Os impactos do cigarro no trato gastrointestinal  

Na imagem, um homem parte um cigarro ao meio

Introdução

O Brasil reduziu o número de fumantes nas últimas décadas, mas, segundo estimativas de 2019, o país ainda registrava cerca de 20 milhões de adultos fumantes e 174 mil mortes anuais relacionadas ao tabagismo. Embora o cigarro costume ser associado principalmente a doenças pulmonares e cardiovasculares, seus impactos vão muito além desses sistemas e têm sido cada vez mais estudados. Um exemplo disso, é a relação entre cigarro e sistema digestivo, que revela um cenário preocupante com prejuízos significativos ao trato gastrointestinal.  

E é sobre isso que este artigo abordará, analisando como a interação entre cigarro e sistema digestivo pode desencadear uma série de prejuízos à saúde do trato gastrointestinal como um todo.  

O funcionamento do trato gastrointestinal 

Antes de entender melhor sobre os impactos do tabagismo na saúde gastrointestinal, vale retomar como esse aparelho funciona.  

O trato gastrointestinal (TGI) é um dos maiores sistemas do corpo, apresentando cerca de nove metros de comprimento. Ele se estende da boca ao ânus e inclui órgãos como a boca, esôfago, estômago, fígado, vesícula biliar, pâncreas, além dos intestinos delgado e grosso.  

Sua principal função é digerir e absorver nutrientes dos alimentos e bebidas consumidas. Além disso, atua como uma barreira física e imunológica, protegendo o organismo contra patógenos, substâncias estranhas e antígenos em potencial, e também desempenha papel importante na produção de sinalizadores bioquímicos e reguladores, que estabelecem uma comunicação constante com o sistema nervoso (eixo intestino-cérebro).   

O revestimento interno do TGI, chamado de mucosa, é formado por vilosidades e microvilosidades, que garantem enorme área de absorção. As células da mucosa se renovam a cada 3-5 dias, sendo altamente dependentes de boa circulação sanguínea, oferta adequada de nutrientes e baixa exposição a toxinas. 

Considerando que o cigarro acaba sendo uma fonte constante de toxinas e substâncias nocivas, fica claro que ele é capaz de afetar o trato gastrointestinal – mais um dos muitos danos gerados pelo tabagismo. 

Como o cigarro afeta o trato gastrointestinal? 

O tabaco, principal componente do cigarro, ao ser exposto a altas temperaturas durante o ato de fumar, gera mais de 7.000 compostos tóxicos, muitos dos quais são absorvidos diretamente pelo sistema digestivo. 

Além disso, a fumaça do cigarro apresenta compostos ainda mais perigosos e níveis elevados de espécies reativas de oxigênio que, quando inalados de forma crônica, são capazes de afetar negativamente tecidos suscetíveis, incluindo o trato gastrointestinal.    

Diversos estudos mostram que o tabagismo crônico pode aumentar a secreção de ácido gástrico e reduzir o pH do estômago, modificar a produção de muco pela mucosa do TGI, alterar o reparo e o fluxo sanguíneo da mucosa gastrointestinal.  

Também foi observado que os fumantes ingerem quantidades significativas de partículas, e que a nicotina pode atingir concentrações até 80 vezes maiores no fluido gástrico do que no sangue venoso. Isso interfere no pH, aumenta secreção ácida e prejudica a produção de muco protetor, favorecendo o desenvolvimento de gastrite, úlcera e refluxo. 

