A participação feminina no esporte, tanto em nível profissional quanto amador, tem crescido de forma significativa nos últimos anos. Com isso, a saúde da mulher atleta passou a ganhar mais visibilidade, especialmente no que se refere a condições específicas desse público, que podem impactar no desempenho e saúde.
Além disso, à medida que aumenta a inserção da mulher no esporte, também se intensificam as cobranças relacionadas ao desempenho e à imagem corporal.
Em alguns contextos, essas exigências podem ultrapassar limites saudáveis e gerar repercussões clínicas importantes. Entre elas, destaca-se a chamada Tríade da Mulher Atleta (TMA).
Embora possa acometer qualquer mulher fisicamente ativa, sua ocorrência é mais frequente em modalidades que valorizam estética, baixo peso corporal ou categorias específicas de peso, como ballet, corrida de longa distância, ginástica artística e patinação.
A seguir, entenda o que é a Tríade da Mulher Atleta, como ela se desenvolve e quais são suas principais implicações para a saúde da mulher atleta.
O que é a Tríade da Mulher Atleta
A Tríade da Mulher Atleta (TMA) é uma condição clínica que envolve a interação de três componentes principais: baixa disponibilidade energética, disfunção menstrual e baixa densidade mineral óssea.
Descrita pela primeira vez pelo American College of Sports Medicine (ACSM) em 1992, essa condição afeta meninas e mulheres fisicamente ativas, que buscam se destacar no esporte, e pode gerar consequências relevantes para a saúde.
Atualmente, o conceito de TMA está inserido em uma abordagem mais ampla proposta pelo Comitê Olímpico Internacional (COI): a Deficiência Energética Relativa no Esporte (REDs).
Esse modelo reconhece que a baixa disponibilidade energética pode impactar uma maior variedade de problemas de saúde, incluindo o comprometimento do estado fisiológico e/ou psicológico, podendo, inclusive, afetar atletas do sexo masculino.
A seguir, detalham-se os três pilares que caracterizam a tríade:
1. Baixa Disponibilidade Energética (BDE)
A baixa disponibilidade energética é, na maioria das vezes, o principal fator desencadeador da Tríade da Mulher Atleta.
A disponibilidade energética caracteriza-se como a quantidade de energia necessária para sustentar as funções corporais essenciais.
Dessa forma, a BDE ocorre quando a ingestão calórica não é suficiente para atender, ao mesmo tempo, o gasto energético do exercício e as funções fisiológicas básicas do organismo, como manutenção hormonal, metabolismo celular e equilíbrio térmico.
Esse desequilíbrio pode acontecer de diferentes formas:
- Não intencional – por desconhecimento das necessidades nutricionais, ou subestimação do gasto energético;
- Intencional – em estratégias restritivas voltadas à perda rápida de peso, ou à redução do percentual de gordura;
- Associada a transtornos alimentares – como anorexia nervosa ou bulimia.
Diante da escassez energética, o organismo ativa mecanismos adaptativos para preservar funções vitais. Como consequência, processos considerados não essenciais à sobrevivência imediata, como a função reprodutiva, podem ser suprimidos, desencadeando alterações hormonais e menstruais.
2. Disfunção menstrual
As alterações hormonais causadas tanto pela baixa ingestão energética quanto pelo excesso de estresse decorrente dos treinos, pode impactar de forma negativa o ciclo menstrual, provocando irregularidades e/ou até amenorreia em atletas (ausência de menstruação).
A redução da disponibilidade energética afeta o eixo hipotálamo-hipófise-ovário, alterando a produção hormonal responsável pelo ciclo menstrual. Como resultado, podem ocorrer:
- Irregularidade menstrual;
- Ausência de menstruação por três meses ou mais;
- Atraso da menarca em adolescentes;
- Anovulação;
- Insuficiência da fase lútea;
- Oligomenorreia.
As causas da amenorreia esportiva estão diretamente relacionadas ao desequilíbrio energético e ao impacto hormonal decorrente da restrição alimentar e do esforço físico intenso.
3. Baixa densidade mineral óssea (DMO)
A baixa densidade mineral óssea é uma das consequências mais relevantes da Tríade da Mulher Atleta e ocorre principalmente devido à combinação entre ingestão insuficiente de nutrientes, especialmente os essenciais para o metabolismo ósseo, e redução dos níveis de estrogênio.
O estrogênio exerce papel fundamental na manutenção da massa óssea. Logo, quando há hipoestrogenismo prolongado, ocorre o aumento do risco de:
- Fraturas por estresse;
- Osteopenia;
- Osteoporose precoce.
A baixa mineralização óssea em mulheres atletas pode ter impacto significativo, especialmente quando ocorre durante a adolescência.
