No último mês, a nova pirâmide alimentar americana, publicada na edição mais recente das Dietary Guidelines for Americans (2025-2030) gerou inúmeros debates entre profissionais de saúde e nutricionistas, principalmente nas redes sociais.
As novas recomendações americanas chamaram atenção tanto pelas mudanças em relação à diretriz anterior, quanto pela comparação com modelos de outros países.
Entre as comparações, destaca-se o contraste com o Guia Alimentar para a População Brasileira, reconhecido internacionalmente por sua abordagem baseada em alimentos in natura e minimamente processados, no respeito à cultura alimentar e na preocupação com a sustentabilidade dos sistemas alimentares.
As Dietary Guidelines for Americans são documentos oficiais responsáveis por orientar políticas públicas, programas de alimentação e educação nutricional nos Estados Unidos, além de exercerem influência direta, ou indireta, sobre recomendações e diretrizes alimentares adotadas em outros países.
Diante desse cenário, analisar de forma crítica as novas diretrizes americanas, e compará-las com modelos como o Guia Alimentar para a População Brasileira é fundamental.
Essa análise permite compreender e refletir não só as diferenças técnicas entre os documentos, mas as diferentes concepções sobre alimentação, saúde pública e os sistemas alimentares.
O que mudou nas Diretrizes Dietéticas Americanas em 2025?
A nova publicação surge com o lema “Coma comida de verdade”, como uma tentativa de enfrentar o atual cenário de emergência de saúde nos Estados Unidos, marcado por altas taxas de sobrepeso, obesidade e doenças metabólicas.
Entre as principais mudanças das Diretrizes Dietéticas Americanas, observa-se uma reformulação do discurso e das prioridades nutricionais, além de apresentar uma linguagem simplificada e direta, voltada à comunicação com o público geral.
As recomendações anteriores preconizavam uma alimentação plant-based e defendiam o modelo gráfico conhecido como “My plate”, uma ferramenta criada para auxiliar a população americana a montar um prato equilibrado e saudável.
Já a diretriz de 2025-2030 traz a ideia de uma nova pirâmide alimentar, invertida, reposicionando alguns grupos alimentares e enfatizando o consumo de carnes, “gorduras saudáveis”, vegetais, frutas e laticínios, enquanto confere menor destaque ao consumo de carboidratos.
Principais mudanças na Diretriz Alimentar Americana:
- Priorização da dieta baseada em alimentos minimamente processados;
- Maior ênfase na redução de alimentos ultraprocessados;
- Grande valorização de proteínas de origem animal, como carnes, ovos, aves e frutos do mar;
- Substituição da recomendação de ingestão dos laticínios com baixo teor de gordura por opções integrais;
- Ênfase na redução do açúcar adicionado e cereais refinados;
- Recomendação da ingestão proteica diária de 1,2 a 1,6 g/kg, valor bastante superior as edições anteriores.
Apesar de incentivar uma alimentação menos processada e ter uma linguagem acessível à população, a nova diretriz e pirâmide alimentar americana apresenta algumas controvérsias.
Outro ponto que chamou atenção foi a extensão do novo documento. Normalmente, diretrizes alimentares costumam ser publicações extensas, que detalham as evidências científicas utilizadas para embasar as recomendações.
Contudo, a nova edição das Diretrizes Americanas conta com apenas 10 páginas, o que levanta questionamentos sobre o nível de aprofundamento das orientações apresentadas e sobre o foco do público-alvo, que aparentemente é a população geral.
Gordura saturada e a nova pirâmide alimentar americana
Apesar de manter a recomendação de gordura saturada em até 10% das calorias diárias, a nova pirâmide alimentar americana passou a incentivar um maior consumo de alimentos ricos nesse tipo de gordura.
Dentre os alimentos recomendados, estão a carne vermelha, laticínios integrais, além de incluir a manteiga e a banha bovina como opções de gordura para cozinhar ou adicionar às refeições.
No entanto, essa orientação entra em contradição com as próprias recomendações sobre a ingestão de gordura saturada e com evidências que associam o seu consumo excessivo a desfechos metabólicos negativos.
Além disso, a diretriz incentiva maior consumo de proteínas de “alta densidade nutricional”, com foco em fontes de origem animal (carnes, peixes e ovo) o que também entra em contradição, uma vez que esses alimentos apresentam alto conteúdo de gorduras saturadas.
Nova Pirâmide alimentar americana x Guia Alimentar para População Brasileira
A diferença entre o Guia Alimentar brasileiro e a Pirâmide alimentar americana vai além do formato ou da organização dos alimentos.
Enquanto a nova Diretriz e pirâmide alimentar americana foca apenas no consumo de grupos alimentares específicos e nutrientes, o Guia Alimentar da População Brasileira traz uma abordagem mais ampla e integrada ao conceito da alimentação e saúde pública, priorizando padrões alimentares, englobando aspectos culturais, sociais, ambientais e econômicos.
Por que o Guia Alimentar brasileiro é referência mundial?
O Guia Alimentar para a População Brasileira já incorpora, há anos, conceitos fundamentais para a promoção de saúde, ao enfatizar uma alimentação equilibrada e hábitos alimentares saudáveis que respeitem os contextos culturais e as individualidades.
Um desses conceitos é a divisão dos alimentos pelo grau de processamento, com base na classificação NOVA, que agrupa os alimentos em 4 categorias: in natura, minimamente processados, processados e ultraprocessados.
A partir dessa classificação, os alimentos in natura e minimamente processados foram definidos como a base de uma alimentação equilibrada e saudável.
Toda essa integração entre saúde, cultura, alimentação e aspectos socioeconômicos faz com que o guia brasileiro seja reconhecido mundialmente e consolidado como modelo para políticas públicas e alimentares em diversos países.
Conclusão
Apesar dos avanços observados na nova diretriz, o uso da nova pirâmide alimentar americana exige certa atenção e senso crítico pelo nutricionista.
Além disso, é fundamental lembrar que a diretriz foi elaborada para a realidade norte americana. Por isso, no Brasil, o Guia Alimentar para a População Brasileira deve ser a principal referência para nortear as escolhas alimentares, conduta clínica e políticas públicas em alimentação.
Referências
1- UNITED STATES. U.S. Department of Agriculture; UNITED STATES. U.S. Department of Health and Human Services. Dietary Guidelines for Americans, 2025–2030. Washington, D.C.: U.S. Department of Agriculture; U.S. Department of Health and Human Services, 2026. Disponível em: https://www.dietaryguidelines.gov
2- PHILLIPS, Jennan A. Dietary guidelines for Americans, 2020–2025. Workplace health & safety, v. 69, n. 8, p. 395-395, 2021.
3- Snetselaar LG, de Jesus JM, DeSilva DM, Stoody EE. Dietary Guidelines for Americans, 2020-2025: Understanding the Scientific Process, Guidelines, and Key Recommendations. Nutr Today. 2021 Nov-Dec;56(6):287-295. doi: 10.1097/NT.0000000000000512. Epub 2021 Nov 12. PMID: 34987271; PMCID: PMC8713704.
4- Ministério da Saúde (BR). Secretaria de Atenção Básica. Departamento de Atenção Básica. Guia alimentar para a população brasileira. 2. ed. Brasília: Ministério da Saúde; 2014
5- CONSELHO FEDERAL DE NUTRIÇÃO – CFN. Guia Alimentar para a População Brasileira é a principal referência para escolhas alimentares no país. Brasília, 10 jan. 2026. Disponível em: https://cfn.org.br/guia-alimentar-para-a-populacao-brasileira-e-a-principal-referencia-para-escolhas-alimentares-no-pais-2/

