Insulina como anabolizante: como funciona e quais os perigos

A imagem ilustra um homem aplicando uma seringa de uma substância anabolizante no braço

O uso de insulina como anabolizante tem repercutido bastante nos últimos dias. O uso desse e outros hormônios ou medicamentos para fins estéticos e aumento de desempenho físico tem crescido cada vez mais, principalmente entre praticantes de musculação e fisiculturismo. 

Nesse cenário, além dos esteroides anabolizantes tradicionais, o uso de insulina como anabolizante também passou a ganhar espaço entre alguns praticantes de fisiculturismo.

A insulina é um hormônio produzido naturalmente pelo pâncreas e possui papel fundamental no controle da glicemia e no metabolismo energético. Sua principal função é permitir que a glicose presente no sangue entre nas células para ser utilizada como fonte de energia. 

Além disso, a insulina também participa do metabolismo de proteínas e lipídios, influenciando diretamente processos relacionados ao armazenamento energético e à recuperação muscular. 

Dessa forma, por apresentar efeitos anabólicos no organismo, alguns praticantes de fisiculturismo passaram a utilizar a insulina como anabolizante com objetivo de potencializar o ganho de massa muscular, melhorar a recuperação pós-treino e os resultados estéticos. 

Contudo, o uso de insulina sem indicação clínica envolve riscos metabólicos importantes e potencialmente fatais.

Além disso, conteúdos divulgados em redes sociais e em fóruns de musculação frequentemente abordam apenas os supostos benefícios estéticos dessa prática, enquanto os riscos associados ao uso inadequado da insulina e de outros hormônios anabolizantes acabam sendo minimizados ou até omitidos.

Diante disso, compreender como a insulina atua no organismo e quais os perigos do uso indiscriminado da insulina como anabolizante é fundamental. 

Nesse sentido, o texto a seguir abordará sobre os mecanismos da insulina no organismo, como surgiu o uso da insulina como anabolizante e quais são os principais perigos metabólicos associados a essa prática.

O que é a insulina?

A insulina é um hormônio produzido naturalmente pelas células beta do pâncreas e possui papel essencial no controle da glicemia, ou seja, na regulação dos níveis de açúcar no sangue. Sua principal função é facilitar a entrada de glicose nas células. 

De forma simplificada, a insulina funciona como uma “chave” que permite que a glicose saia do sangue e entre nas células do organismo, especialmente nas células musculares, hepáticas e adiposas. A partir daí, a glicose pode ser usada como fonte de energia ou armazenada para ser usada posteriormente. 

Além disso, a insulina também participa de funções, como:

  1. Síntese de glicogênio muscular; 
  2. Captação de aminoácidos pelas células musculares;
  3. Síntese proteica;
  4. Redução da degradação muscular;
  5. Metabolismo lipídico. 

Após as refeições, principalmente aquelas ricas em carboidratos, ocorre o aumento da glicose sanguínea e liberação de insulina pelo pâncreas. Esse mecanismo ajuda a manter o equilíbrio glicêmico e garantir fornecimento energético adequado para os tecidos.

No músculo esquelético, por exemplo, a insulina favorece a captação de glicose e aminoácidos, além de atuar reduzindo processos catabólicos relacionados à degradação muscular.

Por esse motivo, a insulina é considerada também um hormônio com efeito anabólico, já que favorece a entrada de nutrientes nas células e contribui para a construção e preservação dos tecidos corporais. 

Nesse sentido, esses efeitos ajudam a explicar por que a insulina como anabolizante passou a ser utilizada por alguns praticantes de musculação e fisiculturistas que buscam potencializar a hipertrofia muscular e os resultados estéticos. 

Como a insulina atua no ganho de massa muscular?

O interesse no uso da insulina como anabolizante está relacionado principalmente devido à sua atuação sobre o metabolismo muscular.

A insulina aumenta e facilita o transporte de glicose e aminoácidos para o interior das células musculares. Isso favorece maior armazenamento de glicogênio muscular e auxilia nos processos de recuperação após os treinos. 

Além disso, a insulina também possui importante ação anticatabólica, ou seja, ela reduz a degradação das proteínas musculares. Consequentemente, esse efeito ajuda a preservar a massa muscular durante períodos de treinamento intenso. 

Enquanto hormônios como GH (hormônio do crescimento) e IGF-1 possuem ação mais diretamente relacionada ao estímulo da síntese proteica, a insulina atua principalmente reduzindo a quebra muscular. Dessa forma, ela favorece um ambiente mais anabólico. 

Outro ponto importante é que a insulina estimula o armazenamento de glicogênio muscular, que representa uma das principais reservas de energia utilizadas durante o exercício físico. Por isso, muitos praticantes associam o uso da insulina à melhora do desempenho e recuperação pós treino.

No entanto, o ganho de massa muscular depende de múltiplos fatores, incluindo treinamento resistido adequado, ingestão proteica suficiente, consumo energético total, recuperação muscular, dentre outros.

Além disso, a insulina também pode estimular o armazenamento de gordura corporal, processo conhecido como lipogênese. Nesse sentido, seu uso pode contribuir para o aumento de peso e gordura corporal, e não necessariamente ao aumento real de massa muscular magra. 

Por que a insulina é utilizada junto com outras substâncias?

No fisiculturismo e em protocolos de doping, a insulina como anabolizante raramente é utilizada de forma isolada. Frequentemente, ela é combinada com: 

  1. Hormônio do crescimento (GH);
  2. IGF-1;
  3. Esteroides anabolizantes androgênicos (AAS).

Essa associação tem como objetivo potencializar simultaneamente recuperação muscular, síntese proteica e armazenamento energético.

Em alguns casos, o GH também é utilizado como tentativa de equilibrar parte do ganho de gordura corporal associado ao uso isolado da insulina, já que a insulina também possui importante ação lipogênica. 

