Setembro Amarelo: Relação saudável e sem culpa com a comida

Mulher sorridente de camisa listrada usando um laço amarelo preso ao peito, enquanto recebe a mão de alguém no ombro em sinal de apoio durante uma refeição.

Comer faz parte das necessidades básicas do organismo, mas a relação com a comida também envolve prazer, cultura, memória, convivência e emoções. Ainda assim, para algumas pessoas, preocupação excessiva, regras rígidas e culpa podem acompanhar as refeições.

Pensamentos como “não deveria ter comido isso”, “amanhã preciso compensar” ou “estraguei a dieta” podem transformar escolhas alimentares cotidianas em motivo de cobrança. Com o tempo, essa dinâmica pode dificultar uma relação com a comida mais flexível e, como resultado, aumentar a insatisfação com a própria alimentação e com o corpo.

No contexto do Setembro Amarelo, falar sobre saúde mental também significa olhar para comportamentos cotidianos que podem gerar sofrimento. Nesse sentido, cuidar da alimentação não precisa significar viver em restrição ou buscar escolhas perfeitas.

Construir uma relação com a comida mais saudável envolve reconhecer as necessidades nutricionais do organismo, mas também abrir espaço para preferências, prazer, contexto social e flexibilidade. Afinal, a nutrição é uma forma de autocuidado, e não de punição.

O que significa ter uma relação saudável com a comida?

Ter uma boa relação com a alimentação não significa comer saudável o tempo inteiro ou apenas considerar a qualidade nutricional das refeições. 

Envolve conseguir fazer escolhas alimentares sem que medo, culpa ou necessidade de compensação acompanhem cada decisão. Também significa compreender que diferentes alimentos podem fazer parte da rotina e que uma refeição isolada não determina a qualidade da alimentação como um todo.

Fome, saciedade, preferências, disponibilidade dos alimentos, cultura, rotina e situações sociais são alguns dos fatores que podem influenciar o que e quanto uma pessoa come.

Por isso, as pessoas tendem a construir uma relação com a comida mais equilibrada a partir da flexibilidade, e não de regras rígidas que precisam cumprir em todas as situações.

Cartaz com um infográfico sobre a relação saudável com a comida versus dietas restritivas

Como dietas muito restritivas podem afetar a relação com a comida?

Dietas baseadas em muitas proibições podem aumentar a preocupação com aquilo que pode ou não ser consumido. Nesse cenário, alimentos passam a ser classificados como “permitidos” ou “proibidos”, enquanto determinadas escolhas podem ser interpretadas como acertos ou erros. 

Essa lógica também pode favorecer um ciclo de restrição e compensação. Após consumir um alimento considerado proibido ou comer uma quantidade maior do que a planejada, por exemplo, a pessoa pode sentir culpa e tentar compensar reduzindo a alimentação posteriormente, pulando refeições ou estabelecendo novas restrições. 

Além disso, quanto mais rígida é uma regra alimentar, maior pode ser a sensação de fracasso quando ela não é cumprida.

Isso não significa que toda orientação ou restrição alimentar seja prejudicial. Algumas modificações são necessárias diante de condições clínicas, alergias, intolerâncias ou necessidades nutricionais específicas. A diferença está em utilizar essas estratégias como parte do cuidado, e não como punição pelo que foi consumido.

Por que deixar de classificar os alimentos como “bons” ou “ruins”?

Alimentos possuem características nutricionais diferentes e alguns devem aparecer com maior frequência na alimentação do que outros. Isso, entretanto, não significa que precisam receber uma classificação moral.

Quando um alimento é considerado “ruim”, “proibido” ou associado à ideia de “sair da linha”, seu consumo pode provocar culpa mesmo quando ocorre de forma ocasional e dentro de uma alimentação equilibrada. 

Uma alternativa é observar os alimentos a partir de suas características, frequência e contexto de consumo. Frutas, verduras, legumes, cereais integrais e leguminosas, por exemplo, fornecem nutrientes importantes e devem fazer parte da rotina. Ao mesmo tempo, consumir um doce em uma ocasião social não invalida as escolhas saudáveis realizadas nas demais refeições. 

Desse modo, essa mudança de perspectiva ajuda a reduzir a lógica de tudo ou nada e permite construir escolhas alimentares mais flexíveis.

O que é neutralidade corporal? 

A neutralidade corporal propõe uma relação de maior aceitação e menor julgamento em relação ao próprio corpo, reduzindo a importância atribuída à aparência e direcionando a atenção também para suas funções. 

Isso significa que não é necessário gostar da própria aparência todos os dias para reconhecer que o corpo merece respeito e cuidado. Nesse sentido, a atenção pode ser direcionada para suas funções, necessidades e experiências, em vez de permanecer exclusivamente no peso ou na aparência. 