Sinais de alerta em atletas femininas
Profissionais da saúde e atletas devem estar atentos a:
- Queda no desempenho atlético e alterações de humor;
- Regularidade do ciclo menstrual;
- Exames bioquímicos e dosagem dos hormônios femininos;
- Perda de peso e frequência de lesões ou fraturas;
- Sinais físicos como bradicardia (ritmo cardíaco lento), hipotensão e hipotermia.
Nutrição para mulher atleta
A nutrição para mulher atleta é o principal fator modificável na prevenção da Tríade da Mulher Atleta e da REDs.
O ponto central da prevenção é evitar a baixa disponibilidade energética, situação em que a ingestão calórica não é suficiente para sustentar o treino e manter as funções fisiológicas básicas do organismo.
Nesse sentido, a abordagem nutricional deve ser ampla, determinando, primeiramente, as necessidades calóricas diárias da atleta e, depois, o balanceamento adequado dos macro e micronutrientes da dieta para atender corretamente às necessidades.
Garantir disponibilidade energética adequada:
A baixa disponibilidade energética é considerada o fator desencadeador da tríade.
Estudos indicam que os prejuízos hormonais e metabólicos tendem a ocorrer quando a disponibilidade energética cai abaixo de 30 kcal/kg de massa livre de gordura por dia.
Para manutenção adequada das funções fisiológicas, valores próximos a 45 kcal/kg/dia são considerados mais seguros. Na prática, recomenda-se:
- Ajustar a ingestão conforme aumento da carga de treino;
- Evitar longos períodos em déficit energético;
- Distribuir refeições ao longo do dia;
- Incluir alimentos com maior densidade energética quando necessário.
Entretanto, é importante destacar que esses valores não devem ser interpretados como critérios diagnósticos absolutos, uma vez que não existe um ponto de corte clínico universalmente estabelecido para caracterizar a baixa disponibilidade energética.
Além disso, esses parâmetros podem variar conforme as características individuais, e a alimentação para atletas femininas não deve priorizar apenas composição corporal, mas também a manutenção hormonal.
Equilíbrio de macronutrientes
A distribuição adequada de macronutrientes é fundamental para recuperação muscular, desempenho e equilíbrio hormonal. De forma geral:
- Proteínas: 1,2 a 2,0 g/kg/dia, ou até 1,8 a 2,2 g/kg de peso corporal, de acordo com as individualidades das atletas;
- Carboidratos: 5 a 10 g/kg/dia (ajustados conforme intensidade, duração e frequência dos treinos);
- Gorduras: não devem ser inferiores a 20% do valor energético total, devendo priorizar a oferta de ácidos graxos mono e poli-insaturados.
A alimentação desordenada em atletas femininas, com restrição excessiva de carboidratos e gorduras, pode contribuir para alterações hormonais e amenorreia.
Micronutrientes e saúde óssea
A baixa densidade óssea em atletas está diretamente relacionada ao desequilíbrio energético e hormonal, mas a ingestão de micronutrientes também desempenha papel importante.
Alguns micronutrientes que devem receber atenção especial:
- Cálcio (aproximadamente 1500 mg/dia em atletas com risco);
- Vitamina D, com manutenção de níveis adequados e avaliação da necessidade de suplementação;
- Ferro, especialmente em corredoras e vegetarianas.
Além desses, é importante atentar-se para a oferta e níveis adequados de fósforo, magnésio e zinco, que também influenciam a densidade mineral óssea.
Nesse contexto, salienta-se que a baixa mineralização óssea em mulheres atletas pode ter impacto irreversível se não for corrigida precocemente.
Conclusão
A Tríade da Mulher Atleta é uma condição que pode comprometer tanto o desempenho esportivo quanto a saúde da atleta a longo prazo.
Na maioria dos casos, o desequilíbrio energético é o ponto inicial do problema e, por isso, a nutrição para mulher atleta apresenta papel-chave no manejo dessa condição.
A nutrição para mulher atleta deve priorizar ingestão adequada de energia e nutrientes essenciais, respeitando o volume de treino e as necessidades individuais.
Embora a tríade seja mais frequente em modalidades que valorizam baixo peso corporal, ela pode ocorrer em qualquer mulher fisicamente ativa. A identificação precoce de sinais, como alterações menstruais, fraturas recorrentes e perda de peso não intencional é fundamental.
A promoção da saúde da mulher atleta deve incluir uma abordagem multidisciplinar e integrar acompanhamento nutricional, avaliação médica e, quando necessário, suporte psicológico, evitando estratégias restritivas que comprometam o equilíbrio hormonal e a saúde óssea.
Referências
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