Fumar e problemas gastrointestinais: o que já sabemos 

Os impactos do tabagismo incluem: 

  • Alterações da mucosa: a fumaça do cigarro inibe a síntese e altera a composição do muco;  
  • Modificações na microbiota intestinal: o cigarro pode provocar disbiose, uma vez que as substâncias presentes em sua composição são capazes de influenciar e alterar a microbiota intestinal residente; 
  • Aumento da permeabilidade intestinal: o comprometimento da barreira intestinal aumenta a permeabilidade e promove maior suscetibilidade à inflamação. Isso favorece o desenvolvimento de úlceras e lesões; 
  • Alterações na circulação sanguínea do TGI: compromete a microvasculatura, podendo ocasionar isquemia no intestino; 
  • Aumento do risco de doença ulcerosa péptica: o tabagismo está associado ao aumento da incidência e recidiva de úlcera gástrica e duodenal; 
  • Risco aumentado de câncer digestivo: a fumaça contém substâncias carcinogênicas potentes, capazes de causar mutações no DNA, o que influencia diretamente no risco aumentado de desenvolver diferentes tipos de câncer, como o câncer gástrico, esofágico e colorretal; 
  • Alterações imunológicas: o hábito de fumar pode aumentar apoptose celular, enfraquecer a barreira intestinal, prejudicar células de Paneth, alterar a secreção antimicrobiana e modular a resposta imune intestinal.  

Efeitos do fumo na composição da microbiota intestinal 

A exposição à fumaça altera a composição da microbiota intestinal, reduzindo a diversidade e modificando a proporção de bactérias, como Firmicutes, Baracteroidetes e Proteobacteria. 

O resultado disso é uma disbiose, que pode contribuir para o aumento da inflamação, pior digestão, favorecer a formação de gases e provocar alterações metabólicas.  

Conclusão 

Considerando as principais consequências do tabagismo sobre a saúde gastrointestinal, citadas ao longo deste texto, fica evidente que o cigarro desempenha um papel crucial no desenvolvimento de doenças graves, como úlceras e diversos tipos de câncer.  

A substâncias tóxicas presentes na composição e fumaça do cigarro comprometem o funcionamento do trato gastrointestinal e favorecem o surgimento de complicações, que acabam afetando a qualidade de vida dos indivíduos.  

Portanto, a conscientização sobre os impactos do cigarro sobre o sistema digestivo, assim como sobre os seus efeitos gerais na saúde, e a busca por medidas preventivas e tratamentos adequados para os indivíduos são fundamentais para reduzir os danos à saúde.   

Referências 

1SZKLO, André Salem ; MENDES, Felipe Lacerda ; VIEGAS, João Ricardo. A Conta que a Indústria do Tabaco Não Conta! Revista Brasileira de Cancerologia, v. 71, n. 2, 2025. Disponível em: <https://rbc.inca.gov.br/index.php/revista/article/view/5129>. 

2MAHAN, L Kathleen ; RAYMOND, Janice L. Krause Alimentos, Nutrição e Dietoterapia. 14. ed. Elsevier Editora Ltda, 2018. 

3BERKOWITZ, Loni; SCHULTZ, Bárbara M.; SALAZAR, Geraldyne A.; et al. Impact of Cigarette Smoking on the Gastrointestinal Tract Inflammation: Opposing Effects in Crohn’s Disease and Ulcerative Colitis. Frontiers in Immunology, v. 9, n. 74, 2018. Disponível em: <https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC5797634/pdf/fimmu-09-00074.pdf>. 

4PAPOUTSOPOULOU, Stamatia; SATSANGI, Jack; CAMPBELL, Barry J.; et al. Review article: impact of cigarette smoking on intestinal inflammation-direct and indirect mechanisms. Alimentary Pharmacology & Therapeutics, v. 51, n. 12, p. 1268–1285, 2020. Disponível em: <https://onlinelibrary.wiley.com/doi/epdf/10.1111/apt.15774>. 

5HATTA, Waku; KOIKE, Tomoyuki; ASANO, Naoki; et al. The Impact of Tobacco Smoking and Alcohol Consumption on the Development of Gastric Cancers. International Journal of Molecular Sciences, v. 25, n. 14, p. 7854–7854, 2024. Disponível em: <https://www.mdpi.com/1422-0067/25/14/7854>. 

6GUI, Xiaohua; YANG, Zhongli ; LI, Ming D. Effect of Cigarette Smoke on Gut Microbiota: State of Knowledge. Frontiers in Physiology, v. 12, p. 673341, 2021. Disponível em: <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC8245763/>. 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Back To Top