Tratamento da obesidade infantil: o papel dos análogos de GLP-1 na prática clínica

Criança vestindo blusa rosa segura uma casquinha de sorvete de creme, com a boca e o queixo sujos de sorvete.

Por muito tempo, o tratamento da obesidade infantil foi centrado exclusivamente em intervenções comportamentais e mudanças no estilo de vida. 

Porém, hoje, diretrizes nacionais e internacionais vêm revisando seus protocolos e integrando novas abordagens terapêuticas ao combate da doença, como o uso dos análogos de GLP-1, principalmente diante do grande crescimento dos casos de sobrepeso e obesidade de crianças e adolescentes. 

No entanto, é preciso cautela, porque, embora seja um avanço, a medicação atua como um suporte e as modificações na rotina e no estilo de vida seguem como o pilar central do tratamento da obesidade infantil. Ou seja, essa nova ferramenta está longe de substituir a reeducação alimentar, além disso, o uso desses fármacos exige uma atuação interdisciplinar rigorosa.

Nesse contexto, a parceria entre nutricionista, pediatra e endocrinologista torna-se imprescindível para evitar déficits nutricionais e garantir o desenvolvimento saudável da criança ou adolescente durante sua fase de crescimento.

A seguir, vamos explorar o cenário epidemiológico da obesidade infantil, as principais recomendações para o uso de agonistas de GLP-1 e as estratégias nutricionais mais eficazes para garantir o sucesso e a segurança do tratamento da obesidade infantil.

Panorama da obesidade infanto-juvenil e o desafios clínicos

A prevalência de sobrepeso e obesidade em adolescentes e na infância atingiu proporções alarmantes globalmente. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o excesso de peso em idades jovens é um dos maiores desafios de saúde pública do século XXI, sendo causada pela combinação de:

  • Alto consumo de alimentos ultraprocessados;
  • Sedentarismo prolongado (muito tempo de tela, pouca movimentação e atividades ao ar livre);
  • Mudanças negativas nos padrões de sono.

Como consequência, a obesidade eleva consideravelmente o risco do desenvolvimento precoce de doenças crônicas não transmissíveis, como:

Consequentemente, a intervenção precoce tornou-se indispensável. Em primeiro lugar, o tratamento da obesidade infantil convencional, composto por reeducação alimentar e incentivo à prática de exercícios físicos, deve ser uma prioridade na conduta profissional. Porém, em casos de obesidade severa, apenas ajustar a rotina pode não ser suficiente. 

É exatamente nesse momento que o uso dos medicamentos análogos de GLP-1 entram, atuando como um suporte às modificações no estilo de vida para ajudar o jovem a reverter o quadro e proteger a sua saúde no futuro. 

Agonistas de GLP-1 e público infanto-juvenil: mecanismos e evidências clínicas atualizadas

A classe dos medicamentos análogos ao receptor de GLP-1 atua promovendo o retardo do esvaziamento gástrico e no controle da saciedade por meio de mecanismos centrais. 

Desenvolvidas inicialmente com o objetivo de tratar o diabetes mellitus tipo 2, essas medicações demonstraram, posteriormente, um expressivo potencial no manejo do excesso de peso e obesidade, auxiliando tanto no controle glicêmico quanto na perda ponderal.

No entanto, apesar dos benefícios clínicos evidenciados, a indicação para crianças e adolescentes exige cautela. Dessa forma, os profissionais de saúde devem monitorar possíveis efeitos colaterais gastrointestinais e neurológicos, além de considerar o impacto psicológico do uso das canetas emagrecedoras em crianças e adolescentes. 

Por essa razão, a indicação e prescrição desses medicamentos para tratamento da obesidade infantil exige avaliação criteriosa e deve ser restrita a casos de obesidade grave ou acompanhada de comorbidades. 

Quais são os análogos de GLP-1 aprovados para o tratamento da obesidade infantil? 

A prescrição de agonistas do receptor de GLP-1 para o público infanto-juvenil obedece a rígidos critérios de aprovação de agências reguladoras, como Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) no Brasil.

