais fontes de energia para o pleno funcionamento do corpo como um todo.
A Dieta Atkins, um exemplo de dieta com proposta low carb, ganhou destaque na década de 1970, quando o médico cardiologista Dr. Robert Atkins propôs uma estratégia alimentar com foco em perda de peso rápida. A abordagem consistia em uma dieta com altor teor de proteínas e baixo consumo de carboidrato (< 5% do VET de carboidratos), dividida em 4 fases, nas quais a quantidade carboidrato sofre variação: fase de indução, fase de perda de peso contínua, fase pré-manutenção e fase de manutenção vitalícia. Apesar de ter feito sucesso, não existem muitos estudos por conta da baixa adesão da dieta no longo prazo.
Outra dieta bastante famosa no contexto da perda de peso é a Dieta Cetogênica. Trata-se de uma dieta rica em gorduras e bastante rigorosa. Sua composição básica leva em consideração que para cada grama de carboidrato e proteína combinados, consome-se quatro gramas de gordura. Inicialmente, essa dieta foi desenvolvida para o tratamento de epilepsia, sendo ainda hoje bastante utilizada com esse objetivo. Contudo, passou por adaptações e, por promover certas mudanças metabólicas ao corpo, começou a ser considerada também para fins de emagrecimento. Apesar de resultados interessantes, o uso indiscriminado e sem acompanhamento nutricional adequado dessa estratégia alimentar pode trazer riscos à saúde e não é indicado para qualquer pessoa realizar!
Embora a ideia de se inspirar nos hábitos alimentares pré-históricos já fosse discutida por antropólogos e cientistas, foi na década de 2000, com a publicação do livro The Paleo Diet pelo pesquisador Dr. Loren Cordain, que a dieta paleolítica ganhou notoriedade mundial³. A proposta defende uma alimentação baseada em vegetais, frutas, nozes, sementes, carnes magras, ovos e peixes, e exclui grãos, laticínios, leguminosas, açúcares adicionados e alimentos industrializados. Esse padrão alimentar é associado a benefícios, como perda de peso, melhora da sensibilidade à insulina e redução da inflamação, embora não seja uma dieta amplamente recomendada e ainda faltem estudos robustos que comprovem sua eficácia e segurança.
Mais recentemente, o jejum intermitente passou a ganhar maior destaque entre os modismos alimentares e as estratégias para perda de peso. Apesar de ser uma prática antiga, o jejum intermitente ganhou fama para o emagrecimento de uns anos para cá, especialmente com a força das redes sociais. A ideia dessa estratégia nutricional consiste, basicamente, em uma alimentação programada e restrição calórica por meio da abstinência alimentar por um determinado período do dia ou da semana.
Por exemplo, as versões mais populares são:
- A dieta 5:2, onde a pessoa se alimenta normalmente por 5 dias e faz jejum ou grande restrição calórica durante 2 dias;
- O jejum em dias alternados;
- A alimentação com restrição de tempo ou jejum 16/8, que normalmente consiste em jejuar por 16 horas e uma janela de 8 horas de alimentação.
A chamada Dieta Detox também é outro exemplo de dieta da moda que ganhou destaque com a forte presença das mídias e redes sociais no dia a dia. Sua popularização foi intensificada pela viralização de receitas de sucos e sopas detox, que têm como objetivo a “eliminação de toxinas”. Embora prometa desintoxicação do organismo, melhora da saúde e perda rápida de peso, não há evidências científicas robustas que comprovem que a dieta detox é eficaz. Frequentemente, esses protocolos são pobres em nutrientes e calorias, podendo gerar efeitos adversos e até risco de carências nutricionais, razão pela qual especialistas alertam para seus potenciais malefícios e defendem cautela no uso dessas estratégias.
Outros exemplos de dietas da moda, incluem a dieta da sopa, dieta da lua, dieta do tipo sanguíneo e até dieta carnívora, que, apesar de populares e frequentemente disseminadas, não apresentam embasamento de evidências científicas consistente que comprove a sua eficácia e segurança.
Os riscos das dietas da moda
As dietas descritas apenas exemplificam uma extensa lista de dietas da moda que, infelizmente, ganham popularidade por serem consideradas, de forma equivocada, como dietas milagrosas. No entanto, a maioria são dietas extremamente restritivas, ou seja, se baseiam na eliminação ou consumo mínimo de um macronutriente, ou até um consumo exclusivo de uma preparação específica. Ademais, não são dietas individualizadas, que consideram todo o contexto e as particularidades de cada pessoa. O fato é que elas promovem baixa oferta calórica e nutricional, gerando perda de peso inicial, mas com resultados limitados a longo prazo e potenciais riscos à saúde.
