Autismo e paracetamol: o que diz a ciência

uma mulher grávida em dúvida se deve tomar paracetamol

Após uma declaração do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre uma possível relação entre o uso de paracetamol na gravidez e o aumento de casos de autismo, as discussões sobre autismo e paracetamol, bem como, sobre o uso seguro de medicamentos durante a gestação, ganharam destaque na mídia e nas redes sociais.

O paracetamol é um dos analgésicos e antitérmicos mais utilizados no mundo, amplamente prescrito por ser considerado seguro quando usado de forma adequada. No entanto, o debate recente reacendeu questionamentos sobre seus possíveis efeitos no desenvolvimento infantil.

Nas últimas duas décadas, aumentou significativamente o número de estudos que investigam a exposição ao paracetamol durante a gestação e possíveis impactos no desenvolvimento neurológico, especialmente em relação ao transtorno do espectro autista (TEA).

Diante disso, é fundamental compreender o que realmente dizem as evidências científicas sobre autismo e paracetamol. Ao longo deste texto, serão apresentadas as principais evidências sobre o tema.

O que dizem os estudos sobre paracetamol na gravidez  

Diversas pesquisas têm investigado se existe alguma relação entre uso de paracetamol na gravidez e risco de transtornos do neurodesenvolvimento, incluindo autismo e TDAH.  

Estudos observacionais recentes sugerem que o uso do paracetamol durante a gravidez pode estar associado ao risco aumentado do desenvolvimento de transtornos do espectro autista (TEA) e outras alterações no neurodesenvolvimento. Contudo, essa relação ainda não é totalmente compreendida e os resultados são um pouco controversos.  

No estudo de Ji Y. et al., publicado no JAMA Psychiatry, os autores analisaram a associação prospectiva entre a presença de metabólitos do paracetamol no plasma do cordão umbilical e o risco de TDAH, TEA e outros distúrbios do desenvolvimento na infância. Os resultados indicaram que níveis mais elevados de biomarcadores de exposição ao paracetamol no sangue do cordão umbilical estavam associados a um maior risco de diagnóstico de autismo e TDAH na infância. Contudo, os pesquisadores reconheceram algumas limitações do estudo, como a falta de um grupo controle que não tivesse sido exposto ao medicamento, limitações na medição do plasma do cordão umbilical e a exclusão de outros fatores de confusão. 

De forma semelhante, algumas revisões sistemáticas e meta-análises indicam associação estatística entre o uso do medicamento durante a gestação e desfechos adversos ligados ao neurodesenvolvimento. 

Entre elas, destaca-se a revisão conduzida por Prada et al. (2025), que utilizou a metodologia Navigation Guide, uma abordagem sistemática utilizada para avaliar a qualidade das evidências disponíveis. Os autores concluíram que existe um corpo crescente de estudos observacionais que sugerem uma associação entre exposição intrauterina ao paracetamol e maior risco de autismo, mas reforçam que não há comprovação de causalidade.  

Como ressalta uma análise feita pelo British Medical Journal (BMJ), todos esses trabalhos têm em comum o fato de serem estudos observacionais. Isso significa que não permitem estabelecer uma relação de causa e efeito, pois estão sujeitos a fatores de confusão (como outras condições maternas ou uso concomitante de outros medicamentos) e diferenças nos critérios diagnósticos de autismo entre as populações estudadas.  

Revisões narrativas destacam que os achados não devem ser interpretados como uma evidência conclusiva, mas sim como uma hipótese que precisa ser investigada mais a fundo em estudo futuros, especialmente aqueles com maior qualidade metodológica. Assim, a recomendação das diretrizes é utilizar o medicamento apenas quando necessário e sempre sob supervisão médica.  

O debate também leva em conta o aumento das taxas de diagnóstico de autismo ao longo dos últimos anos. Contudo, pesquisas indicam que esse crescimento foi influenciado principalmente por mudanças nos critérios diagnósticos, maior acesso aos serviços de saúde e maior conscientização da população e dos profissionais. Ainda assim, especialistas destacam que investigações sobre potenciais fatores ambientais permanecem importantes para compreender completamente a evolução da prevalência do transtorno. 

Riscos do paracetamol  e segurança do uso de medicamentos na gestação  

O uso de medicamentos na gestação exige análise de risco-benefício, e o paracetamol é um dos medicamentos considerados seguros. Contudo, qualquer medicamento precisa ser usado com cautela durante a gestação.  

A Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou uma declaração em 2025 ressaltando que, até o momento, não há evidências suficientes para confirmar causalidade entre autismo e paracetamol, e recomenda que todas as mulheres continuem a seguir as orientações de seus médicos ou profissionais de saúde, que podem ajudar a avaliar as circunstâncias individuais e recomendar os medicamentos necessários.  

