Nos últimos meses, relatos de gestações não planejadas em mulheres que utilizavam medicamentos da classe dos agonistas de GLP-1, como Ozempic (Semaglutida) e Mounjaro (Tirzepatida), ganharam grande repercussão nas redes sociais. O fenômeno passou a ser popularmente chamado de “Geração dos bebês Ozempic e Mounjaro”.

Contudo, por trás desse “fenômeno” curioso existe um grande alerta para mulheres em idade reprodutiva que fazem uso desse tipo de medicamento, seja por indicação médica ou uso off-label.
Embora os agonistas de GLP-1 sejam amplamente prescritos para o tratamento do diabetes tipo 2 e, mais recentemente, para o tratamento da obesidade, seus efeitos sobre o organismo vão além da perda de peso e do controle glicêmico.
Um dos principais fatores que ajuda a explicar o aumento desses relatos é que os medicamentos da classe GLP-1 reduzem o efeito do anticoncepcional oral, aumentando as chances de uma gestação não planejada. Além disso, também há uma grande preocupação sobre os riscos do uso de GLP-1 na gravidez, reforçando a importância de um acompanhamento multiprofissional.
O texto a seguir discutirá como os agonistas do GLP-1 interferem no efeito do anticoncepcional, se a classe de medicamentos de GLP-1 afeta a fertilidade, quais os cuidados necessários para prevenir falhas contraceptivas e minimizar os possíveis riscos à saúde materna e fetal.
O que são medicamentos análogos GLP-1?
Os análogos de GLP-1, ou agonistas do receptor de GLP-1/GIP, são medicamentos inicialmente desenvolvidos para o tratamento do diabetes mellitus tipo 2, uma vez que auxiliam no melhor controle glicêmico.
No entanto, devido ao seu efeito significativo na redução do apetite e, consequentemente, na redução de peso corporal, Ozempic e Mounjaro ganharam destaque como ferramentas importantes no tratamento da obesidade e das doenças associadas.
Os fármacos dessa classe atuam “imitando” a ação do hormônio GLP-1 no organismo, estimulando uma maior liberação de insulina, menor secreção de glucagon, retardando o esvaziamento gástrico e promovendo maior sensação de saciedade.
O Ozempic (semaglutida) é conhecido por atuar exclusivamente no receptor de GLP-1, enquanto o Mounjaro (tirzepatida) apresenta ação dupla nos receptores de GLP-1 e GIP, o que potencializa os seus efeitos metabólicos e na perda de peso.
Por que o GLP-1 interfere no anticoncepcional?
Medicamentos como o Ozempic e Mounjaro têm como principal mecanismo de ação o retardo do esvaziamento gástrico. Isso significa que, após ingerir um alimento, o conteúdo permanece por mais tempo no estômago. Em consequência disso, há uma maior sensação de saciedade, levando à redução da ingestão alimentar.
No entanto, esse mecanismo pode afetar negativamente a absorção de medicamentos orais, como as pílulas contraceptivas, uma vez que o retardo do esvaziamento gástrico faz com que essas substâncias demorem mais tempo para chegar no intestino, local em que são absorvidas.
Dessa forma, os medicamentos análogos do GLP-1 reduzem o efeito do anticoncepcional oral ao prejudicar sua absorção, o que aumenta o risco de falha contraceptiva. Vale ressaltar que os estudos demonstram especialmente que o Mounjaro, agonista duplo de GLP-1/GIP, interfere mais diretamente no efeito do anticoncepcional oral, principalmente no início do tratamento ou durante os períodos de ajuste de dose.
Para minimizar os riscos de uma gravidez não planejada, é fundamental que mulheres em idade fértil e que utilizam algum desses medicamentos recebam orientação adequada e busquem o acompanhamento com um ginecologista, para uma avaliação individual do método contraceptivo mais seguro e eficaz durante o tratamento.
GLP-1 afeta a fertilidade feminina e masculina?