Atualmente, a aprovação varia conforme o fármaco, a faixa etária e a indicação específica:

A tabela a seguir mostra especificamente o status de aprovação nacional e internacional dos análogos de GLP-1 para o tratamento da obesidade infantil, baseada nas informações consolidadas:

MedicamentoAprovação nacional Observações 
SemaglutidaAprovada para tratamento de obesidade em adolescentes maiores de 12 anos e peso acima de 60 kg.É considerada a opção com maior eficácia na redução de peso e IMC (uso semanal).
LiraglutidaAprovada para o tratamento de diabetes mellitus a partir dos 10 anos de idade e para o tratamento de obesidade em crianças a partir dos 12 anos e com peso superior a 60 kg. Foi o primeiro análogo de GLP-1 aprovado para adolescentes. Estudos internacionais recentes já avaliam o uso em crianças menores (6 a 11 anos).
TirzepatidaAprovada apenas para o manejo do Diabetes Tipo 2 para crianças maiores de 10 anos. No Brasil, a ampliação de uso em 2026 abrangeu apenas crianças a partir de 10 anos com Diabetes Tipo 2. Tanto no cenário nacional quanto internacional, a aprovação específica para obesidade infanto-juvenil ainda depende da conclusão de ensaios clínicos.

Os análogos de GLP-1 são seguros para crianças e adolescentes? 

Por se tratar de uma fase complexa e sensível do desenvolvimento biológico, a segurança e os possíveis impactos do uso de análogos de GLP-1 no crescimento das crianças e adolescentes exigem atenção continuada. 

Dentre os principais riscos do uso dos análogos de GLP-1 para o tratamento da obesidade infantil e de adolescentes, destacam-se:

1. Efeitos colaterais gastrointestinais

Os sintomas adversos mais comuns em todas as medicações da classe são:

  • Náuseas;
  • Vômitos;
  • Diarreia;
  • Constipação;
  • Desconforto abdominal.

Embora frequentes, estes efeitos são predominantemente leves a moderados, sendo raras as complicações graves. 

No entanto, é fundamental ter atenção a possíveis perdas nutricionais que impactam no desenvolvimento corporal e cognitivo, bem como a qualidade de vida da criança e adolescente.

2. Maturação puberal e saúde óssea

Ensaios clínicos controlados avaliaram o estadiamento puberal de Tanner e a idade óssea  e não identificaram alterações prejudiciais no ritmo de crescimento, maturação sexual ou desenvolvimento esquelético em comparação com o placebo.

Contudo, especialistas ressaltam a necessidade de estudos longitudinais de longo prazo para monitorar a densidade mineral óssea e a massa magra durante o estirão puberal.

3. Reganho de peso

A descontinuação do tratamento com análogos de GLP-1, sem o acompanhamento nutricional e multiprofissional adequado, leva a um rápido reganho ponderal.

Nesse sentido, esse fator reforça que o medicamento é uma ferramenta facilitadora, mas que o tratamento da obesidade infantil depende do apoio educacional e nutricional contínuo para manter os benefícios do manejo a longo prazo.

Qual é a importância do nutricionista nesse contexto?

A Organização Mundial da Saúde (OMS) é clara: o tratamento da obesidade infantil precisa combinar:

  • Alimentação equilibrada;
  • Exercícios físicos; 
  • Apoio psicológico, sempre com a participação direta da família. 

Além disso, nenhuma diretriz de saúde recomenda o uso de medicamentos para emagrecer sem que haja, ao mesmo tempo, uma mudança no estilo de vida.

Nesse sentido, o acompanhamento com o nutricionista é fundamental e atua em três frentes principais:

1. Garantir os nutrientes necessários para o crescimento

Como esses remédios reduzem muito o apetite, a criança ou adolescente passa a comer menos. Isso, por sua vez, pode causar deficiência de vitaminas e minerais, além de perda de massa muscular, em uma fase em que o corpo apresenta maior demanda metabólica para crescer e se desenvolver. 

Portanto, o papel do nutricionista é:

  • Ajustar a ingestão de proteínas: garantir o consumo de boas fontes proteicas (carnes magras, ovos, peixes, laticínios e leguminosas) para preservar os músculos e apoiar o crescimento;
  • Monitorar vitaminas e minerais: ter atenção na ingestão de cálcio, vitamina D, ferro e zinco, que são nutrientes marcadores do desenvolvimento infantil.

2. Manejo dos sintomas gastrointestinais 

As medicações deixam a digestão mais lenta, o que pode causar enjoos e mal-estar, levando muitos pacientes a abandonarem o tratamento. 

