É Fome ou FOMO alimentar?

Na imagem, uma mulher sentada em uma poltrona comendo um hambúrguer e uma pizza em cima de uma mesa de centro à sua frente.

O fenômeno conhecido como “FOMO alimentar”, tem se tornado cada vez mais comum na era das redes sociais. Você com certeza já abriu o celular despretensiosamente para dar uma olhadinha nas redes sociais e se deparou com:

  • Lançamento de um novo doce;
  • Restaurante novo que todo mundo está indo conhecer;
  • Receitas virais que parecem irresistíveis;
  • Produtos fitness que vão ajudar no “shape”.

E minutos depois, surge uma vontade quase automática e incontrolável de “preciso comer isso agora”.

Mas você já parou para pensar que esse desejo pode não ser fome de verdade? 

Hoje, nossos feeds estão cada vez mais cercados pelo marketing alimentar, conteúdos sobre comida e cupons de aplicativos de delivery. 

A verdade é que quanto mais tempo passamos navegando nas redes, maior é a exposição a estímulos alimentares que despertam o desejo por comer algo, mesmo quando não estamos com fome. 

Esse cenário contribui para um fenômeno cada vez mais comum: o FOMO alimentar. Na alimentação, ocorre quando se sente uma grande necessidade de provar algo apenas para não ficar de fora de uma tendência.

Nesse contexto, muitas pessoas passam a comer motivadas pela influência social, curiosidade ou impulsos emocionais, e não pela fome fisiológica. 

Mas afinal, como saber a diferença entre fome real e FOMO alimentar? E quais os impactos disso na relação das pessoas com a alimentação? 

É sobre isso que o texto a seguir irá abordar. 

O que é FOMO alimentar?

O termo FOMO, sigla para a expressão em inglês “Fear of Missing Out”, significa medo de ficar de fora de uma experiência, evento ou tendência. 

Este é um fenômeno característico no contexto da internet e é frequentemente usado para descrever a sensação de ansiedade ou urgência que surge em algumas pessoas ao perceberem que não estão vivendo as mesmas experiências que outras estão. 

No contexto das experiências alimentares, o indivíduo sente-se na obrigação de experimentar um novo alimento ou comer algo mesmo sem fome, apenas para se encaixar socialmente ou fazer parte de tendências, caracterizando o FOMO alimentar.

Nesse sentido, o FOMO alimentar pode ser impulsionado por alguns fatores considerados gatilhos, como:

  • Conteúdos virais de comida;
  • Recomendações de grandes influenciadores;
  • Lançamentos de produtos alimentícios;
  • Restaurantes virais e “instagramáveis”;
  • Tendências alimentares do momento. 

Ao se expor repetidas vezes a esses conteúdos e experiências no feed, cria-se a sensação de necessidade e de que é preciso participar daquilo também, seja por curiosidade, desejo de pertencimento ou para não ficar de fora. 

Dessa forma, a decisão de comer passa a ser guiada por estímulos externos e sociais. 

Contudo, isso não significa que buscar novas experiências gastronômicas ou sentir o desejo de experimentar algo viral seja algo negativo. O ponto de atenção está quando essa vontade surge de forma automática, impulsiva ou desconectada das necessidades do corpo. 

Fome fisiológica x FOMO alimentar: qual é a diferença?

A fome fisiológica é a necessidade biológica em consumir energia e nutrientes por meio dos alimentos, garantindo a manutenção das funções vitais do corpo. 

FOMO alimentar costuma surgir pela reatividade a estímulos alimentares ou está relacionada à fome emocional, pela ansiedade em fazer parte de um movimento.

Fome física:  

 Ela surge de forma gradual e apresenta sinais claros, como:

  • Sensação de estômago vazio (“ronco”);
  • Queda de energia e dificuldade de concentração;
  • Irritabilidade;
  • Qualquer alimento pode ajudar a satisfazer essa necessidade.

FOMO alimentar: 

A  FOMO alimentar não é necessariamente praticada para lidar com as emoções, mas pode estar relacionada à fome emocional devido a ansiedade e desejo de fazer parte de uma nova tendência alimentar. 

Ela apresenta características como:

  • Aparece de forma repentina;
  • Desejo por um alimento específico;
  • Sensação de urgência (“preciso provar isso agora”);
  • Resposta à reatividade a estímulos alimentares como ver imagens, anúncios ou conteúdos sobre comida.

Esse fenômeno tem se tornado ainda mais frequente pelo marketing alimentar e pela influência das redes sociais na alimentação.

Redes sociais e comportamento alimentar

A influência das redes sociais na alimentação tem sido cada vez mais observada e discutida. 

O tempo excessivo nas redes aumenta a exposição a conteúdos alimentares, que podem influenciar diretamente nas escolhas e nos hábitos alimentares. 

Essa relação entre a alimentação e uso de telas pode contribuir para FOMO alimentar e a sensação de necessidade de participar de experiências que parecem populares e estão viralizadas. 

No ambiente virtual, essa influência aparece em situações como:

  • Vlogs de rotina alimentar;
  • Resenhas de restaurantes; 
  • Tendências gastronômicas virais;
  • Receitas que viralizam rapidamente; 
  • Lançamentos de produtos que se tornam “febre”.

