O risco dos agrotóxicos para a saúde

Os malefícios dos agrotóxicos para a saúde humana são uma preocupação crescente em todo o mundo. Esses produtos químicos são usados na agricultura visando combater pragas nas plantações, sob a justificativa de controlarem doenças provocadas por esses vetores e por regularem o crescimento da vegetação, tanto no ambiente rural quanto urbano.
Os efeitos sobre a saúde podem ser de dois tipos:
  1. efeitos agudos, resultantes da exposição à concentrações de um ou mais agentes em altas quantidades;
  2. efeitos crônicos, resultantes de uma exposição contínua à doses relativamente baixas de um ou mais produtos, ocorrendo este normalmente através da alimentação, pela ingestão de alimentos contaminados por agrotóxicos.

Efeitos

A Organização Internacional do Trabalho (OIT), afirma que os agrotóxicos causam por volta de 70 mil intoxicações agudas e crônicas por ano, com evolução para óbito, em países em desenvolvimento.
Outros mais de sete milhões de casos de doenças agudas e crônicas não fatais também são registrados. O Brasil vem sendo o país com maior consumo destes produtos desde 2008, em detrimento do desenvolvimento do agronegócio no setor econômico, havendo sérios problemas quanto ao uso destes no país, pois por aqui há permissão de uso de agrotóxicos já banidos em outros países, além da venda ilegal de agrotóxicos previamente proibidos.
Já foram relatados diversos efeitos deletérios à saúde devido à exposição a esses aditivos, como desenvolvimento de câncer, danos ao DNA, maior estresse oxidativo e distúrbios neurológicos, respiratórios, metabólicos e da tireoide.
Também foram registrados em literatura casos como: dificuldade para dormir, esquecimentos, abortos, impotência, depressão, alteração do funcionamento do fígado e dos rins, anormalidade da produção de hormônios reprodutivos, incapacidade de gerar filhos, malformações e problemas no desenvolvimento intelectual e físico de crianças.
Os efeitos de uma exposição a longo prazo podem aparecer em semanas, meses e até anos após a exposição, sendo, portanto, mais difícil de identificar o agente causador.
Contudo, os agrotóxicos mais associados a danos à saúde incluem: herbicidas, inseticidas e fungicidas. Os inseticidas da classe dos organofosforados (glifosato e clorpirifos são um dos mais utilizados) atuam no organismo humano inibindo um grupo de enzimas denominadas colinesterases. Essas enzimas atuam na degradação da acetilcolina, um neurotransmissor responsável pela transmissão dos impulsos no sistema nervoso (central e periférico). Vários distúrbios do sistema nervoso foram associados à exposição aos agrotóxicos organofosforados.
Estima-se que um terço dos alimentos consumidos por brasileiros esteja contaminado com agrotóxicos. Na lista de alimentos mais contaminados estão: pimentão (91,8%), morango (63,4%), pepino (57,4%), alface (54,2%), cenoura (49,6%), abacaxi (32,8%), beterraba (32,6%) e mamão (30,4%). Outro dado alarmante é que, em análise feita pelo Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos (PARA) da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), 63% das amostras de alimentos estava contaminada por agrotóxicos, sendo que 28% apresentavam contaminação por ingredientes ativos de agrotóxicos não permitidos para aquela cultura ou que ultrapassaram o limite máximo de resíduos considerados aceitáveis. Outros 35% estavam contaminados, porém dentro desses limites “aceitáveis”.
Vale ressaltar que a Anvisa iniciou no mês de maio deste ano novas coletas de alimentos para análise. O Ciclo 2023 é o primeiro ciclo do Plano Plurianual 2023-2025, que prevê o monitoramento de 36 alimentos, que representam 80% do consumo total de alimentos de origem vegetal. O Plano de Amostragem do Ciclo 2023 pretende colher 3.790 amostras dos seguintes alimentos: abacaxi, alface, alho, arroz, batata doce, beterraba, cenoura, chuchu, goiaba, laranja, manga, pimentão, tomate e uva.
Mesmo diante de todos esses fatos sobre os agrotóxicos, é frequente que nas mesas de muitas famílias estejam sendo servidos agrotóxicos junto às refeições. Então o que podemos fazer para orientar os pacientes?
Muitas pessoas acreditam que lavar os alimentos pode eliminar os agrotóxicos, mas isso nem sempre é verdade.
Os agrotóxicos podem ser classificados em dois grandes grupos de acordo com seu modo de ação: sistêmico e de contato.
  • Sistêmico: Os agrotóxicos sistêmicos atuam no interior de folhas e polpas, penetrando nelas.
  • De contato: Já os de contato, agem, principalmente, nas partes externas do vegetal, embora uma quantidade possa ser absorvida pelas partes internas.
Desta forma, os procedimentos de lavagem dos alimentos em água corrente e a retirada de cascas e folhas externas contribuem sim para redução dos resíduos de agrotóxicos, mas apenas dos presentes no exterior, sendo então incapazes de eliminar aqueles contidos no interior do alimento. Além disso, alguns agrotóxicos podem aderir firmemente à superfície dos alimentos, tornando-se mais difíceis de remover com a lavagem convencional.

