Era performática na atividade física: quando o exercício deixa de ser só saúde

Se antes a atividade física estava mais associada à saúde e bem-estar, hoje ela passou a ocupar também um espaço de exposição, validação e performance. Isso reflete o avanço da era performática na atividade física.

Dessa forma, a era performática na atividade física surge num contexto em que treinar deixa de ser apenas uma prática de cuidado com a saúde e passa a ser também uma forma de mostrar disciplina, corpo e estilo de vida.

Esse movimento indica que a forma como as pessoas se relacionam com a atividade física está passando por transformações significativas.  

Nesse contexto, podem surgir pressões estéticas, comparações constantes e a busca por validação externa, que podem impactar negativamente a experiência com o exercício.

No entanto, isso não significa que a prática de exercícios tenha deixado de ser benéfica para a saúde.

O texto a seguir traz uma reflexão sobre como as redes sociais influenciam a era performática na atividade física e vêm mudando a forma como as pessoas se relacionam com os exercícios no dia a dia.

Atividade física e redes sociais: como a forma de se exercitar mudou

As redes sociais têm influenciado a forma como as pessoas se relacionam com a atividade física, ampliando o acesso a conteúdos de treino e saúde, mas também reforçando características da era performática na atividade física

Assim, a prática de exercícios pode ser influenciada também por fatores como comparação social, exposição e busca por validação, aumentando a motivação para se exercitar. 

Ao mesmo tempo, também pode modificar o foco da prática: deixa de ser apenas saúde e passa a envolver estética e performance

Embora o engajamento com conteúdo fitness nas redes sociais possa trazer benefícios, também existe o outro lado da moeda.

Em redes sociais como o Instagram, por exemplo, esse tipo de conteúdo pode reforçar a compulsão por exercício, a insatisfação corporal e a objetificação do corpo. 

Além disso, a exposição frequente a padrões idealizados na era performática na atividade física tende a impactar de forma mais intensa mulheres e adolescentes, que são mais vulneráveis a esses efeitos.

Outro ponto relevante é que grande parte desse conteúdo está centrado na busca pelo “corpo ideal”, o que pode levar a mudanças mais rígidas nos hábitos alimentares e na prática de exercícios. 

Nesse contexto, o cuidado com a saúde pode dar lugar ao foco excessivo em performance na atividade física e a uma lógica de esforço contínuo voltada à aparência, fenômeno descrito como “trabalho estético”. 

Esse cenário mostra que as redes sociais contribuem para uma relação ambígua com o exercício. Isso porque, apesar de incentivarem a prática de exercícios, também intensificam pressões e comparações.  

Na prática, isso pode gerar engajamento, mas também sentimentos de insatisfação e cobrança constante. É nesse ponto que a era performática na atividade física e a cultura fitness nas redes sociais se tornam centrais, evidenciando a tensão entre inspiração e comparação.

Cultura fitness nas redes sociais: entre inspiração e comparação

Pode-se dizer que os criadores de conteúdo e influenciadores digitais desempenham um papel importante na consolidação da era performática na atividade física

Ou seja, a cultura fitness nas redes sociais é fortemente influenciada por esses atores, que compartilham experiências, rotinas e orientações sobre corpo, exercício e alimentação a partir de vivências pessoais.

Dessa forma, os influenciadores “especialistas” têm se tornado uma das principais fontes de informação para usuários que buscam conteúdos sobre saúde, condicionamento físico e nutrição em plataformas digitais. 

Nesse contexto, surge o termo “fitspiration”: uma tendência que combina motivação para o exercício com exposição de corpos e estilos de vida considerados ideais. 

Embora esse tipo de conteúdo possa inspirar a prática saudável de exercícios, estudos apontam que ele também pode impactar negativamente a autoimagem, a satisfação corporal e a relação com a alimentação.

Além disso, é necessário ter cuidado com as informações compartilhadas por essas figuras nas publicações, pois frequentemente são apresentadas sem rigor científico. 

Isso, por sua vez, pode contribuir para percepções distorcidas sobre exercício, corpo e hábitos alimentares, na era performática na atividade física.

Dessa forma, a cultura fitness nas redes sociais se constrói em um equilíbrio instável entre inspiração e comparação. Enquanto pode estimular a adoção de hábitos mais ativos, também pode reforçar expectativas irreais sobre corpo e desempenho.

Esse cenário levanta uma questão central sobre saúde ou estética: qual é o objetivo do exercício? E quando a busca por ser fitness deixa de ser saudável?

