A compreensão de como a alimentação influencia o humor tem ganhado cada vez mais destaque na prática clínica, especialmente diante do aumento de dietas restritivas e padrões alimentares irregulares.
No dia a dia, é possível observar que alterações no padrão alimentar estão associadas a mudanças no estado emocional.
Longos períodos sem comer, restrições alimentares excessivas ou mesmo a exclusão de determinados grupos alimentares, por exemplo, podem impactar diretamente o humor. Dessa forma, é possível observar alterações que favorecem sintomas como irritabilidade, ansiedade e dificuldade de concentração.
Ademais, com a popularização de dietas da moda, jejum prolongado e estratégias alimentares voltadas à rápida perda de peso, observa-se um aumento nos padrões alimentares desequilibrados.
Consequentemente, podem ocorrer impactos negativos no bem-estar emocional, sobretudo quando essas práticas são realizadas de forma extrema ou sem considerar as necessidades individuais.
Dessa forma, entender como a alimentação influencia o humor e como a comida influencia as emoções vai além da qualidade da dieta. Envolve também a regularidade alimentar, a disponibilidade energética e os mecanismos fisiológicos que regulam o comportamento alimentar e as emoções, especialmente em situações de escassez.
O texto a seguir abordará quais os principais mecanismos que explicam a relação entre alimentação e humor, incluindo os efeitos da restrição alimentar, da escassez energética.
Adicionalmente, serão discutidos os impactos das dietas da moda na saúde mental e porque ficamos de mau humor quando estamos com fome.
Como a alimentação influencia o humor
A compreensão de como a alimentação influencia o humor envolve uma relação direta entre o que se come, frequência alimentar e o funcionamento do organismo.
Ou seja, na prática o que, quanto e como se come pode influenciar diretamente o comportamento, o estado emocional e a capacidade de concentração.
Isso porque o cérebro depende de energia e nutrientes para manter as funções cognitivas e emocionais equilibradas.
Nesse sentido, a qualidade da alimentação é um fator muito importante, mas não o único.
Além disso, a regularidade e quantidade de energia e nutrientes disponíveis ao longo do dia também impactam diretamente o estado emocional.
Por exemplo, em longos períodos de jejum o corpo reage com sinais de alerta, priorizando apenas funções vitais e influenciando negativamente o humor.
Da mesma forma, a baixa ingestão de nutrientes essenciais afeta a produção de neurotransmissores ligados ao bem-estar, como a serotonina. Em consequência disso, sintomas como irritabilidade, cansaço e dificuldades de concentração podem surgir.
Portanto, isso reforça como a alimentação influencia o humor de forma ampla.
Nutrientes e química cerebral:
A relação entre alimentação e irritabilidade depende da disponibilidade de nutrientes essenciais para a produção de neurotransmissores. Entre os principais nutrientes envolvidos, destacam-se:
- Ômega-3: presente em peixes e sementes, como na chia e linhaça, pode melhorar a função cognitiva e ajudar a tratar alguns transtornos;
- Vitamina D: atua em regiões cerebrais relacionadas ao humor. Além disso, sua deficiência está associada a maior risco de alterações emocionais;
- Triptofano: aminoácido precursor da serotonina;
- Magnésio, zinco e vitaminas do complexo B: atuam no bom funcionamento do nosso sistema nervoso.
A ingestão inadequada desses nutrientes pode impactar diretamente a regulação do humor e o bem-estar emocional.
Dietas da moda e saúde mental
As dietas da moda, frequentemente associadas a promessas de resultados rápidos, têm impacto também na saúde mental e no equilíbrio do organismo.
Esses padrões alimentares costumam envolver a restrição de grupos alimentares específicos, como os carboidratos, ou a adoção de estratégias de restrição alimentar total, como jejum prolongado. Isso, muitas vezes, sem o devido acompanhamento profissional.
Esse cenário reforça a relação direta entre dietas da moda e saúde mental e como a alimentação influência o humor.
A restrição alimentar pode comprometer a produção de neurotransmissores importantes, como serotonina e dopamina, que estão relacionados ao bem-estar e à estabilidade emocional. Com isso, podem surgir sintomas como irritabilidade, fadiga e alterações de humor.
Além disso, a escassez de comida é interpretada pelo organismo como um sinal de estresse. Esse processo pode levar ao aumento do cortisol e à desregulação dos mecanismos de fome e saciedade, favorecendo maior instabilidade emocional e aumento do foco em comida.
Esse cenário está associado a maior risco de desenvolvimento de transtornos alimentares, especialmente em indivíduos mais vulneráveis.
Adicionalmente, a influência das redes sociais têm papel relevante nesse contexto. Isso porque, a exposição constante a padrões estéticos irreais e a conteúdos sobre dietas pode aumentar a insatisfação corporal e reforçar comportamentos restritivos.
Restrição alimentar e alteração de humor
A restrição alimentar, seja voluntária ou devido a outros motivos, pode impactar diretamente o estado emocional, evidenciando a relação entre restrição alimentar e alteração de humor.
A relação entre fome e emoções pode ser explicada por diferentes mecanismos fisiológicos e comportamentais.
Uma das hipóteses sugere que a fome reduz a capacidade de autorregulação emocional. Outra abordagem considera que o estado de “fome e irritação” resulta da interação entre sinais fisiológicos e interpretação psicológica.
Isso acontece porque a redução da glicose estimula a liberação de grelina e o aumento do cortisol, gerando alterações corporais associadas ao estresse. Ou seja, diante da menor disponibilidade de glicose, o cérebro tem mais dificuldade de controlar emoções intensas, como a raiva.
Essas mudanças ajudam a explicar porque ficamos de mau humor quando estamos com fome.
Com o tempo, esse processo pode contribuir para ciclos de restrição e perda de controle alimentar, especialmente quando associado a dietas muito restritivas.
Um estudo experimental com mulheres adultas, publicado em 2022, mostrou que ficar 14 horas em jejum aumentou emoções negativas como tensão, raiva, fadiga e confusão mental, além de reduzir emoções positivas, especialmente disposição e energia.
Ou seja, a sensação de fome realmente pode impactar o humor e não ser apenas uma impressão.
Portanto, observa-se que a restrição alimentar afeta não somente o corpo, mas o estado emocional e saúde mental dos indivíduos.
Nesse sentido, os achados reforçam como a alimentação influencia o humor de maneira significativa, evidenciando a importância de padrões alimentares regulares para o equilíbrio emocional.
Conclusão
A compreensão de como a alimentação influencia o humor e como a comida influencia as emoções permite uma abordagem mais completa na prática clínica.
A escassez de comida, seja por restrição alimentar, jejum prolongado ou hábitos irregulares, pode impactar diretamente o funcionamento cerebral e emocional.
Além disso, dietas da moda e estratégias muito restritivas podem agravar esse cenário, contribuindo para alterações de humor e piora da relação com a alimentação.
Por isso, a orientação nutricional deve considerar não apenas o aporte de nutrientes, mas também a regularidade alimentar e o impacto da alimentação no comportamento e nas emoções.
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