Nutrição no tratamento do câncer: manejo e estratégias  

Na imagem, uma apciente em tratamento contra o câncer, se alimentando com facilidade

O dia 4 de fevereiro marca o Dia Mundial de Combate ao Câncer, uma data destinada à conscientização da população e engajamento das autoridades na prevenção e controle da doença.  

Nesse contexto, o manejo nutricional do câncer exerce um papel fundamental, uma vez que o paciente oncológico frequentemente apresenta dificuldades relacionadas à alimentação, que podem comprometer ainda mais o seu estado de saúde.  

Dessa forma, a nutrição no tratamento do câncer tem como objetivo minimizar a perda de peso e a desnutrição, prevenir complicações e auxiliar na resposta às terapias oncológicas, promovendo maior qualidade de vida ao longo do tratamento.  

Desnutrição no paciente com câncer 

O paciente oncológico enfrenta diversas alterações metabólicas, influenciadas tanto pelas características da própria doença (como o tipo de câncer, local e estadiamento do tumor), quanto pelos efeitos adversos dos métodos terapêuticos, incluindo quimioterapia, radioterapia e imunoterapia. 

Como consequência disso, o indivíduo torna-se mais suscetível ao comprometimento de seu estado nutricional, uma vez que esses fatores podem aumentar o gasto energético e reduzir a tolerância alimentar, favorecendo a redução do consumo de alimentos, perda de peso e/ou de massa muscular. 

Nesse sentido, a desnutrição em pacientes oncológicos não decorre apenas da redução da ingestão alimentar, mas também da associação com as profundas mudanças metabólicas, que podem evoluir para o quadro de caquexia.  

Desnutrição x Caquexia

A caquexia é uma síndrome metabólica multifatorial associada ao câncer, caracterizada pela perda contínua de massa muscular (com ou sem perda de massa gorda), associada a um estado inflamatório sistêmico.  

Essa condição não pode ser revertida apenas com a terapia nutricional convencional e está acompanhada de uma alteração funcional progressiva, que pode comprometer a resposta ao tratamento.  

Já a desnutrição está relacionada, principalmente, à carência prolongada da ingestão de nutrientes essenciais ao organismo, seja por meio da redução da ingestão, absorção inadequada ou pelo aumento das necessidades nutricionais. 

Esses fatores podem estar associados a processos inflamatórios, contribuindo para a perda de peso e de massa muscular, além do comprometimento da função imunológica. 

Nesse sentido, o papel do Nutricionista no tratamento do câncer é fundamental para prevenir a desnutrição e evolução para a caquexia.  

Quando iniciar a terapia nutricional no paciente oncológico? 

A terapia nutricional deve ser iniciada logo após a identificação do risco de desnutrição na triagem nutricional, e após a avaliação nutricional do paciente, que inclui o exame físico e antropometria. 

Essa avaliação é fundamental para orientar a intervenção nutricional mais adequada e de forma precoce, a fim de evitar complicações associadas ao comprometimento nutricional.  

Estratégias nutricionais para o paciente com câncer 

O manejo nutricional no câncer deve ser iniciado por meio de orientações e incorporação de estratégias que permitam ao indivíduo alcançar as necessidades nutricionais pela alimentação convencional.  

Dentre as estratégias nutricionais para pacientes oncológicos que visam o estímulo da alimentação oral convencional, destacam-se a alteração na consistência e formas de preparo dos alimentos, assim como aumento da frequência das refeições e maior fracionamento do volume de comida.  

No entanto, quando essas estratégias não forem suficientes para suprir cerca de 70% das necessidades energéticas, recomenda-se o início da terapia nutricional oral (TNO), que envolve a oferta de suplementos nutricionais orais para garantir a ingestão energética e de nutrientes adequada. 

A TNO, por ser a via mais fisiológica, deve ser sempre priorizada. Contudo, caso a ingestão de nutrientes permaneça inadequada, é necessário a avaliação individualizada para a implementação da terapia por via enteral ou parenteral.  

Como evitar a perda de peso no paciente oncológico?  

Estratégias nutricionais para pacientes oncológicos também incluem a adequação das necessidades energéticas e proteicas, a fim de evitar a desnutrição e, consequentemente, a evolução para caquexia associada à doença.  

Quais são as necessidades energéticas do paciente oncológico?  

O cálculo energético deve ser realizado de acordo com o estado nutricional e sinais clínicos do indivíduo. De modo geral, as recomendações de oferta para pacientes com câncer são baseadas na fórmula de bolso: 

  • 25 a 30kcal/kg/dia para pacientes adultos e idosos em tratamento antineoplásico; 
  • 32 a 38 kcal/kg/dia em idosos com IMC inferior a 18,5kg/m²; 
  • 20 a 25 kcal/kg/dia em pacientes obesos; 
  • 30 a 35 kcal/kg/dia em pacientes com caquexia e desnutrição.  

