A hipertensão arterial ganhou destaque recentemente no Brasil, especialmente devido à publicação da nova Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial (2025). O documento conta com algumas mudanças importantes, como o novo diagnóstico de pré-hipertensão e recomendações de prevenção.
Neste texto, você vai entender o que mudou nas diretrizes da hipertensão 2025, quais os novos valores de pressão arterial, como a alimentação para prevenir hipertensão é um pilar importante e qual é o papel do nutricionista no tratamento da hipertensão.
Hipertensão arterial no Brasil: um cenário preocupante
A hipertensão arterial é uma doença crônica, ou seja, que se desenvolve de forma lenta, progressiva e que persiste por um longo período, caracterizada pela elevação sustentada dos níveis de pressão arterial. Segundo a Diretriz Brasileira, a condição é definida pela presença de pressão arterial sistólica (PAS) maior ou igual a 140 mmHg e/ou diastólica (PAD) maior ou igual a 90 mmHg, em pelo menos duas ocasiões e na ausência de medicação anti-hipertensiva.
Segundo a Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial 2025, dados do Vigitel mostraram que a prevalência média de hipertensão em adultos no Brasil chegou a 27,9% em 2023, com destaque para o Rio de Janeiro, que apresentou índices acima de 34%. Nesse mesmo ano, a Organização Mundial da Saúde estimou números ainda mais alarmantes, utilizando como base dados referentes a 2019: quase 45% dos brasileiros entre 30 e 70 anos teriam pressão elevada¹. E o impacto não para aí, pois a hipertensão arterial foi atribuída a mais de 50% das mortes por causa cardiovascular no país em 2019.
O que mudou nas diretrizes da hipertensão 2025?
Uma das principais atualizações foi em relação a mudanças na classificação da pressão arterial. A categoria de pressão “ótima”, anteriormente definida como PAS <120 mmHg e PAD <80 mmHg, foi excluída. Esses valores passaram a ser incorporados à categoria da pressão arterial normal.
Além disso, uma das mudanças mais comentadas foi a nova classificação da categoria de pré-hipertensão. Anteriormente, essa classificação era definida pelos valores de PAS 130-139 mmHg e/ou PAD 85-89 mmHg. Com a nova atualização da Diretriz 2025, essa faixa foi ampliada e passou a ser definida com os valores de PAS 120-139 mmHg e/ou PAD 80-89 mmHg.
Dessa forma, um maior número de pessoas pode ser identificado precocemente como em risco para hipertensão, o que permite intervenções preventivas e mais eficazes.
O quadro a seguir apresenta uma comparação entre as classificações estabelecidas na Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial de 2020 e as atualizações da Diretriz de 2025.
Quadro 1. Comparativo: Classificação da Pressão Arterial (PA) – Diretrizes Brasileiras de Hipertensão Arterial 2020 vs. 2025
| Classificação | Diretriz 2020 (Barroso et al., 2020) | Diretriz 2025 (Brandão et al., 2025) |
| Ótima | PAS: < 120 mmHg e PAD: < 80 mmHg | Foi retirada da classificação da nova diretriz |
| Normal | PAS: 120–129 mmHg e/ou PAD: 80-84 mmHg | PAS: < 120 mmHg e PAD: < 80 mmHg |
| Pré-hipertensão | PAS: 130-139 mmHg e/ou PAD: 85-89 mmHg | PAS: 120-139 mmHg e/ou PAD: 80-89 mmHg |
| Hipertensão arterial – Estágio 1 | PAS: 140-159 mmHg e/ou PAD: 90-99 mmHg | PAS: 140-159 mmHg e/ou PAD: 90-99 mmHg |
| Hipertensão arterial – Estágio 2 | PAS: 160-179 mmHg e/ou PAD: 100-109 mmHg | PAS: 160-179 mmHg e/ou PAD: 100-109 mmHg |
| Hipertensão arterial – Estágio 3 | PAS: ≥ 180 mmHg e/ou PAD: ≥ 110 mmHg | PAS: ≥ 180 mmHg e/ou PAD: ≥ 110 mmHg |
Fonte: adaptado de Barroso, et al., 2020; Brandão, et al., 2025.