Pressão por performance na atividade física

Em alguns casos, a prática de exercícios físicos deixa de ser orientada pelo cuidado com a saúde e passa a ser guiada por padrões de desempenho, controle e resultado. 

Nesse contexto, o exercício pode assumir características de compulsão, com envolvimento excessivo, dificuldade de interromper a prática e manutenção do comportamento mesmo diante de sinais de fadiga, lesão ou prejuízos na rotina. 

Esse padrão é descrito na literatura como dependência de exercício, caracterizado por uma necessidade constante de se exercitar e pelo aumento progressivo da intensidade. 

Além disso, a relação com o exercício pode estar associada à insatisfação corporal e à busca por um padrão físico ideal, especialmente em contextos fortemente influenciados pelas redes sociais.

A exposição frequente a conteúdos centrados em aparência e desempenho pode reforçar comportamentos mais rígidos em relação ao corpo, à alimentação e à prática de exercícios. 

Nesse sentido, o exercício deixa de ser uma prática flexível e integrada à rotina e passa a ocupar um papel central, muitas vezes acompanhado por sentimentos de culpa, ansiedade e necessidade constante de progresso. 

Essa mudança não ocorre de forma abrupta, mas como um processo gradual, influenciado por fatores individuais, sociais e culturais. 

Por isso, reconhecer esses sinais é fundamental para diferenciar uma prática saudável de um padrão orientado exclusivamente por performance.

Exercício físico e saúde mental

A exposição constante a conteúdos centrados em corpo, estética e performance nas redes sociais pode impactar diretamente a saúde mental e a forma como os indivíduos percebem o próprio corpo. 

Nesse contexto, a comparação frequente com padrões idealizados pode aumentar a insatisfação corporal e a sensação de inadequação, especialmente quando esses modelos são apresentados como facilmente alcançáveis. 

Além disso, estudos mostram que o consumo de conteúdo fitness e de influenciadores está associado a maior insatisfação corporal e a sintomas relacionados a transtornos alimentares, principalmente quando há maior tempo de exposição e engajamento com esse tipo de conteúdo. 

Essa pressão estética também pode influenciar a forma como o exercício é vivenciado, gerando sentimentos de culpa, ansiedade e necessidade constante de melhorar o desempenho. 

Com isso, a prática de atividade física pode deixar de ser um espaço de cuidado. Em contrapartida, passa a ser percebida como uma obrigação ou uma forma de atender a expectativas externas.

Embora a atividade física seja reconhecida por seus benefícios à saúde física e mental, o contexto em que ela é praticada pode modificar seus efeitos e impactar negativamente o bem-estar.

Como equilibrar a relação com a atividade física

Diante desse cenário, equilibrar a relação entre saúde e performance nessa era performática na atividade física envolve retomar o exercício como uma prática de cuidado. 

Isso significa considerar não apenas a frequência ou intensidade do treino, mas também as motivações que sustentam esse hábito. 

Na prática, alguns pontos podem ajudar nesse processo:

  • Priorizar os benefícios funcionais e de bem-estar do exercício físico, e não apenas mudanças estéticas;
  • Reduzir a comparação constante com outros corpos e rotinas;
  • Ajustar expectativas em relação a resultados e evolução;
  • Respeitar sinais de cansaço, dor e necessidade de descanso;
  • Manter flexibilidade na rotina, evitando padrões rígidos ou compulsivos;
  • Buscar orientação profissional para individualizar a prática.

Além disso, desenvolver um olhar mais crítico sobre os conteúdos consumidos sobre saúde nas redes sociais pode contribuir para uma relação mais consciente com o exercício. 

Conclusão

A prática saudável de exercícios é uma ferramenta importante para a promoção da saúde, mas o contexto em que ela é vivenciada tem mudado.

Na era performática na atividade física, o exercício passou a ser influenciado por expectativas de estética, desempenho e visibilidade. Isso pode alterar o seu significado e a forma como é incorporado na rotina. 

Nesse contexto, nem sempre o que parece saudável nas redes sociais, de fato, promove saúde. Por isso, mais do que discutir se a atividade física é benéfica, é necessário refletir sobre como e por que ela está sendo praticada. 

Retomar o exercício como uma prática de cuidado, respeitando limites individuais e considerando aspectos físicos e mentais, é um passo importante para uma relação mais equilibrada com o corpo.

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