Alimentação e uso de telas: impactos no corpo e na mente

Na imagem uma mulher mexe no celular enquanto come

O despertador toca e, no mesmo instante, você já abre o celular, liga a tv para acompanhar as notícias ou para distrair as crianças enquanto tomam o café da manhã.

Ao chegar no trabalho, inicia a rotina de longas horas em frente às telas. As demandas são tantas que, muitas vezes, não há nem tempo para tirar o horário de almoço, e o jeito é comer bem rapinho na mesa de trabalho, enquanto faz outra coisa. 

Na hora do jantar, a família fica dividida entre o celular, o jogo on-line ou o capítulo da novela. Para finalizar o dia, antes de dormir não pode faltar aquela checada nas redes sociais e, quando percebe, alguns minutinhos já viraram horas…   

À primeira vista, isso parece apenas um breve retrato da vida contemporânea agitada. Contudo, se pararmos para analisar com calma, é possível identificar um padrão que se repete: a alimentação e o uso de telas estão quase sempre juntos. 

Seja na correria de um dia de trabalho, comendo enquanto responde e-mails e dá conta das demandas, ou durante o almoço, assistindo a vídeos ou rolando o feed para se distrair, o hábito de usar telas durante as refeições tem se tornado algo cada vez mais comum e quase automática.  

Mas será que há impactos do uso de telas nos hábitos alimentares?  

Ao longo deste texto, vamos mostrar um pouco do que a ciência diz sobre o uso de telas e o comportamento alimentar, além de dicas para reduzir o uso de telas durante as refeições.   

Os impactos do uso de telas na alimentação e saúde  

Embora pareça inofensivo, a exposição frequente a telas, principalmente durante as refeições, pode trazer consequências significativas para a saúde. 

O excesso de telas tem grande influência na qualidade da alimentação, uma vez que se relaciona com a ingestão mais frequente de alimentos ultraprocessados, ricos em açúcar, sódio e gorduras saturadas. Nesse sentido, esse comportamento contribui como um fator de risco para o desenvolvimento de obesidade e outras doenças crônicas.  

Além disso, a distração gerada pelo uso de telas nas refeições influencia na regulação fisiológica da fome e saciedade. Isso porque, quando a atenção não está voltada para o alimento e para o ato de comer, os sinais de fome e saciedade acabam não sendo percebidos. Como consequência disso, é comum fazer escolhas alimentares inadequadas, com preferência por alimentos pouco nutritivos e com elevado valor calórico.  

Outro fator que contribui diretamente para a piora da qualidade da alimentação durante o uso de telas, e consequentemente para impactos negativos na saúde, é a forte influência das publicidades. Anúncios atrativos de fast-food e outros produtos ultraprocessados são constantemente exibidos, principalmente em plataformas digitais.  

A exposição constante a essas propagandas acaba estimulando o comportamento alimentar não saudável e o consumo imediato desses produtos, expressando um dos impactos do uso de telas nos hábitos alimentares, especialmente em crianças e adolescentes. 

Telas e sedentarismo  

O uso excessivo de telas afeta diversos aspectos comportamentais de um indivíduo, não só os hábitos alimentares. O tempo gasto em frente ao computador, tablets, televisão, jogos eletrônicos e celulares favorece um estilo de vida sedentário, no qual o indivíduo permanece longos períodos sem realizar atividades físicas básicas e sem gastar energia. 

Nesse contexto, a combinação entre sedentarismo e o consumo frequente de alimentos ultraprocessados, ambos associados ao maior tempo gasto em frente à tela, contribui significativamente para o risco elevado de desenvolvimento de obesidade, diabetes e outras doenças crônicas não transmissíveis.  

O uso excessivo de telas e ciclo circadiano 

O excesso de telas, principalmente no período noturno, pode desalinhar o ciclo circadiano, mais conhecido como relógio biológico. Mas o que isso tem a ver com a alimentação? 

A exposição às telas e à luz artificial durante a noite interfere no funcionamento natural do organismo, provocando alterações na produção e regulação de hormônios importantes para a modulação do sono, da fome, saciedade e do metabolismo de glicose.  

Essa desregulação, pode levar a um aumento da ingestão de alimentos, principalmente em horários não fisiológicos, além de comprometer o controle de fome e saciedade. Como resultado, há um aumento da ingestão calórica e, consequentemente, maior risco de ganho de peso ao longo do tempo.  

A importância da atenção plena na alimentação  

Prestar a atenção no que estamos comendo é fundamental para ajudar no reconhecimento dos sinais de fome e saciedade. Esse cuidado, permite a identificação adequada dos sinais fisiológicos do organismo durante a alimentação, evitando a ingestão excessiva de alimentos.  

Além disso, praticar a atenção plena na alimentação possibilita uma experiência sensorial mais rica, permitindo perceber com mais clareza o cheiro, textura e sabor dos alimentos. Isso tudo contribui para uma melhor relação com a comida. 

Nesse sentido, a distração de comer mexendo no celular ou comer vendo TV atrapalha a atenção plena e, consequentemente, dificulta escolhas mais conscientes e que promovam uma alimentação saudável.  

Conclusão  

Minimizar o uso de telas nas refeições e ao longo do dia é fundamental para promover escolhas alimentares mais saudáveis e um estilo de vida mais equilibrado de modo geral. Esse é um hábito enraizado no cotidiano, mas algumas estratégias podem auxiliar nesse processo: 

  • Incentive refeições em família, deixando os celulares em outro cômodo. Aproveite esse momento para transformar a refeição em um momento de afeto e interação; 
  • Determine horários reduzidos para o uso de dispositivos eletrônicos, evitando o período noturno;  
  • Busque realizar atividades ao ar livre, como caminhadas, passeios e brincadeiras com as crianças;  
  • Nos momentos de entretenimento com telas, como assistir filmes, troque os ultraprocessados por snacks saudáveis, como pipoca caseiras e frutas picadas. 

Essas dicas, não só reduzem o tempo de tela durante as refeições, mas também contribuem para estimular uma alimentação saudável e consciente. 

Referências 

  1. OLIVEIRA, Juliana Souza et al. ERICA: uso de telas e consumo de refeições e petiscos por adolescentes brasileiros. Revista de Saúde Pública, v. 50, p. 7s, 2016. 
  1. ROSIEK, Anna et al. Effect of television on obesity and excess of weight and consequences of health. International journal of environmental research and public health, v. 12, n. 8, p. 9408-9426, 2015. 
  1. MELÉNDEZ-FERNÁNDEZ, O. Hecmarie; LIU, Jennifer A.; NELSON, Randy J. Circadian rhythms disrupted by light at night and mistimed food intake alter hormonal rhythms and metabolism. International journal of molecular sciences, v. 24, n. 4, p. 3392, 2023. 
  1. ALVARENGA, Marle et al. Nutrição comportamental. Editora Manole, 2015. 

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