Outra mudança importante da atualização da Diretriz de 2025 diz respeito às metas terapêuticas para os pacientes hipertensos. A Diretriz de 2020, estabelecia de forma geral a meta de PA abaixo de 140/90 mmHg e não inferior a 120/70 mmHg. Já na nova Diretriz de Hipertensão Arterial, a meta terapêutica passou a ser de PA <130/80 mmHg, mesmo em pacientes que apresentem risco baixo ou intermediário. Essa recomendação de meta mais rigorosa baseia-se em evidências científicas que demonstram a redução do risco cardiovascular, renal e de mortalidade total.
Estratégias não medicamentosas na redução da pressão arterial
A Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial 2025 reforça que o tratamento deve sempre incluir medidas de estilo de vida, conhecidas como intervenções não medicamentosas. Veja os efeitos práticos no quadro 2.
Quadro 2. Intervenções Não Medicamentosas Recomendadas e Seus Benefícios na Pressão Arterial.
| Medidas Não Medicamentosas | Recomendação |
| Redução do peso | Perda de peso em indivíduos obesos e com sobrepeso, pois auxilia na redução da PA e do risco cardiovascular. Alcançar o peso saudável e manter IMC < 25 kg/m² em indivíduos até 65 anos e IMC entre 22 e 27 kg/m² em indivíduos acima de 65 anos. |
| Redução da ingestão de sal | Restringir o consumo de sódio para no máximo 2g/dia, o que corresponde a 5g de sal de cozinha ou 1 colher de chá/dia. Isso porque o sódio está associado ao aumento da PA. A Diretriz ainda aponta para alimentos processados e ultraprocessados, fast-foods e condimentos como alguns dos responsáveis pela maior parte de sódio ingerido. |
| Aumento da ingestão de potássio | O potássio mostrou-se capaz de reduzir os valores de PAS e PAD em pacientes hipertensos. Nesse sentido, recomenda-se a ingestão de ≥ 3,5g/dia de potássio, que está presente em boas quantidades em frutas, verduras, hortaliças, oleaginosas, leguminosas e laticínios com baixo teor de em gordura. |
| Padrão alimentar saudável | Dieta DASH – Dieta rica em frutas, verduras, laticínios com baixo teor de gordura, grãos integrais e carnes magras. Além disso, restringe o consumo de sódio, carnes gordurosas, gorduras saturadas e açúcar de adição. Dieta mediterrânea – rica em frutas, verduras, cereais integrais, peixes, oleaginosas e azeite de oliva extravirgem, e pobre em carnes vermelhas. |
| Exercícios físicos | A prática regular de exercícios físicos, tanto o treinamento aeróbico como o resistido, atua na redução da PA e é recomendada tanto na prevenção quanto para o tratamento da hipertensão. |
| Redução da ingestão de álcool | O consumo de álcool deve ser desencorajado, mesmo em pequenas doses, devido aos prejuízos à saúde em geral. Para os pacientes hipertensos e que consomem bebidas alcoólicas, a redução é recomendada para auxiliar no controle da PA. |
Legenda: PAS: pressão arterial sistólica; PAD: pressão arterial diastólica; DASH: Diet Approach to Stop Hypertension; IMC: índice de massa corporal.
Fonte: adaptado de Brandão, et al.,2025.
De forma geral, um padrão alimentar rico em frutas, verduras, legumes, leguminosas e cereais integrais, aliado à redução de sódio e gorduras saturadas, reduzem significativamente a incidência de hipertensão em adultos. Assim, fica claro o papel da alimentação para prevenir hipertensão.
O papel do nutricionista no tratamento e prevenção
A intervenção nutricional na pré-hipertensão e na hipertensão foi reforçada tanto na Diretriz de 2020 como na de 2025. Mas, agora, o impacto está ainda mais evidente.
Entre as estratégias nutricionais para hipertensos, as que mostraram potenciais efeitos benéficos sobre a redução da PA foram a dieta DASH e a dieta Mediterrânea, ambas ricas em alimentos in natura e minimamente processados. A dieta DASH é pobre em gordura e sódio, enquanto a Mediterrânea contém mais gordura monoinsaturada (como o azeite), mas ambas auxiliam no controle pressórico e reduzem eventos cardiovasculares.
