Transtornos alimentares e saúde mental: sinais de alerta e como buscar ajuda

Mulher jovem de cabelo curto vestindo top claro e calça jeans, puxando o cós da calça folgada para mostrar a perda de peso diante de um espelho.

A relação entre transtornos alimentares e saúde mental é multifacetada e abrange diferentes aspectos.

Condições como anorexia nervosa, bulimia nervosa e transtorno de compulsão alimentar envolvem alterações persistentes no comportamento alimentar e podem causar repercussões importantes na saúde física, emocional e social.

Embora muitas vezes sejam tidas apenas como preocupação com o peso ou à aparência, os transtornos alimentares são, na verdade, condições complexas que nem sempre são facilmente identificadas.

Nesse contexto, mudanças no comportamento alimentar, sofrimento relacionado à comida e comportamentos compensatórios são sinais de alerta.

Por isso, reconhecer essas mudanças e buscar ajuda profissional precocemente é fundamental. O tratamento, por exemplo, pode envolver diferentes áreas da saúde, como nutricionista, psicólogo e médico ou psiquiatra, de acordo com as necessidades e a gravidade de cada caso. 

Ao longo do texto, serão discutidos os principais transtornos alimentares e sua relação com a saúde mental.

O que são transtornos alimentares?

Os transtornos alimentares são condições de saúde mental caracterizadas por alterações persistentes na alimentação ou em comportamentos relacionados a ela, que podem comprometer a saúde física e o funcionamento psicossocial. 

Seu desenvolvimento é complexo e pode envolver diferentes fatores biológicos, psicológicos e socioculturais. Dessa forma, não devem ser compreendidos como uma escolha, falta de força de vontade ou preocupação exclusivamente estética. 

Entre os transtornos e desordens alimentares mais conhecidos estão a anorexia nervosa, a bulimia nervosa e o transtorno de compulsão alimentar. 

Anorexia nervosa

A anorexia nervosa envolve restrição da ingestão energética em relação às necessidades nutricionais, associada ao peso corporal significativamente baixo, além de medo intenso de ganhar peso ou presença de comportamentos persistentes que interferem no ganho de peso. Alterações em como o peso ou a forma corporal são vivenciados também podem estar presentes. 

A restrição alimentar prolongada pode provocar desnutrição e diferentes complicações clínicas, tornando necessário o acompanhamento do estado nutricional e das condições físicas e psicológicas. 

Bulimia nervosa

A bulimia nervosa é caracterizada por episódios recorrentes de compulsão alimentar, nos quais há ingestão de uma grande quantidade de alimentos em um curto período de tempo, acompanhada pela sensação de perda de controle. 

Esses episódios são seguidos por comportamentos compensatórios recorrentes com o objetivo de evitar o ganho de peso, como vômitos autoinduzidos, uso inadequado de laxantes ou outros medicamentos, jejum ou exercício físico excessivo. 

Além das repercussões emocionais, esses comportamentos podem provocar alterações hidroeletrolíticas, gastrointestinais e outras complicações clínicas. 

Transtorno de compulsão alimentar

No transtorno de compulsão alimentar, também ocorrem episódios recorrentes de compulsão e sensação de perda de controle. Entretanto, diferentemente da bulimia nervosa, eles não são acompanhados regularmente por comportamentos compensatórios inadequados. 

Durante esses episódios, a pessoa pode comer mais rapidamente do que o habitual, continuar comendo mesmo sem fome física ou até sentir desconforto pela quantidade ingerida. Sentimentos de culpa, vergonha ou sofrimento também podem estar presentes. 

É importante conhecer a diferença entre compulsão e exagero alimentar. O transtorno de compulsão alimentar possui critérios diagnósticos específicos e deve ser avaliado por profissionais capacitados.

Qual é a relação entre transtornos alimentares e saúde mental?

A relação entre transtornos alimentares e saúde mental é complexa. Além do sofrimento relacionado à alimentação e à imagem corporal, pessoas com nesses contextos podem apresentar outras condições de saúde mental, como ansiedade e depressão. 

Nos transtornos alimentares, a preocupação com comida, peso ou corpo ocupa uma parcela importante da rotina e interfere nas relações sociais, estudos, trabalho e outras atividades. Levando ao isolamento social, redução da qualidade de vida, vergonha, culpa e dificuldades em situações que envolvem alimentação.

Por essa razão, a avaliação não deve considerar apenas o comportamento alimentar ou o estado nutricional. As diretrizes recomendam, portanto, investigar também aspectos relacionados à saúde mental, incluindo ansiedade, depressão, automutilação e risco de suicídio. 

Quais são os sinais de alerta para transtornos alimentares?

Os sinais podem variar de acordo com o tipo e a gravidade do transtorno. Além disso, uma pessoa não precisa apresentar todos eles para que exista necessidade de investigação. Nesse contexto, reconhecer mudanças no comportamento alimentar pode ajudar na identificação de possíveis transtornos alimentares e no cuidado com a saúde mental. Alguns sinais que merecem atenção incluem: 

  • Restrições alimentares cada vez mais rígidas;
  • Exclusão de alimentos ou grupos alimentares sem indicação clínica;
  • Pular refeições com frequência;
  • Preocupação intensa com alimentação, peso ou forma corporal;
  • Episódios de alimentação acompanhados por sensação de perda de controle;
  • Vômitos auto induzidos ou uso inadequado de laxantes, diuréticos ou outros medicamentos;
  • Prática de exercício físico de maneira excessiva ou compulsiva;
  • Culpa, vergonha ou sofrimento intenso após comer;
  • Evitar refeições com outras pessoas ou situações sociais envolvendo alimentos;
  • Mudanças importantes e persistentes nos hábitos alimentares;
  • Pesagens ou checagens corporais frequentes;
  • Tonturas, desmaios, fraqueza ou sensação frequente de frio;
  • Alterações gastrointestinais, menstruais ou dentárias, dependendo dos comportamentos presentes.

