O leite materno é reconhecido como o alimento ideal para os bebês, sendo capaz de satisfazer as necessidades nutricionais até o sexto mês de vida. No entanto, em situações em que não é possível amamentar, o uso de fórmulas infantis pode se tornar a alternativa mais segura para garantir a nutrição adequada do lactente, desde que indicada e acompanhada por um profissional de saúde.
Apesar das fórmulas infantis serem a opção mais segura e que buscam, ao máximo, se aproximar da composição do leite materno, o Ministério da Saúde e a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) recomendam que seu uso deva ser apenas quando a amamentação for inviável ou insuficiente, seja por condições maternas (uso de medicamentos incompatíveis, uso de drogas de abuso, infecções pelo HIV, HTLV1 e HTLV2) ou condições do bebê (prematuridade, distúrbios metabólicos, alergias alimentares).
Tendo em vista que as fórmulas infantis não substituem o leite materno e que devem ser usadas somente quando indicadas por um médico e em casos específicos, o artigo a seguir abordará um pouco mais sobre as diferentes fórmulas presentes no mercado, sua composição, e o papel fundamental do nutricionista no acompanhamento nutricional desses bebês.
O que é a fórmula infantil
A fórmula infantil é classificada pela Agência Nacional de Vigilância sanitária (ANVISA) como um alimento para fins especiais, sendo considerada a melhor alternativa para a alimentação de crianças não amamentadas ou parcialmente amamentadas.
A maioria das fórmulas são elaboradas a partir do leite de vaca, e em alguns casos utiliza-se a proteína isolada da soja como base. Em geral, a indústria faz modificações na composição do leite de vaca, alterando a quantidade dos nutrientes como proteínas, sódio, açúcares, gorduras, vitaminas e minerais, com o intuito de se aproximar ao máximo possível da composição do leite materno e produzir um produto compatível à maturidade do organismo dos bebês.
Indicações de uso e idade
De acordo com sua composição e indicação, as fórmulas infantis são classificadas em três grupos:
- Fórmulas infantis de partida (0 a 6 meses): destinadas à lactentes no primeiro semestre de vida, essas fórmulas têm composição ajustada de proteínas e lipídios para a idade.
- Fórmulas infantis de seguimento: indicadas para lactentes no segundo semestre de vida (de 6 meses a 1 ano), possuem maior densidade energética e nutricional, refletindo as demandas aumentadas de crescimento e desenvolvimento.
- Fórmulas infantis de primeira infância: destinadas a crianças de 1 a 3 anos de idade, essas fórmulas podem ser utilizadas como parte do plano alimentar quando necessário.
Em toda e qualquer fórmula infantil, a adição de gorduras hidrogenadas é proibida, e a presença de vitaminas e minerais segue valores mínimos estabelecidos pela ANVISA. Toda fórmula infantil deve fornecer no mínimo 60 kcal e no máximo 70 kcal a cada 100 mL de fórmula pronta para o consumo.
Em geral, as fórmulas infantis disponíveis no mercado se diferenciam entre si de acordo com a presença ou não de ingredientes considerados opcionais, que possam exercer algum benefício adicional à saúde do bebê. Dentre esses ingredientes estão:
- Teor de DHA e ARA: ácidos graxos essenciais, responsáveis pela estrutura da membrana celular da retina e do sistema nervoso central. As fórmulas devem apresentar no mínimo 0,3% dos ácidos graxos totais de DHA, e os níveis de ARA deve ser no mínimo equivalentes.
- Fibras prebióticas: podem ser adicionadas às fórmulas infantis, pois apresentam efeitos benéficos para a composição da microbiota intestinal.
- Probióticos: microorganismos vivos que também influenciam a composição da microbiota, trazendo benefícios à saúde intestinal.
Fórmulas para situações especiais
Além das fórmulas infantis apresentadas, existem as fórmulas destinadas a necessidades dietoterápicas específicas, desenvolvidas para atender bebês e crianças com condições fisiológicas ou doenças que exigem composição nutricional diferenciada.
Esses produtos têm formulação modificada, ou especialmente ajustada para atender necessidades decorrentes de alterações metabólicas, doenças temporárias ou permanentes, ou ainda para reduzir o risco de alergias em indivíduos predispostos.
