Você já parou para pensar se a busca por uma alimentação saudável pode se transformar em algo prejudicial? Em um mundo onde somos constantemente bombardeados com dicas de “super alimentos”, dietas milagrosas e rotinas perfeitas no Instagram, é cada vez mais comum encontrar pessoas que levam a sério demais a ideia de comer “limpo”. Esse comportamento, muitas vezes visto como virtude, pode esconder uma desordem alimentar ainda pouco discutida, chamado ortorexia. E aqui está o ponto central: não se trata de desinteresse pela saúde, mas sim de uma verdadeira obsessão por dieta.
O que é ortorexia?
O termo “ortorexia nervosa” surgiu em 1997 para descrever indivíduos excessivamente preocupados com o consumo de alimentos saudáveis. Inicialmente, essa busca começa de forma sutil, por exemplo, uma busca para melhorar os hábitos alimentares, corrigir erros ou investir em mais vitalidade. No entanto, quando a alimentação saudável passa a ser guiada por regras rígidas e um controle extremo, o saudável vira um problema.
A ortorexia não aparece ainda como diagnóstico oficial no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), mas já é reconhecida na literatura científica como um comportamento alimentar prejudicial, ainda em investigação, que pode estar associado a consequências físicas e psicológicas relevantes.
Sintomas de ortorexia
Entre os principais sintomas de ortorexia, estão:
- Obsessão pela pureza dos alimentos e exclusão de grupos alimentares inteiros;
- Longas horas dedicadas a planejar, pesquisar e preparar refeições;
- Angústia e culpa intensa quando regras autoimpostas não são cumpridas;
- Isolamento social, já que o contato com outras pessoas pode “colocar em risco” o controle alimentar;
- Sensação de superioridade moral diante dos próprios hábitos.
Esse quadro pode levar a desnutrição, perda de peso e até complicações médicas semelhantes às da anorexia nervosa, como osteopenia, anemia e alterações metabólicas.
Ortorexia, anorexia e TOC: diferenças sutis
Muitos se perguntam como identificar transtornos alimentares quando os comportamentos parecem se sobrepor. A ortorexia compartilha traços com a anorexia nervosa e com o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), mas possui motivações distintas. Enquanto na anorexia há medo de engordar, na ortorexia a motivação é o desejo de ser mais saudável, puro ou natural. Já em comparação ao TOC, a literatura aponta semelhanças importantes, como, perfeccionismo, rigidez cognitiva, devoção excessiva e preocupação com regras. Entretanto, as obsessões da ortorexia podem ser percebidas como corretas (egossintônicas), ao contrário do TOC, onde os sintomas são considerados indesejáveis (egodistônicos).
Estigma social e consequências
A literatura mostra que tanto a anorexia quanto a ortorexia carregam estigmas sociais semelhantes, com avaliações negativas e julgamento de superioridade moral. Pessoas que seguem “dietas limpas” obsessivas podem ser vistas como menos atraentes socialmente. Esse impacto social reforça a ideia de que a obsessão por dieta não afeta apenas a saúde física, mas também a vida social e emocional.
Desafios no diagnóstico e tratamento
Pesquisadores discutem se a ortorexia deve ser considerada uma condição independente ou um subtipo de outros transtornos alimentares. Há inclusive teorias de que ela possa, em casos extremos, sinalizar risco de psicopatologias mais graves, como quadros psicóticos. Por isso, compreender quando o saudável vira um problema é essencial para intervir cedo.
No tratamento, a terapia cognitivo-comportamental (TCC) tem sido apontada como uma abordagem promissora, justamente por ajudar a flexibilizar pensamentos rígidos e reduzir preocupações obsessivas relacionadas à alimentação saudável.
Conclusão
A ortorexia é um aviso de que até mesmo comportamentos valorizados socialmente podem se tornar prejudiciais quando levados ao extremo. Se por um lado a alimentação saudável promove bem-estar e longevidade, por outro, a obsessão por dieta pode se transformar em uma desordem alimentar com consequências físicas, psicológicas e sociais. Reconhecer os sintomas de ortorexia e saber como identificar transtornos alimentares é um passo fundamental para transformar informação em cuidado, afinal, saúde vai muito além do que está no prato.
Referências
1. KOVEN, Nancy ; ABRY, Alexandra. The clinical basis of orthorexia nervosa: emerging perspectives. Neuropsychiatric Disease and Treatment, v. 11, n. 1, p. 385, 2015.
2. LORENZON, Luís Felipe Lopes; MINOSSI, Patrícia Beatriz Pedroso ; PEGOLO, Giovana Eliza. Ortorexia nervosa e imagem corporal em adolescentes e adultos. Jornal Brasileiro de Psiquiatria, v. 69, n. 2, p. 117–125, 2020.
3. NEVIN, Suzanne M. ; VARTANIAN, Lenny R. The stigma of clean dieting and orthorexia nervosa. Journal of Eating Disorders, v. 5, n. 1, 2017.
4. ROSSI, Alessandro Alberto; MANNARINI, Stefania; DONINI, Lorenzo Maria ; et al. Dieting, obsessive-compulsive thoughts, and orthorexia nervosa: Assessing the mediating role of worries about food through a structural equation model approach. Appetite, v. 193, p. 107164–107164, 2024.
5. ALVARENGA, Gustavo ; SANTOS, Oliveira. Revista da Abordagem Gestáltica. Rev. abordagem gestalt, v. 19, n. 1, 2013.