Essas “trends” favorecem a chamada reatividade a estímulos alimentares, ou seja, quando imagens, anúncios e vídeos despertam a vontade de comer mesmo sem fome. 

Marketing alimentar e o estímulo ao consumo 

Além das trends que viralizam de forma orgânica nas redes sociais, outro fator que contribui para a  FOMO alimentar é o marketing alimentar.

A indústria de alimentos utiliza diversas estratégias para tornar seus produtos mais desejáveis e estimular a sensação de urgência no consumo. Muitas campanhas publicitárias não vendem só um alimento, mas também:

  • Experiência;
  • Estilo de vida;
  • Sensação de pertencimento a um nicho.

Com isso, cria-se a percepção de que experimentar aquele produto, e incorporá-lo ao cotidiano,  é a única forma de participar de um movimento cultural ou social. 

Assim, o consumo deixa de estar relacionado apenas à fome fisiológica ou ao prazer de comer e passa a ser influenciado pelo desejo de fazer parte daquilo, intensificando o fenômeno de FOMO alimentar. 

Além disso, quando as campanhas se espalham rapidamente pelas redes sociais, pela divulgação de influenciadores, vídeos virais e lançamentos ilimitados, elas acabam contribuindo ainda mais para a sensação de urgência e o medo de ficar de fora.

Estratégias de marketing alimentar 

Diversas estratégias são utilizadas para estimular o desejo e aumentar o apelo emocional do consumidor. Alguns exemplos incluem:

  • Associação emocional nas propagandas: um exemplo clássico é o comercial do refrigerante de cola, que remete o produto a momentos de união familiar e nostalgia;
  • Beleza comestível: com collabs entre marcas de beleza e alimentos, incluindo produtos limitados para aumentar a urgência no consumo; 
  • Brindes e personagens em redes de fast foods ou produtos infantis, reforçando a relação entre publicidade, marketing e obesidade infantil
  • Jingles em comerciais de produtos alimentícios que “grudam” na cabeça do consumidor; 
  • Alimentos apresentados de maneira “irresistível” nas publicidades, para estimular os sentidos do consumidor. 

Publicidade, tendências e ruído alimentar 

A exposição excessiva a conteúdos sobre comida também pode intensificar o ruído alimentar ou food noise, fenômeno o qual os pensamentos sobre comida aparecem de forma frequente e intrusivas ao longo do dia.

Quando um indivíduo recebe estímulos alimentares excessivos, por meio do marketing alimentar ou de conteúdos nas redes sociais, aumentam os pensamentos focados em comida e as chances de comer mesmo sem sinais fisiológicos de fome. 

Como evitar FOMO alimentar no dia a dia

Sentir vontade de experimentar algo novo ou comer algum alimento diferente é normal. No entanto, quando isso acontece de forma automática e impulsiva, pode ser um grande problema para a relação com a comida e para a saúde.

Algumas estratégias podem ajudar a como lidar com FOMO alimentar e desenvolver hábitos alimentares mais equilibrados e conscientes:

  • Fazer uma pausa e se perguntar “Eu realmente estou com fome, ou é apenas vontade?”;
  • Estar atento ao sinais físicos da fome; 
  • Exercitar o comer intuitivo, comer com atenção e sem distrações;
  • Evitar consumir conteúdos alimentares de forma constante nas redes sociais.

Essas práticas ajudam a reduzir a reatividade aos estímulos alimentares e favorecem uma relação mais saudável com a comida. 

Então é necessário evitar as tendências?

A resposta é não.

Aprender como lidar com a vontade de comer sem fome não significa deixar de participar das trends ou nunca experimentar algo novo.

Mas é essencial saber estar por dentro das tendências de forma equilibrada e consciente. 

Nesse sentido, ao invés de agir no impulso, você pode escolher um momento certo para viver essas experiências e torná-las ainda mais prazerosas, como por exemplo:

  • Reservar a ida ao restaurante bombado em um momento especial;
  • Encaixar o produto do momento na sua alimentação de forma consciente;
  • Separar o tempo em família para fazer a receita viral juntos.

Conclusão 

Diante de tantos estímulos alimentares nas redes sociais, televisão e propagandas, é fundamental compreender o que está motivando a sua vontade: é a necessidade do seu corpo ou influência externa? 

Saber reconhecer os sinais do corpo e escolher os momentos ideias para estar  dentro das tendências alimentares é um passo fundamental de como evitar a FOMO alimentar. 

Dessa forma, é possível equilibrar a curiosidade por novas experiências e escolhas conscientes para a saúde.

Referências:

1. AKBARI, Mehdi et al. Fear of missing out (FoMO) and internet use: A comprehensive systematic review and meta-analysis. Journal of Behavioral Addictions, v. 10, n. 4, p. 879-900, 2021.

2. HAYASHI, Daisuke et al. What is food noise? A conceptual model of food cue reactivity. Nutrients, v. 15, n. 22, p. 4809, 2023.

3. DHURANDHAR, Emily J. et al. Food noise: definition, measurement, and future research directions. Nutrition & diabetes, v. 15, n. 1, p. 30, 2025.

4. ALVARENGA, Marle et al. Nutrição comportamental. Editora Manole, 2015.   5- HODGES, Camila. Beauty brands are turning their products into dessert skincare. Wired, 15 jun. 2025. Disponível em: https://www.wired.com/story/beauty-brands-dessert-skincare/

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