Entre os principais exemplos estão:
- Fórmulas isentas de lactose: indicadas para intolerância à lactose transitória ou congênita e em alguns casos de diarreia aguda;
- Fórmulas com proteínas extensamente hidrolisadas ou à base de aminoácidos livres: são indicadas, principalmente, para casos de alergia à proteína do leite de vaca (APLV). Nesses produtos, a proteína do leite passa por um processo extenso de quebra em fragmentos menores ou em aminoácidos (unidades básicas das proteínas), reduzindo a capacidade alergênica da fórmula;
- Fórmulas com proteínas parcialmente hidrolisadas: nessa formulação, as proteínas do leite passam por um processo de quebra parcial, resultando em fragmentos médios ou menores, chamados de peptídeos. Devido ao tamanho intermediário desses peptídeos, essa fórmula ainda pode causar reações alérgicas em alguns casos e não é recomendada para crianças com diagnóstico confirmado de APLV;
- Fórmulas à base de soja: indicada para bebês que não toleram a proteína do leite ou a lactose, ou em casos de galactosemia. Contudo, esse tipo de formulação não é recomendada para crianças menores de seis meses de idade e não deve ser a primeira opção para o tratamento da APLV.
- Fórmulas com triglicerídeos de cadeia média (TCM): podem ser indicadas para bebês com distúrbios de absorção de gorduras, pois o TCM é um tipo de gordura de fácil digestão e absorção;
- Fórmulas para prematuros: possuem maiores quantidades de calorias, proteínas, vitaminas e minerais do que a fórmula padrão, pois esses bebês apresentam maiores necessidade nutricionais para atingir o desenvolvimento ideal;
- Fórmulas para erros inatos do metabolismo: formuladas de maneira individualizada.
Essas versões também só devem ser utilizadas sob prescrição e acompanhamento profissional, conforme orientação do médico pediatra ou nutricionista.
Fórmulas infantis são saudáveis?
A fórmulas infantis são produtos desenvolvidos para atender as necessidades dos bebês que, por diversos motivos, não podem ser alimentados exclusivamente com leite materno. Embora sejam seguras e adequadas do ponto de vista nutricional, não são equivalentes ao leite materno, seja na composição de nutrientes ou em propriedades imunológicas.
O leite materno é um alimento único, cuja composição se adapta às necessidades do bebê em cada momento da vida, além de apresentar diversos fatores bioativos e imunológicos essenciais: elementos que as fórmulas não conseguem reproduzir. Ainda assim, as fórmulas podem assegurar crescimento e desenvolvimento adequados quando indicadas e utilizadas de forma correta, sob supervisão profissional.
Estudos internacionais demonstram que o uso de fórmulas em substituição ao leite materno, quando feito sem indicação e acompanhamento médico, pode estar associado a piores desfechos em saúde infantil e ao longo da vida. Revisões sistemáticas e meta-análises mostram que o aleitamento materno protege contra obesidade, diabetes tipo 2, doenças gastrointestinais e hipertensão.
O marketing expressivo por trás das fórmulas infantis:
Uma série publicada pela The Lancet (2023), evidencia o impacto do marketing agressivo das fórmulas infantis sobre decisões familiares e profissionais, reduzindo as taxas de amamentação e contribuindo para maior exposição precoce a substitutos lácteos. Assim, o uso de fórmulas, embora seguro e fundamental em casos específicos, deve ser sempre criterioso e clinicamente indicado.
O papel do Nutricionista no uso de fórmulas infantis
O uso de fórmulas infantis deve ocorrer somente sob orientação de profissionais habilitados, como nutricionistas e pediatras. Cabe a esses profissionais avaliar a real necessidade de introdução da fórmula, selecionar o tipo mais adequado, orientar sobre o preparo, a frequência e o volume. Além disso, esses profissionais devem reforçar o aleitamento materno como o padrão-ouro da nutrição infantil.
Mais do que prescrever, o nutricionista exerce um papel de educador, ao orientar os cuidadores quanto ao manejo seguro das fórmulas, esclarecer mitos e promover práticas alimentares baseadas em evidências científicas. Assim, o acompanhamento com o nutricionista garante que o uso das fórmulas infantis ocorra com segurança, dentro dos limites legais e sustentado por evidências.
Conclusão
Em resumo, as fórmulas infantis cumprem um papel importante e essencial em situações específicas, desde que utilizadas sob orientação adequada. O acompanhamento com um nutricionista e médico pediatra é fundamental para assegurar que o bebê receba uma nutrição adequada e equilibrada, compatível com as necessidades individuais ao longo das diferentes fases de sua vida.
Ademais, o aleitamento materno deve ser sempre considerado como a primeira e melhor opção de alimentação para o lactente, por oferecer inúmeros benefícios à saúde da mãe e do bebê. Assim, sempre que possível, a amamentação deve ser incentivada e mantida de forma exclusiva até o sexto mês de vida e continuada até os dois anos ou mais, de acordo com a recomendação do Ministério da Saúde e da Organização Mundial da Saúde.
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