Transtornos alimentares disfarçados como estilo de vida nas redes

Atualmente, os transtornos alimentares deixaram de ser discutidos apenas no campo da saúde para ocupar também um espaço preocupante nas redes sociais. 

Isso porque, não é de hoje que o mundo digital tem um grande papel na forma em que as pessoas se informam sobre alimentação, saúde e estilo de vida. 

Se antes os conteúdos, especialmente sobre saúde, eram publicados em blogs e fóruns, agora eles se espalham rapidamente por meio de vídeos curtos e trends virais, atingindo um número cada vez maior de pessoas. 

Nesse cenário, influenciadores do mundo wellness, e até mesmo alguns profissionais de saúde, produzem conteúdos mostrando a rotina alimentar, treinos intensos e estratégias frequentemente voltadas para o emagrecimento rápido.

No entanto, por trás desses conteúdos aparentemente inofensivos, é comum a presença de práticas restritivas e compensatórias, frequentemente apresentadas como sinal de disciplina, autocontrole e dedicação à saúde. 

Assim, os comportamentos associados a transtornos alimentares ficam disfarçados de estilo de vida.

Dessa forma, cresce a preocupação com a relação entre redes sociais e transtornos alimentares, e a necessidade de um olhar mais crítico aos tipos de conteúdos consumidos no meio digital. 

Entendendo sobre os transtornos alimentares

Os transtornos alimentares são um conjunto de condições psiquiátricas caracterizadas por mudanças persistentes no comportamento alimentar, que impactam negativamente a saúde física e psicossocial. 

Além disso, os transtornos alimentares estão frequentemente associados a disfunções no controle do peso e na percepção da imagem corporal. 

Esses distúrbios podem se manifestar por meio de diferentes comportamentos, como: 

  • Restrição ou compulsão alimentar;
  • Prática de exercícios físicos excessivos;
  • Vômitos autoinduzidos e uso de laxantes; 

Ademais, eles são comumente observados em adolescentes e jovens adultos, que, direta ou indiretamente, estão mais expostos às redes sociais e às pressões estéticas. 

Dessa forma, esse contexto pode levar a múltiplas complicações clínicas, psiquiátricas e nutricionais.

De modo geral, os indivíduos com transtornos alimentares compartilham alguns pensamentos e percepções em comum, como:

  • Medo constante de ganhar peso;
  • Insatisfação com a própria imagem corporal;
  • Autodepreciação;
  • Dificuldade de autoaceitação, tanto psicologicamente quanto fisicamente.

Tipos de transtornos alimentares

Os critérios diagnósticos são estabelecidos no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), que classifica os diferentes tipos de transtornos alimentares em:

  • Anorexia nervosa, com os subtipos restritiva e compulsivo-purgativo;
  • Bulimia nervosa;
  • Transtorno da compulsão alimentar.

Além disso, também há outras condições relacionadas aos distúrbios alimentares, mas que não satisfazem a todos os critérios para a classe dos transtornos alimentares diagnosticados, como:

  • Anorexia nervosa atípica;
  • Transtorno de purgação;
  • Síndrome do comer noturno;
  • Picamalácia;
  • Transtorno de ruminação;
  • Ortorexia.

Esses transtornos podem gerar impactos significativos tanto na saúde física, mental e convivência social desses indivíduos. Por isso, o acompanhamento multiprofissional é fundamental para o manejo dos distúrbios.

Como as redes reforçam os transtornos alimentares 

A influência das redes sociais na alimentação e transtornos alimentares não é recente, e vem se transformando ao longo do tempo. 

No início dos anos 2000, era comum ter blogs e comunidades digitais que promoviam a cultura da magreza, além do compartilhamento de relatos pessoais e práticas relacionadas à bulimia e anorexia.

Atualmente, esses conteúdos ainda continuam presentes no meio digital, mas assumiram uma nova identidade: além de migrar para outras plataformas, como o TikTok e Instagram, agora eles são compartilhados no formato de vídeos curtos, “engraçados” e “trends”.

Alguns exemplos incluem:

  • Trend “magras, magras, magras!” com meninas comemorando (ou induzindo) quadros de diarréia para ficarem com a barriga “seca”;
  • Indivíduos compartilhando que sentem inveja do “shape” de moradores de rua, por serem magros e bem definidos; 
  • Pessoais incentivando a prática de jejum e exercícios físicos excessivos para compensar o exagero na alimentação. 

Ou seja, conteúdos que reforçam comportamentos inadequados passam a ser naturalizados e até incentivados. Isso contribui diretamente para a banalização dos transtornos alimentares e pode acabar comprometendo a identificação desses quadros como um problema de saúde. 

Transtornos alimentares disfarçados de estilo de vida: 

Quando esses conteúdos são apresentados como “memes” ou tendências engraçadas, eles atingem um público vulnerável de uma forma rápida e banalizada, reduzindo a percepção de gravidade do problema.

Além disso, muitos influenciadores mostram a rotina de alimentação e treino, dicas para emagrecer de forma rápida, além de divulgarem produtos “milagrosos” para ter o corpo igual ao deles.