Além disso, o excesso de peso corporal é um fator importante que influencia diretamente nos valores elevados de pressão arterial. Um estudo de Vieira et al. (2022), relatou que a redução de 5 kg no peso corporal em indivíduos obesos ou com sobrepeso pode diminuir em até 4,4 mmHg a pressão sistólica e 3,6 mmHg a diastólica, e a restrição de sódio para cerca de 2g por dia reduz em média 5,4 mmHg a PA sistólica.
Esses resultados reforçam que a intervenção nutricional na pré-hipertensão pode ser decisiva para evitar a progressão da doença.
Uma meta-análise de Senkus et al. (2024) mostrou que o acompanhamento nutricional de pacientes pré-hipertensos ou hipertensos, reduziu a pressão sistólica em média 3,6 mmHg e a diastólica em 2,0 mmHg, além de melhorar indicadores como peso, rigidez arterial e até reduzir a necessidade de medicamentos.
Isso significa que o papel do nutricionista no tratamento da hipertensão não é apenas orientar sobre o consumo de sal ou potássio, mas estruturar estratégias personalizadas, promover mudanças de comportamento e atuar de forma integrada à equipe multiprofissional.
Impacto da nova diretriz da hipertensão para nutricionistas
A Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial – 2025 reforça sobre a importância do papel do nutricionista na abordagem terapêutica multidisciplinar. O documento destaca o papel das mudanças no estilo de vida, que incluem um padrão alimentar saudável, no tratamento não medicamentoso da hipertensão.
Além disso, a nova classificação de pré-hipertensão amplia o número de pessoas que podem se beneficiar do acompanhamento nutricional preventivo. Essa pode ser uma oportunidade valiosa para atuar de forma precoce na prevenção da progressão da doença, especialmente através de ajustes na alimentação. Quanto mais cedo a adoção de estratégias nutricionais para prevenir hipertensão, maiores as chances de evitar complicações e uso precoce de fármacos.
Conclusão
A Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial – 2025 trouxe mudanças marcantes. O desafio agora é transformar essas recomendações em prática. E a nutrição é decisiva nesse contexto, já que a alimentação pode atuar tanto na prevenção como na redução significativa dos riscos, na melhora da qualidade de vida e até na diminuição da necessidade de medicamentos.
Mais do que nunca, investir em estratégias nutricionais para hipertensos é investir em prevenção e saúde de longo prazo.
Referências:
BRANDÃO, Andréa Araujo; RODRIGUES, Cibele Isaac Saad ; BORTOLOTTO, Luiz Aparecido ; et al. Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial – 2025. Arq Bras Cardiol, v. 122, n. 9, p. e20250624, 2025.
²BRASIL. Ministério da Saúde. Vigitel [Internet]. Brasília: Ministério da Saúde; 2025.
³BARROSO, Weimar Kunz Sebba; RODRIGUES, Cibele Isaac Saad; BORTOLOTTO, Luiz Aparecido; et al. Diretrizes Brasileiras de Hipertensão Arterial – 2020. Arq. Bras. Cardiol., v. 116, n. 3, p. 516–658, 2021.
4Tabela brasileira de composição de alimentos / NEPA –. v. 4a edição revisada e ampliada, n. Núcleo de Estudos e Pesquisas em Alimentação – NEPA. Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP São Paulo, 2011.
5SENKUS, Katelyn E.; DUDZIK, Josephine M.; LENNON, Shannon L.; et al. Medical Nutrition Therapy Provided by a Dietitian Improves Outcomes in Adults with Pre-Hypertension or Hypertension: A Systematic Review and Meta-Analysis. The American Journal of Clinical Nutrition, v. 119, n. 6, p. S0002-9165(24)004039, 2024.
6VIEIRA, Lis Proença; GOWDAK, Marcia Maria Godoy ; KLEIN, Marcia Regina Simas Torres. Abordagem nutricional na hipertensão arterial: recomendações das diretrizes Brasileira (DBHA), Americana (AHA), Internacional (ISH) e Europeia (ESC). Hipertensão, v. 24, n. 1, p. 65–69, 2022.