Contexto brasileiro

No Brasil, o paracetamol na gravidez também tem despertado atenção, principalmente após recentes declarações e repercussão gerada. Pesquisas nacionais indicam que o medicamento está entre os mais consumidos no país, sobretudo entre os isentos de prescrição, o que reforça a necessidade de discutir com clareza os potenciais riscos do paracetamol

Além disso, em nota oficial, a Anvisa afirmou que não há registros no Brasil de notificações que relacionem o uso de paracetamol durante a gestação a casos de autismo, ressaltando que o fármaco continua classificado como de baixo risco, desde que usado de forma adequada. 

Conclusão

Embora os estudos mostrem uma associação entre a exposição ao paracetamol na gestação e o risco de distúrbios do neurodesenvolvimento, como o TEA e o TDAH, é importante ressaltar que uma associação não implica necessariamente em uma relação causal. Ou seja, mesmo que haja uma ligação estatística entre os dois, isso não quer dizer que o uso do paracetamol seja a causa direta desses desfechos, pois outros fatores também podem estar envolvidos nessa relação.  

Portanto, a interpretação desses estudos precisa ser realizada com muita atenção, sem tirar conclusões precipitadas.  

A recomendação atual é de que esse medicamento deva ser usado com prudência, somente quando necessário, e sempre sob orientação médica, assim como o uso de qualquer outra medicação, especialmente durante a gravidez. 

Assim, o tema paracetamol e autismo segue em estudo, exigindo acompanhamento atento de novas pesquisas. Para gestantes, a recomendação segue a mesma: avaliar cada caso individualmente, garantindo segurança tanto para a mãe quanto para o bebê. 

Referências

  1. BAUER, A.Z., KRIEBEL, D. Prenatal and perinatal analgesic exposure and autism: an ecological link. Environ Health. 2013 May 9;12:41. doi: 10.1186/1476-069X-12-41. PMID: 23656698; PMCID: PMC3673819. 
  1. LANG, K. As alegações de Trump sobre Tylenol (paracetamol), vacinas e autismo — qual é a verdade? BMJ 2025; 390 :r2025 doi:10.1136/bmj.r2025 
  1. KHAN, F.; KABIRAJ, G.; AHMED, M. A.; et al. (July 18, 2022) A Systematic Review of the Link Between Autism Spectrum Disorder and Acetaminophen: A Mystery to Resolve. Cureus 14(7): e26995. DOI 10.7759/cureus.26995 
  1. Ji Y, Azuine RE, Zhang Y, Hou W, Hong X, Wang G, Riley A, Pearson C, Zuckerman B, Wang X. Association of Cord Plasma Biomarkers of In Utero Acetaminophen Exposure With Risk of Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder and Autism Spectrum Disorder in Childhood. JAMA Psychiatry. 2020 Feb 1;77(2):180-189. doi: 10.1001/jamapsychiatry.2019.3259. PMID: 31664451; PMCID: PMC6822099. 
  1. LIEW, Z. et al. Acetaminophen use during pregnancy, behavioral problems, and hyperkinetic disorders. JAMA pediatrics, v. 168, n. 4, p. 313-320, 2014. 
  1. ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. WHO statement on autism-related issues. Genebra: OMS, 2025. Disponível em: https://www.who.int/news/item/24-09-2025-who-statement-on-autism-related-issues
  1. PEARSON, H. Autism is on the rise: what’s really behind the increase?. Nature, v. 644, n. 8078, p. 860-863, 2025. 
  1. PRADA, D. et al. Evaluation of the evidence on acetaminophen use and neurodevelopmental disorders using the Navigation Guide methodology. Environmental Health, v. 24, n. 1, p. 56, 2025. 
  1. RUSSELL, G. et al. Time trends in autism diagnosis over 20 years: a UK population‐based cohort study. Journal of Child Psychology and Psychiatry, v. 63, n. 6, p. 674-682, 2022. 
  1. BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Nota técnica sobre o uso de paracetamol na gravidez. Brasília: ANVISA, 2025. Disponível: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/noticias-anvisa/2025/nota-a-populacao-2013-paracetamol-e-autismo 
  1. Bachur, Tatiana & Freitas, Jhonattas & Fonteles, Marta & Lima, Matheus & Carvalho, Teresa. (2017). Medicamentos isentos de prescrição: perfil de consumo e os riscos tóxicos do paracetamol. Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade. 10. 10.22280/revintervol10ed3.337. 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Back To Top