Na alimentação, essa perspectiva pode ajudar a direcionar o foco para práticas relacionadas ao cuidado: estou me alimentando regularmente? Minha alimentação oferece variedade? Estou respeitando minhas necessidades? Consigo comer também com prazer?

Dessa forma, cuidar da alimentação deixa de depender exclusivamente da tentativa de modificar o corpo e passa a considerar também suas necessidades e o bem-estar.

Como transformar a alimentação em um ato de autocuidado?

Quando a alimentação é vista como autocuidado, as escolhas deixam de ser orientadas exclusivamente por regras e passam a considerar também as necessidades do organismo e a realidade de cada pessoa.

Isso pode significar organizar refeições para não passar longos períodos sem comer, incluir alimentos que forneçam os nutrientes necessários, respeitar preferências e cultura alimentar e permitir que o prazer alimentar também faça parte das escolhas. 

Além disso, o autocuidado também envolve flexibilidade. Um dia diferente da rotina, uma comemoração ou uma refeição mais prazerosa não precisam ser seguidos por restrição, jejum ou exercício como forma de compensação.

A chamada nutrição gentil parte justamente dessa integração: considerar saúde e necessidades nutricionais sem transformar a alimentação em uma busca permanente por perfeição. 

Quais atitudes ajudam a melhorar a relação com a comida?

Algumas mudanças podem ajudar a tornar a alimentação menos baseada em culpa e mais conectada às necessidades individuais:

  • Perceber os sinais de fome e saciedade: observar como o corpo sinaliza a necessidade de comer e a saciedade ao longo das refeições. Além do mais, compreender as diferenças entre fome emocional e fome fisiológica, contribui para uma relação mais equilibrada com o próprio corpo.  
  • Flexibilizar regras alimentares: questionar proibições que não possuem indicação clínica e observar como elas interferem na rotina e nas suas emoções; 
  • Evitar compensações: uma refeição diferente do habitual não precisa ser “corrigida” com jejum, restrição ou exercício;
  • Retirar o julgamento moral dos alimentos: considerar composição, quantidade, frequência e contexto em vez de classificá-los unicamente como “bons” ou “ruins”; 
  • Incluir alimentos prazerosos: prazer também faz parte da experiência alimentar e não precisa ser deixado de lado; 
  • Praticar maior atenção durante as refeições: quando possível, reduzir distrações, como celular ou televisão, pode facilitar a percepção dos sabores, da fome e da saciedade;
  • Observar pensamentos de culpa: identificar frases e regras internas relacionadas à alimentação pode ser um primeiro passo para questioná-las. 

Essas atitudes não precisam ser implementadas todas ao mesmo tempo. A construção de uma relação com a comida mais saudável é um processo que ocorre aos poucos. Por isso, respeite seu tempo e busque dar um passo de cada vez.

Como o nutricionista pode ajudar a construir uma relação saudável com a comida?

O acompanhamento nutricional vai além da elaboração de um plano alimentar. O nutricionista também pode avaliar como regras, restrições, experiências anteriores com dietas e preocupações relacionadas ao corpo interferem na alimentação.

A partir dessa avaliação, é possível trabalhar estratégias para ampliar a variedade alimentar, organizar as refeições, atender às necessidades nutricionais e desenvolver maior flexibilidade nas escolhas.

Além disso, comportamentos como medo intenso de determinados alimentos, episódios frequentes de perda de controle, restrições alimentares importantes, compensações ou sofrimento significativo relacionado à alimentação merecem atenção.

Nessas situações, o nutricionista pode atuar de maneira integrada a outros profissionais, especialmente psicólogos e médicos, conforme as necessidades de cada pessoa.

Como construir uma relação com a comida baseada em autocuidado?

Uma relação com a comida mais saudável não depende de seguir a alimentação perfeitamente. Ela é construída ao longo do tempo, à medida que saúde e necessidades nutricionais passam a conviver com preferências, cultura, prazer e contexto. 

Isso também significa compreender que comer de maneira diferente em determinados dias faz parte da vida e não exige punição ou compensação posteriormente.

Ao substituir regras rígidas por maior flexibilidade, a alimentação pode deixar de ser uma fonte constante de cobrança e ocupar seu papel como parte do cuidado com a saúde e o bem-estar.

Nesse processo, o objetivo não é abandonar a nutrição, mas mudar a maneira como ela é utilizada: menos como instrumento de controle e mais como uma forma de autocuidado.

Referências:

  1. ALVARENGA, Marle et al. (org.). Nutrição comportamental. 2. ed. rev. e atual. Barueri: Manole, 2019 
  2. ELLIZZER, Mia L.; WADE, Tracey D. Developing a definition of body neutrality and strategies for an intervention. Body Image, v. 46, p. 434–442, 2023. DOI: 10.1016/j.bodyim.2023.07.006
  3. MULGREW, Kate E.; HINZ, Angela. What is body neutrality and how is it different to existing body image concepts? An analysis of experts and general community responses. Body Image, v. 51, p. 101780, 2024.

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