Dessa forma, as pessoas passam a enxergar o comportamento compulsório ou restritivo como sinônimo de  disciplina, vitalidade, autocontrole e dedicação à saúde, colocando os transtornos alimentares disfarçados de estilo de vida.

Ortorexia: uma outra visão sobre os transtornos alimentares

A ortorexia é um grande exemplo da influência das redes sociais na alimentação dos jovens e adultos. Ela se caracteriza pela obsessão por alimentos “saudáveis” e “puros”, que pode se iniciar pelo simples desejo de priorizar uma alimentação correta, mas evoluir para:

  • Restrição severa;
  • Isolamento social;
  • Culpa extrema ao consumir algo fora do planejado.

Nas redes sociais, a ortorexia pode ser incentivada por discursos de manter o foco e adotar um “lifestyle fitness”, reforçando a ideia de transtornos alimentares disfarçados de estilo de vida.

O papel da nutrição nos transtornos alimentares

O nutricionista exerce um papel essencial dentro do contexto dos transtornos alimentares e nutrição, desde a identificação até o manejo desses casos. 

Mais do que avaliar o consumo alimentar, é fundamental que o profissional compreenda a relação do indivíduo com a comida. Ou seja, como as emoções, influências externas e os conteúdos consumidos nas redes sociais podem influenciar o comportamento alimentar. 

Por isso, é fundamental que o profissional esteja atento a como identificar transtornos alimentares no consultório, observando aspectos como: 

  • Relatos de culpa frequente após comer;
  • Medo intenso de determinados alimentos;
  • Comportamentos compensatórios;
  • Preocupação excessiva com contagem de calorias e leitura de rótulos; 
  • Influência de conteúdos digitais nas escolhas alimentares.

A partir disso, o profissional pode identificar sinais de transtornos alimentares e, caso seja necessário, encaminhar o paciente para um acompanhamento multiprofissional, englobando psicólogos e médicos. 

Além disso, a nutrição é fundamental para promover uma abordagem mais equilibrada, afastando a ideia de mentalidade da dieta, punição, restrição extrema e contagem de calorias. 

Responsabilidade profissional nas redes sociais 

Os conteúdos de transtornos alimentares disfarçados de estilo de vida não têm origem apenas de influenciadores. Infelizmente, é possível observar muitos profissionais da área da saúde produzindo vídeos que reforçam essa problemática.  

Um exemplo que está sendo bastante vinculado nas redes sociais, são vídeos de nutricionistas com “dicas tóxicas” de emagrecimento, incentivando jejum, comportamentos restritivos ou compensatórios. 

Dessa forma, esse tipo de conteúdo, além de ser potencialmente prejudicial, contribui para a banalização dos transtornos alimentares.

O que diz o Código de Ética e Conduta do Nutricionista

Vale ressaltar que o Código de Ética e Conduta do Nutricionista é claro ao proibir o estímulo de comportamentos que coloquem em risco a saúde física e psicológica da população. 

Dessa forma, promover dietas extremas ou produtos milagrosos como um estilo de vida, além de ser irresponsável, é uma violação ética. 

Portanto, esse tipo de conteúdo não deve ser incentivado, principalmente, por profissionais na área da saúde. 

Conclusão 

A internet é uma ferramenta importante de informação, no entanto, é fundamental desenvolver um olhar crítico sobre os conteúdos relacionados ao corpo, alimentação e saúde nas redes sociais. 

Nesse sentido, os transtornos alimentares não devem ser normalizados, banalizados ou tratados como um estilo de vida. Muitas vezes, por trás de conteúdos que parecem ser motivacionais ou engraçados, existem comportamentos alimentares que merecem uma maior atenção. 

Portanto, promover uma relação equilibrada com a alimentação, baseada na individualidade, bem-estar e promoção da saúde é fundamental, tanto nas redes sociais, como no atendimento nutricional. 

Referências:

  1. ALVARENGA, Marle et al. Nutrição comportamental. Editora Manole, 2015.   
  2. MAHAN, L Kathleen ; RAYMOND, Janice L. Krause Alimentos, Nutrição e Dietoterapia. 14. ed. : Elsevier Editora Ltda, 2018. 
  3. BITTENCOURT, Liliane de Jesus; ALMEIDA, Rafaela Andrade. Transtornos alimentares: patologia ou estilo de vida?. Psicologia & Sociedade, v. 25, p. 220-229, 2013.
  4. G1. Transtornos alimentares são vendidos como “estilo de vida” em vídeos virais nas redes. G1, 21 mar. 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/saude/noticia/2026/03/21/transtornos-alimentares-sao-vendidos-como-estilo-de-vida-em-videos-virais-nas-redes.ghtml
  5. KOVEN, Nancy S.; ABRY, Alexandra W. The clinical basis of orthorexia nervosa: emerging perspectives. Neuropsychiatric disease and treatment, p. 385-394, 2015.
  6. DE NUTRICIONISTAS, Conselho Federal. Código de ética do nutricionista. ConScientiae Saúde, v. 3, p. 165-170, 2004.

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