Imagine viver em um bairro onde frutas, verduras e outros alimentos in natura são raros, mas o fast food e os ultraprocessados estão em cada esquina. Esse é o retrato dos desertos alimentares, caracterizados como territórios onde o acesso a alimentos saudáveis é limitado ou inexistente. No Brasil, esse fenômeno está diretamente relacionado à insegurança alimentar, refletindo desigualdades sociais e econômicas que se materializam no prato.
Os ambientes alimentares compreendem fatores físicos, econômicos, políticos e socioculturais que influenciam a forma como as pessoas produzem, adquirem, preparam e consomem os alimentos. Quando esse ambiente é dominado por estabelecimentos que oferecem, majoritariamente, alimentos não saudáveis, configura-se o chamado pântano alimentar. Nesses locais, observa-se uma forte presença de produtos ultraprocessados, acompanhada de uma escassez de opções nutritivas.
De acordo com o Mapeamento dos Desertos e Pântanos Alimentares realizado pelo Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (2024), cerca de 25 milhões de brasileiros vivem em desertos alimentares e 15 milhões em pântanos alimentares nas grandes cidades. Em ambos os casos, as populações mais afetadas são as que vivem em periferias urbanas, que muitas vezes também enfrentam maiores taxas de insegurança alimentar e doenças relacionadas à má nutrição.
Assim, desertos e pântanos alimentares se entrelaçam, refletindo diferentes faces de um mesmo desafio: a dificuldade real de manter uma alimentação adequada, mesmo sabendo o que seria ideal. O artigo a seguir explora um pouco mais sobre essa temática e retrata sobre a situação atual do Brasil.
O que é deserto alimentar e qual sua relação com a insegurança alimentar?
O termo “deserto alimentar” surgiu em 1995, na Escócia, e refere-se a regiões onde há escassez de estabelecimentos que comercializem alimentos adequados para uma dieta saudável, como os in natura ou minimamente processados.
De forma mais precisa, considera-se como um deserto alimentar a região onde pelo menos 500 moradores, ou 33% da população local, vivem a mais de 1,6 km de um supermercado, mercearia ou outros estabelecimentos que vendem alimentos saudáveis.
Os desertos alimentares em um país como o Brasil são ainda mais complexos, pois trata-se de um reflexo da desigualdade estrutural. A falta de oferta de alimentos saudáveis não decorre apenas de uma questão geográfica, mas da falta de políticas públicas que garantam o acesso universal à alimentação adequada e saudável.
Os tipos e níveis de insegurança alimentar ajudam a entender a gravidade dessa situação:
- Insegurança alimentar leve está ligada a piora na qualidade da alimentação;
- Insegurança alimentar moderada acontece quando alguns membros da família, em geral os adultos, começam a mudar o padrão alimentar usual e a reduzir quantitativamente os alimentos consumidos;
- Insegurança alimentar grave é caracterizada pela quebra do padrão alimentar usual, comprometimento da qualidade e quantidade de alimentos ingeridos por todos os membros da família, podendo incluir a experiência de fome.
Viver em um deserto alimentar aumenta o risco de todas essas formas de insegurança alimentar, já que limita o acesso físico e econômico à comida de verdade.
O mapeamento dos desertos alimentares no Brasil realizado pela CAISAN (2018) evidenciou uma tendência preocupante: à medida que cresce o porte dos municípios, aumenta a densidade de estabelecimentos que vendem ultraprocessados e diminui a oferta de alimentos in natura. Ou seja, nas grandes cidades, quanto mais urbanizado o território, mais ele se transforma em um pântano alimentar, um cenário onde se vende comida, mas quase nada que seja nutritivo.
A urbanização desordenada e o poder das grandes redes varejistas e indústrias alimentícias intensificam o problema. As cadeias globais de produção e distribuição de ultraprocessados tornam esses produtos mais baratos e acessíveis, enquanto alimentos saudáveis se tornam caros e escassos. Essa lógica de mercado além de favorecer a insegurança alimentar, perpetua doenças crônicas, obesidade e deficiências nutricionais, problemas que se espalham silenciosamente nos desertos alimentares brasileiros.
Mapeamento, políticas públicas e o desafio de reverter os desertos alimentares
Felizmente, é possível reverter essa realidade. Diversas iniciativas públicas vêm sendo implementadas com o objetivo de reduzir os desertos alimentares no Brasil e ampliar o acesso a alimentos de qualidade.