No entanto, um sinal isolado não confirma a presença de um transtorno alimentar. Da mesma forma, peso e aparência corporal não devem ser utilizados isoladamente para determinar se uma pessoa precisa de avaliação ou tratamento. 

Quando buscar ajuda para transtornos alimentares?

Os transtornos alimentares podem comprometer tanto a saúde física quanto a mental. Dependendo do diagnóstico, da duração e da gravidade do quadro, podem ocorrer alterações cardiovasculares, gastrointestinais, metabólicas, endócrinas e hidroeletrolíticas, além de comprometimento do estado nutricional. 

As repercussões psicológicas também merecem atenção. Alguns transtornos alimentares estão associados a maior risco de automutilação e suicídio, tornando a avaliação da saúde mental uma parte importante do cuidado. 

Diante dessa relação entre transtornos alimentares e saúde mental, a identificação precoce dos sinais merece atenção. Não é necessário esperar que os sintomas se agravem ou que ocorram mudanças importantes no peso. Alterações persistentes no comportamento alimentar, comportamentos compensatórios, episódios recorrentes de perda de controle ao comer ou sofrimento significativo relacionado à alimentação e ao corpo já justificam uma avaliação profissional. 

O primeiro contato pode ocorrer com profissionais de saúde capacitados para realizar a avaliação inicial e, quando necessário, encaminhar para uma equipe especializada. No Sistema Único de Saúde (SUS), a Unidade Básica de Saúde (UBS) pode funcionar como uma das portas de entrada para avaliação e direcionamento do cuidado. Dependendo das necessidades de saúde mental e da organização da rede local, outros serviços também podem participar da assistência.

Também existem serviços especializados vinculados a hospitais e universidades, além de equipes particulares com experiência no tratamento de transtornos alimentares. Buscar atendimento especializado permite avaliar tanto os comportamentos relacionados aos transtornos alimentares quanto possíveis repercussões sobre a saúde mental. 

Por que o acompanhamento multidisciplinar é importante?

Como os transtornos alimentares podem envolver simultaneamente aspectos nutricionais, psicológicos, clínicos e de saúde mental, o tratamento pode exigir a participação de diferentes profissionais.  

A composição da equipe depende das necessidades de cada pessoa, mas pode incluir nutricionista, psicólogo, médico e psiquiatra. A comunicação entre esses profissionais permite acompanhar as diferentes dimensões do quadro e ajustar as estratégias de forma mais individualizada ao longo da recuperação. 

Nesse sentido, cada especialidade na equipe multiprofissional desempenha um papel complementar e estratégico no processo de recuperação:

EspecialidadePapel / Função
PsicólogoAtua sobre aspectos cognitivos, emocionais e comportamentais relacionados ao transtorno, utilizando abordagens psicoterapêuticas adequadas ao diagnóstico e ao perfil do paciente.
Médico ou psiquiatraParticipa da avaliação clínica e/ou psiquiátrica, do acompanhamento das complicações e comorbidades e, quando necessário, do tratamento medicamentoso.
NutricionistaAcompanha o estado nutricional, a ingestão e os comportamentos relacionados à alimentação, contribuindo para a recuperação nutricional e para a construção gradual de uma boa relação com a comida e de um padrão alimentar adequado às necessidades do paciente. 

O cuidado também pode envolver o trabalho progressivo de crenças e dificuldades relacionadas aos alimentos dentro da atuação nutricional, favorecendo uma alimentação mais adequada e uma relação com a comida menos marcada por medo, culpa e regras rígidas.

Na anorexia nervosa, por exemplo, a orientação nutricional é recomendada como parte de uma abordagem multidisciplinar e deve estar integrada aos demais componentes do tratamento. 

Como cuidar dos transtornos alimentares e da saúde mental? 

Reconhecer os sinais dos transtornos alimentares e seu impacto na saúde mental e procurar atendimento adequado permite iniciar a investigação e o tratamento antes do agravamento das repercussões físicas e psicológicas.

A recuperação pode exigir tempo e estratégias diferentes para cada pessoa. Nesse processo, o acompanhamento integrado entre nutricionista, psicólogo e médicos permite abordar não apenas a alimentação, mas também os aspectos clínicos, emocionais e comportamentais envolvidos.

Assim, buscar ajuda não deve depender da aparência, do peso corporal ou da presença de todos os sinais de alerta. Quando a alimentação passa a gerar sofrimento ou interferir de forma persistente na saúde e na rotina, a avaliação profissional já é importante.

Referências

  1. NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH AND CARE EXCELLENCE (NICE). Eating disorders: recognition and treatment. London: NICE, 2017. 
  2. CUPPARI, Lilian (coord.). Guia de nutrição: clínica no adulto. 3. ed. Barueri, SP: Manole, 2014. 580 p.

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