A dieta cetogênica, por exemplo, precisa ser realizada com cautela e com acompanhamento profissional adequado, pois pode gerar diversos efeitos colaterais indesejados e impactar de forma negativa no perfil lipídico.
Já a dieta de Atkins, não foi amplamente estudada porque sua adesão era muito baixa, entretanto, nos poucos estudos realizados, observou-se um maior risco de complicações metabólicas adversas.
E no jejum intermitente, apesar de ter resultados positivos associados a perda de peso significativa em alguns ensaios clínicos, quando comparado com dietas tradicionais de restrição calórica, os resultados de perda de peso entre essas estratégias se mostraram semelhantes. Além disso, pouco se sabe sobre sua sustentabilidade e efeitos a longo prazo na saúde³.
Além desses pontos, dietas restritivas, muitas vezes, não se sustentam no longo prazo, pois exigem mudanças muito radicais que são difíceis de manter por períodos prolongados. Essa prática acaba influenciando em um ciclo de emagrecimento e ganho de peso repetido, popularmente conhecido como “efeito sanfona”, podendo ser bastante prejudicial à saúde, pois afeta não só a saúde física, mas também a saúde mental. Tudo isso reforça a necessidade de avaliar não apenas os resultados estéticos imediatos, mas os riscos das dietas da moda à saúde.
Dietas utilizadas como estratégia alimentar
Apesar das dietas da moda carecerem de evidências científicas sobre sua eficácia e, em muitos casos, apresentarem riscos à saúde, existem padrões alimentares bem estabelecidos que podem ser utilizados como estratégia no acompanhamento nutricional, onde o nutricionista irá estabelecer condutas pertinentes para cada indivíduo. Dentre elas temos a dieta mediterrânea, a Dietary Approach to Stop Hypertension (DASH) e a vegetariana.
A dieta mediterrânea é caracterizada pelo consumo abundante de frutas, vegetais, grãos integrais, nozes e azeite de oliva, com ingestão moderada de carnes, laticínios e vinho, sendo amplamente reconhecida por seus benefícios cardiovasculares. Estudos demonstram que sua adesão reduz significativamente a incidência de doenças crônicas, melhora o perfil lipídico, a glicemia e a sensibilidade à insulina. Sua eficácia é observada em diferentes populações, reforçando sua viabilidade como estratégia de saúde pública, mas com o devido acompanhamento de um profissional nutricionista.
A dieta DASH é uma das principais alternativas no controle da hipertensão arterial sistêmica (HAS), fundamentada no consumo de vegetais, frutas, carnes magras, grãos integrais e laticínios com baixo teor de gordura. Além disso, promove a redução do consumo de sódio para cerca de 1500 mg/dia, açúcares refinados e gorduras trans, priorizando alimentos in natura ou minimamente processados e incentiva a ingestão de alimentos ricos em potássio, magnésio e cálcio. Dentre os benefícios dessa estratégia observados em estudos científicos, destacam-se a redução do colesterol e da pressão arterial, além de ajudar na perda de peso.
Já a dieta vegetariana, quando devidamente planejada, também oferece benefícios como regulação da pressão arterial, melhora na sensibilidade à insulina e redução nos níveis de colesterol. Apresenta algumas variações, mas tem como base o consumo de alimentos de origem vegetais, excluindo os alimentos de origem animal, com possibilidade de incluir ovos e laticínios. Entretanto, sem o devido acompanhamento nutricional, essa estratégia alimentar pode aumentar o risco de deficiências nutricionais.
Conclusão
Diante de tantos modismos alimentares, é fundamental refletir sobre quando dietas funcionam de verdade. Embora as dietas da moda prometam resultados rápidos e transformações quase milagrosas, muitas vezes ignoram fatores como saúde metabólica, qualidade de vida e sustentabilidade.
Ademais, nem todas as pessoas se adaptam bem a qualquer tipo de estratégia alimentar, por isso é necessária uma abordagem mais personalizada. Nesse sentido, optar por uma alimentação equilibrada e acompanhamento nutricional, adaptado à individualidade biológica e à rotina, ainda é a estratégia mais segura e eficaz.
Sem o acompanhamento adequado, dietas restritivas podem trazer mais danos do que benefícios, reforçando o ciclo de frustração, reganho de peso e baixa autoestima. Logo, mais do que aderir a dietas milagrosas, é necessário promover uma escuta ativa do corpo, do comportamento alimentar e do papel da nutrição na construção da saúde.
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