O problema é que a combinação de múltiplas substâncias aumenta ainda mais os riscos metabólicos e cardiovasculares relacionados à prática.

Quais são os perigos da insulina como anabolizante? 

O principal e mais conhecido risco relacionado ao uso inadequado de insulina como anabolizante é a hipoglicemia severa. Isso porque, quando existe excesso de insulina circulante, a glicose sanguínea pode cair rapidamente para níveis perigosamente baixos. 

Os sintomas mais comuns incluem: 

  1. Tontura;
  2. Tremores;
  3. Sudorese intensa;
  4. Taquicardia;
  5. Visão turva;
  6. Fraqueza;
  7. Confusão mental.

Nos casos mais graves, a hipoglicemia pode evoluir para:

  1. Convulsões;
  2. Perda de consciência;
  3. Coma;
  4. Morte.

O risco é ainda maior porque pequenas falhas na alimentação, no cálculo da dose ou no tempo entre aplicação e ingestão de carboidratos podem desencadear crises graves rapidamente.

Hipocalemia e alterações eletrolíticas: 

Outro risco importante relacionado ao uso da insulina como anabolizante envolve a hipocalemia, ou seja, níveis extremamente baixos de potássio no sangue.

A insulina aumenta a entrada de potássio para dentro das células, reduzindo sua concentração na corrente sanguínea. Quando isso acontece de forma intensa, podem surgir alterações musculares e cardíacas importantes.

Entre as possíveis complicações estão:

  1. Cãibras musculares;
  2. Fraqueza intensa;
  3. Alterações respiratórias;
  4. Arritmias cardíacas;
  5. Risco de morte.

Essas alterações podem ocorrer principalmente quando existe uso inadequado das doses ou associação com outras substâncias.

Resistência à insulina e diabetes tipo 2: 

Ademais, outro ponto importante é que o uso indiscriminado de insulina, como anabolizante ou não, pode contribuir para desenvolvimento de resistência à insulina.

Isso porque, com o tempo, as células passam a responder de forma menos eficiente à ação do hormônio, dificultando o controle glicêmico natural do organismo. Consequentemente, isso pode favorecer o desenvolvimento de diabetes tipo 2.

Ganho de gordura corporal e lipogênese:

Embora muitos usuários procurem a insulina como anabolizante visando hipertrofia muscular e maior definição, o hormônio também possui importante ação sobre o armazenamento de gordura corporal.

A insulina reduz a utilização de gordura como fonte de energia e estimula processos de lipogênese, favorecendo o armazenamento de gordura corporal. 

Isso significa que parte do ganho de peso associado ao uso da insulina pode ocorrer às custas de gordura corporal e não apenas de massa muscular. 

Riscos hepáticos e cardiovasculares:

O uso de insulina como anabolizante também pode estar associado a alterações hepáticas e cardiovasculares, principalmente quando combinado com outras substâncias para performance. 

Estudos realizados com fisiculturistas observaram alterações em marcadores hepáticos e maior sobrecarga metabólica em usuários de protocolos hormonais combinados. 

Além disso, a associação entre insulina, GH e esteroides anabolizantes pode aumentar ainda mais o risco de alterações cardiovasculares, infarto agudo do miocárdio e acidente vascular cerebral (AVC).

Disfunções sexuais: 

Nos homens, o uso crônico dessas substâncias pode estar associado à redução da produção natural de testosterona, diminuição da libido, infertilidade e disfunção erétil. 

Enquanto nas mulheres, podem ocorrer alterações menstruais, irregularidade hormonal e sinais de hiperandrogenismo. 

Além disso, alterações metabólicas relacionadas à resistência à insulina, obesidade visceral e disfunções cardiovasculares também podem contribuir indiretamente para piora da saúde reprodutiva e função sexual ao longo do tempo.

O impacto das redes sociais na banalização da prática

Nos últimos anos, conteúdos relacionados à performance física passaram a circular de forma intensa nas redes sociais.

Nesse cenário, a insulina como anabolizante frequentemente é apresentada apenas pelos possíveis efeitos estéticos e anabólicos, enquanto os riscos metabólicos acabam sendo minimizados.

Muitos protocolos são compartilhados sem embasamento científico adequado e sem contextualização sobre:

  1. Risco de hipoglicemia;
  2. Necessidade de monitoramento glicêmico;
  3. Complicações cardiovasculares;
  4. Interações medicamentosas;
  5. Consequências metabólicas a longo prazo.

Além disso, parte dessas informações costuma ser divulgada por pessoas sem formação em saúde, utilizando relatos pessoais e experiências individuais como referência.

Insulina como anabolizante: vale a pena?

A insulina possui papel fisiológico importante no metabolismo energético e muscular, o que ajuda a explicar seu uso inadequado em ambientes ligados à hipertrofia e performance esportiva.

Entretanto, apesar dos efeitos anticatabólicos e do estímulo ao armazenamento energético, o uso de insulina como anabolizante envolve riscos metabólicos graves e potencialmente fatais, principalmente relacionados à hipoglicemia severa.

Insulina sem acompanhamento médico

Outro ponto importante é que o uso inadequado da insulina sem acompanhamento médico pode comprometer seriamente o funcionamento do organismo, especialmente em pessoas sem diabetes ou indicação clínica para utilização desse hormônio. 

Além disso, os possíveis benefícios sobre hipertrofia muscular ainda apresentam limitações importantes quando analisados à luz das evidências científicas disponíveis.

Nesse sentido, alimentação adequada, treinamento estruturado e acompanhamento multiprofissional continuam sendo as estratégias mais seguras, sustentáveis e cientificamente recomendadas para promover ganho de massa muscular e melhora da composição corporal.

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