Necessidades proteicas do paciente oncológico 

A oferta de proteínas adequada é crucial para preservar e recuperar a massa muscular perdida pelas condições inflamatórias e catabólicas decorrentes da doença. 

Nesse sentido, as necessidades proteicas devem ser individualizadas de acordo com o grau de estresse metabólico e inflamação de cada paciente: 

  • Acima de 1 g/kg/dia de proteína para adultos e idosos em tratamento antineoplásico; 
  • 1,2 a 2 g/kg/dia para adultos e idosos em tratamento antineoplásico com inflamação sistêmica presente; 

Para pacientes em tratamento paliativo, o Nutricionista pode se basear nas recomendações gerais, porém o ideal é ajustar a oferta proteica de acordo com a aceitação e conforto do paciente, sem seguir metas nutricionais rígidas. 

Alimentação durante a quimioterapia 

É comum que pacientes com câncer submetidos ao tratamento oncológico apresentem uma série de sintomas que dificultam a adequação da alimentação durante a quimioterapia

Essa situação favorece o déficit calórico e nutricional, aumentando o risco de desnutrição, além de comprometer o sucesso do tratamento e qualidade de vida do paciente. 

Nesse contexto, o manejo nutricional de efeitos colaterais da quimioterapia é fundamental para aumentar a tolerância alimentar e contribuir para a melhora do estado nutricional do paciente. 

Confira algumas das estratégias nutricionais para auxiliar no manejo dos principais sintomas associados ao tratamento do câncer com quimioterapia: 

Odinofagia (dor ao engolir) e mucosite oral:

  • Alteração da consistência da dieta; 
  • Aumentar o aporte calórico e proteico das refeições;  
  • Evitar alimentos secos, duros, muito gelados ou quentes; 
  • Evitar alimentos salgados, cítricos, picantes e condimentados. 

Disgeusia (alterações no paladar) e inapetência:  

  • Ofertar os alimentos preferidos do paciente; 
  • Orientar a preparação de pratos atrativos visualmente e utilizar temperos naturais para acentuar o sabor dos alimentos; 
  • Em caso de gosto metálico na boca, é possível usar azeite, limão, ou mel, nas refeições para minimizar esse sabor; 
  • Aumentar a densidade calórica das refeições. 

Xerostomia (boca seca)

  • Utilizar frutas cítricas (como o limão) no preparo dos alimentos, para estimular a salivação; 
  • Adequar a consistência dos alimentos, priorizando alimentos umedecidos, caldos e molhos nas preparações; 
  • Orientar o consumo de líquidos durante as refeições para facilitar a mastigação e deglutição; 
  • Incentivar a hidratação adequada ao longo do dia. 

Náuseas e vômitos

  • Orientar sobre a mastigação lenta e a realização das refeições em um ambiente tranquilo e arejado; 
  • Priorizar pequenas porções de alimentos e evitar líquidos durante as refeições; 
  • Ofertar bebidas à base de gengibre (chás ou sucos); 
  • Priorizar alimentos secos, com baixo teor de gordura, cítricos e gelados. 

Diarreia: 

  • Reduzir o consumo de alimentos ricos em lactose, sacarose, cereais integrais e alimentos ricos em gordura; 
  • Aumentar a ingestão de líquidos; 
  • Evitar a oferta de preparações gordurosas e condimentadas.  

Constipação

  • Incluir alimentos mais laxativos, especialmente frutas e verduras; 
  • Ajustar a ingestão hídrica. 

Conclusão  

nutrição no tratamento do câncer é fundamental para prevenir a perda de peso, desnutrição e minimizar a intolerância alimentar decorrente da terapia oncológica.  

Por meio do acompanhamento de um Nutricionista e de estratégias nutricionais individualizadas, é possível promover mais conforto, resposta positiva ao tratamento e qualidade de vida ao paciente com câncer.  

Referências 

1- SOCIEDADE BRASILEIRA DE ONCOLOGIA CLÍNICA (SBOC). Guia de nutrição para o oncologista. 2. ed. São Paulo: SBOC, 2025. Disponível em: https://app.sboc.org.br/wp-content/uploads/2025/08/Guia-de-Nutricao-para-o-Oncologista-SBOC-2a-edicao-.pdf  

2- HORIE, Lilian Mika et al. Diretriz BRASPEN de terapia nutricional no paciente com câncer. 2019. Disponível em: https://ninho.inca.gov.br/jspui/bitstream/123456789/6606/1/Diretriz%20BRASPEN%20de%20terapia%20nutricional%20no%20paciente%20com%20c%C3%A2ncer..pdf   

3- TRUJILLO, Elaine B. et al. Malnutrition risk screening in adult oncology outpatients: An ASPEN systematic review and clinical recommendations. Journal of Parenteral and Enteral Nutrition, v. 48, n. 8, p. 874-894, 2024. 

4- GONZALEZ, M. Cristina et al. Validação da versão em português da avaliação subjetiva global produzida pelo paciente. Rev Bras Nutr Clin, v. 25, n. 2, p. 102-8, 2010. 

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