Além de interferir na eficácia dos anticoncepcionais orais, os análogos de GLP-1 podem afetar a fertilidade, contribuindo indiretamente para o aumento de gestações não planejadas em pacientes que utilizam esses medicamentos.
Ainda não há evidências conclusivas de que os fármacos Ozempic e Mounjaro alterem diretamente a fertilidade feminina e masculina. Contudo, a associação observada se dá principalmente em função da melhora de parâmetros metabólicos, redução do peso corporal e da diminuição da inflamação crônica, fatores que podem influenciar indiretamente a fertilidade desses pacientes.
GLP-1 e fertilidade feminina
Os agonistas de GLP-1 podem impactar na fertilidade feminina devido à melhora da saúde metabólica associada à perda de peso, principalmente em mulheres com síndrome dos ovários policísticos (SOP), favorecendo a melhora da resistência insulínica e regularização do ciclo menstrual.
GLP-1 e fertilidade masculina
Obesidade, diabetes e síndrome metabólica podem prejudicar diversos aspectos da fertilidade masculina, impactando desde a qualidade do sêmen até a integridade do DNA dos espermatozoides.
Estudos indicam que a melhora do metabolismo relacionada a perda de peso podem favorecer a qualidade do sêmen, estabelecendo a associação entre os análogos de GLP-1 e fertilidade masculina. No entanto, ainda não há evidências conclusivas sobre essa relação.
O que acontece se engravidar usando Ozempic e Mounjaro?
Atualmente, não há evidências científicas que comprovem a segurança do uso dos análogos de GLP-1 durante a gestação e amamentação. Por isso, a recomendação é que haja a suspensão do Ozempic (semaglutida), por no mínimo dois meses antes da concepção, e do Mounjaro (Tirzepatida), pelo menos um mês antes.
Vale ressaltar que a perda de peso acentuada e a redução da ingestão alimentar decorrente do uso do Ozempic ou Mounjaro pode comprometer as reservas de nutrientes necessários para o desenvolvimento saudável do embrião.
Além disso, ainda não há conhecimento sobre o potencial teratogênico destes medicamentos, indicando possíveis riscos do uso dos análogos de GLP-1 durante a gravidez.
Para mulheres que utilizam esses fármacos e desejam engravidar, o recomendado é buscar por aconselhamento médico, que possivelmente irá suspender a medicação com meses de antecedência, visando que o corpo recupere as reservas nutricionais e retome o ambiente metabólico para o crescimento ideal do bebê.
Conclusão
Para evitar surpresas e possíveis riscos associados ao uso dos análogos de GLP-1 na gravidez, o uso desses medicamentos deve ser acompanhado por uma equipe multiprofissional.
Dessa forma, um médico tem um papel essencial para a escolha do método contraceptivo ideal, evitando a gestação não planejada. Além disso, o acompanhamento com um nutricionista é fundamental para garantir um bom estado nutricional da futura mamãe, principalmente para aquelas mulheres que desejam engravidar após o tratamento.
Referências
1- SKELLEY, Jessica W. et al. The impact of tirzepatide and glucagon-like peptide 1 receptor agonists on oral hormonal contraception. Journal of the American Pharmacists Association, v. 64, n. 1, p. 204-211. e4, 2024.
2- BADER, Salwa et al. A systematic review of GLP-1 on anthropometrics, metabolic and endocrine parameters in patients with PCOS. Women’s Health, v. 20, p. 17455057241234530, 2024.
3- SERVICE, Chad Austin et al. The impact of obesity and metabolic health on male fertility: a systematic review. Fertility and sterility, v. 120, n. 6, p. 1098-1111, 2023.
5- FEBRASGO. Recomendações da FEBRASGO sobre canetas para perda de peso e anticoncepcionais orais. São Paulo: FEBRASGO, 2025. Disponível em: https://www.febrasgo.org.br/pt/noticias/item/2148-recomendacoes-da-febrasgo-sobre-canetas-para-perda-de-peso-e-anticoncepcionais-orais