Entre elas, destacam-se propostas como a reformulação da Nova Cesta Básica, que exclui ultraprocessados e prioriza alimentos in natura, além de ações voltadas à agricultura urbana e as Cozinhas Solidárias. Programas como o Alimenta Cidades e o Programa de Aquisição de Alimentos também buscam aproximar produtores locais e consumidores, fortalecendo circuitos curtos de comercialização e promovendo sistemas alimentares mais saudáveis e sustentáveis.
É fundamental entender qual a diferença entre desertos e pântanos alimentares para formular estratégias eficazes. Ambos, porém, têm consequências semelhantes: aumentam a insegurança alimentar e reduzem a autonomia alimentar das comunidades.
Repensar o sistema alimentar é, portanto, uma questão de saúde pública e uma necessidade urgente para garantir mais qualidade de vida para a população. Combater os desertos alimentares e os pântanos alimentares exige não apenas aumentar a oferta de alimentos in natura, mas questionar os determinantes do acesso e distribuição dos alimentos para a população.
Afinal, saber o que é saudável não basta quando o ambiente favorece o consumo de ultraprocessados e restringe o acesso à comida de verdade.
Conclusão
Diante desse cenário, é fundamental compreender que as escolhas alimentares, algumas vezes, não dependem apenas da vontade individual, mas apresentam questões mais profundas e associadas ao contexto social, econômico e territorial em que se vive.
Dessa forma, pode-se observar que o ambiente alimentar é um fator decisivo para a definição dos hábitos alimentares dos indivíduos, pois influencia diretamente o que está disponível, acessível e financeiramente viável para o consumo5. Quando a oferta de alimentos saudáveis é limitada, torna-se mais difícil fazer escolhas mais nutritivas.
Portanto, garantir o direito à alimentação adequada e saudável exige uma mobilização geral, com políticas públicas que promovam maior equidade no acesso a alimentos saudáveis.
Referências
1. MINISTÉRIO DO DESENVOLVIMENTO E ASSISTÊNCIA SOCIAL, FAMÍLIA E COMBATE À FOME SECRETARIA NACIONAL DE SEGURANÇA ALIMENTAR E NUTRICIONAL. Mapeamento dos Desertos e Pântanos Alimentares: principais achados. [s.l.: s.n.], 2024. Disponível em: <https://www.gov.br/mds/pt-br/acesso-a-informacao/internacional/produtos/produto/Produto_FEALQ.pdf>.
2. RICARDO, Beatriz Inês; CARVALHO, Aline Martins de; LOURENÇO, Bárbara Hatzlhoffer. Exposição a desertos alimentares e marcadores do consumo alimentar entre crianças acompanhadas no Sisvan. Saúde em Debate, v. 48, n. spe1, 2024. Disponível em: <https://www.scielo.br/j/sdeb/a/rzvjwKnFpnSLQqsC58yP6qj/?lang=pt>.
3. DOS SANTOS, Mateus Luciani ; FONTÃO, Pedro Augusto Breda. TERRITÓRIO ALIMENTAR EM DISPUTA: A CONSTITUIÇÃO DE DESERTOS E PÂNTANOS ALIMENTARES A PARTIR DA LÓGICA DE DISTRIBUIÇÃO DE ULTRAPROCESSADOS. Hygeia – Revista Brasileira de Geografia Médica e da Saúde, p. 34–45, 2022. Disponível em: <https://seer.ufu.br/index.php/hygeia/article/view/64154>.
4. Fala MDS: o que são e quais são os impactos causados pelos pântanos e desertos alimentares?. Entrevistada: Gisele Bortolini. Entrevistadora: Erika Braz. Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, 21 jan. 2025. Disponível em: https://agenciagov.ebc.com.br/noticias/202502/fala-mds-o-que-sao-e-quais-sao-os-impactos-causados-pelos-pantanos-e-desertos-alimentares
5. Ministério do Desenvolvimento Social (BR), Secretaria-Executiva da Câmara Interministerial de Segurança Alimentar e Nutricional. Estudo Técnico Mapeamento dos Desertos Alimentares no Brasil [Internet]. Brasília, DF: MDS; 2018 . Disponível em: https://aplicacoes.mds.gov.br/sagirmps/noticias/arquivos/files/Estudo_tecnico_mapeamento_desertos_alimentares.pdf
6. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Insegurança Alimentar e Nutricional. Ministério da Saúde. Disponível em: <https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-brasil/glossario/inseguranca-alimentar-e-nutricional>