Alimentos orgânicos

A aquisição de alimentos orgânicos ou provenientes de sistemas agroecológicos é uma opção para o consumidor.
Em termos simples, os alimentos orgânicos são cultivados seguindo práticas agrícolas que respeitam o meio ambiente, promovendo a sustentabilidade e sem uso de agrotóxicos. Portanto, uma das principais vantagens dos alimentos orgânicos é a menor exposição a resíduos de agrotóxicos, o que significa uma menor exposição a substâncias químicas potencialmente prejudiciais.
Para saber se um alimento é orgânico, este dever conter o selo do Sistema Brasileiro de Avaliação da Conformidade Orgânica que garante que um alimento oferecido é, de fato, natural e livre de alterações químicas. Vale ressaltar que nem todos os alimentos orgânicos têm este selo, principalmente alimentos vendidos em feiras, por exemplo. Apesar disso, muitos produtores orgânicos são transparentes sobre suas práticas agrícolas e podem fornecer informações detalhadas sobre como seus produtos são cultivados.
A adoção de uma dieta baseada em alimentos orgânicos, pode contribuir para a redução dos riscos associados à exposição a agrotóxicos e outros produtos químicos presentes nos alimentos convencionais. É especialmente importante considerar essa opção em grupos vulneráveis, como crianças, mulheres grávidas e lactantes, que podem ser mais suscetíveis aos efeitos negativos dos agrotóxicos.
No entanto, sabe-se que os alimentos orgânicos apresentam um custo maior em relação aos convencionais, sendo assim, de difícil acesso para a maior parte da população brasileira. Deste modo, é recomendado optar por alimentos da safra, pois costumam receber, em média, uma carga menor de agrotóxicos e possuem um custo mais baixo devido à produção facilitada pela estação. A impossibilidade de aquisição de alimentos orgânicos não deve ser motivo para diminuir o consumo de frutas, legumes e verduras produzidos pelo sistema convencional de cultivo.
Em resumo, os agrotóxicos representam uma preocupação significativa para a saúde humana. A exposição a essas substâncias pode estar associada a uma série de problemas de saúde, desde câncer e distúrbios neurológicos até distúrbios do desenvolvimento em crianças. Para minimizar esses riscos, é importante considerar a escolha de alimentos orgânicos, que são cultivados sem o uso de agrotóxicos sintéticos. Além disso, ao optar por alimentos orgânicos, é essencial verificar as certificações e selos de qualidade, além de buscar informações sobre a origem dos produtos. Dessa forma, podemos fazer escolhas alimentares mais saudáveis e contribuir para a proteção do meio ambiente e da nossa própria saúde.

Referências:

  1. Curl CL, Spivak M, Phinney R, Montrose L. Synthetic Pesticides and Health in Vulnerable Populations: Agricultural Workers. Curr Environ Health Rep. 2020 Mar;7(1):13-29. doi: 10.1007/s40572-020-00266-5. PMID: 31960353; PMCID: PMC7035203.
  2. CARNEIRO, F. F. et al. Segurança Alimentar e nutricional e saúde. Parte 1. In CARNEIRO, Fernando Ferreira et al. (org.) Dossiê ABRASCO: um alerta sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde. Rio de Janeiro: EPSJV; São Paulo: Expressão Popular, 2015. Disponível em: Acesso: 15 ago. 2017.
  3. PERES, F.; MOREIRA, Josino Costa ; DUBOIS, Gaetan Serge. É veneno ou é remédio? Agrotóxicos, saúde e ambiente. 1ed.Rio de Janeiro: Editora da Fiocruz, 2003, v. 1, p. 21-41
  4. INCA. Agrotóxico
  5. ANVISA. Agrotóxicos em alimentos
  6. ANVISA. Resíduos de agrotóxicos em alimentos: Anvisa inicia novo ciclo de coletas
  7. Ministério da Saúde. O que são alimentos orgânicos
  8. Ministério da Saúde. Como identificar se um alimento é orgânico

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Back To Top