Para evitar isso, as orientações incluem:

  • Porções menores: fracionar a comida em refeições menores ao longo do dia, respeitando o momento em que o corpo avisa que já está satisfeito;
  • Mastigação: comer devagar, mastigar bem os alimentos e fazer as refeições em um ambiente tranquilo, sem o uso de telas;
  • Escolha dos alimentos: evitar frituras, comidas muito gordurosas e temperos fortes, que pioram as náuseas e tornam a digestão ainda mais demorada;
  • Hidratação correta: beber água aos poucos entre as refeições para prevenir a desidratação e evitar o intestino preso.

3. Promover a reeducação alimentar sem dietas extremas

O tratamento da obesidade infantil não deve focar na contagem obsessiva de calorias ou em dietas altamente restritivas, pois isso pode ser um gatilho para transtornos alimentares no futuro. 

Por isso, o foco da atenção nutricional deve ser pautado a estimular ações como:

  • O envolvimento da família e escola:

O envolvimento do núcleo familiar e da comunidade escolar é fundamental para construir uma rede de apoio sólida, promovendo escolhas mais saudáveis de forma natural e sem pressões. 

A ideia é facilitar o acesso a alimentos naturais (frutas, vegetais, grãos) e diminuir o consumo de ultraprocessados, guloseimas e refrigerantes.

Ensinar o jovem a perceber a diferença entre a fome física, quando o corpo realmente precisa de comida, e a fome emocional (comer por ansiedade, tédio ou tristeza).

Desligar celulares e TVs na hora de comer, uma vez que a distração faz com que o cérebro não perceba que o corpo já está satisfeito, levando a um consumo exagerado e no “piloto automático”.

  • Alimentação social consciente 

Orientar as famílias e os adolescentes a fazerem substituições estratégicas em festas e passeios, sem adotar proibições rígidas que geram isolamento ou compulsão.

Afinal, os análogos de GLP-1 são a solução para o tratamento da obesidade infantil e na adolescência?

O tratamento da obesidade infantil passa por uma etapa de grande avanço científico, no qual os análogos de GLP-1 oferecem um recurso valioso para o controle metabólico e a redução ponderal em casos de maior gravidade. 

Contudo, o sucesso terapêutico não reside apenas na medicação, mas na integração entre a prescrição médica e o acompanhamento nutricional individualizado, focado no crescimento saudável e na construção de hábitos duradouros para toda a vida.

Referências:

  1. WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). WHO guideline on the integrated management of obesity in children. Geneva: World Health Organization, 2026.
  2. MILLS, Austin M.; NOBLE, Emily E. GLP-1 receptor agonists in adolescent obesity: Incretin-based therapies during a sensitive developmental period. Appetite, v. 227, p. 108729, 2026.
  3. LIU, Ligang et al. Comparative Efficacy and Safety of Glucagon-like Peptide-1 Receptor Agonists in Children and Adolescents with Obesity or Overweight: A Systematic Review and Network Meta-Analysis. Pharmaceuticals, v. 17, n. 7, p. 828, 2024.
  4. KATOLE, Nilesh T. et al. The Antiobesity Effect and Safety of GLP-1 Receptor Agonist in Overweight/Obese Adolescents Without Diabetes Mellitus: A Systematic Review and Meta-Analysis. Cureus, v. 16, n. 8, e66280, 2024.
  5. WASILEWSKA, Ewa et al. GLP-1 Receptor Agonists and Dual GIP/GLP-1 Receptor Agonists in Children and Adolescents with Obesity: Clinical Outcomes and the Impact of Nutritional and Behavioral Co-Interventions—A Systematic Review. Nutrients, v. 18, n. 11, p. 1662, 2026.
  6. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Anvisa amplia indicação do Mounjaro® para diabetes tipo 2 em crianças. Brasília, DF: Anvisa, 2026. Disponível em: portal da Anvisa. Acesso em: 19 out. 2026.
  7. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA (SBP). Manual de Alimentação da Infância à Adolescencia. 4. ed. São Paulo: SBP, 2018.
  8. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA (SBP). Guia prático de alimentação: crianças de 0 a 5 anos. Rio de Janeiro: SBP, 2021.
  9. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA (SBP). SBP Alerta para riscos do uso inadequado de “canetas emagrecedoras” por crianças e adolescentes. Disponível em: https://www.sbp.com.br/sbp-alerta-para-riscos-do-uso-inadequado-de-canetas-emagrecedoras-por-criancas-e-adolescente/ 

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