Os alimentos que consumimos, em quantidade e qualidade adequadas, são fontes de nutrientes essenciais para a manutenção do nosso organismo. Em situações de doenças, infecções agudas ou crônicas, alterações fisiológicas podem exigir o uso de medicamentos para a recuperação da saúde. No entanto, podem ocorrer interações fármaco-nutriente, especialmente quando certos componentes da dieta interferem na absorção, distribuição e biotransformação dos fármacos, ou ainda quando o medicamento influencia na biodisponibilidade e metabolismo dos nutrientes no organismo. Essas interações podem comprometer tanto a eficácia quanto a segurança do tratamento. Por isso, a integração entre farmacologia e nutrição tem ganhado cada vez mais relevância.
Como acontece a Interação Fármaco-Nutriente?
É necessário primeiramente entendermos alguns conceitos que permeiam a farmacologia. Entre eles, a farmacodinâmica e a farmacocinética. A farmacodinâmica fala sobre os efeitos bioquímicos, fisiológico e moleculares dos fármacos no corpo. Já a farmacocinética envolve os processos de absorção, distribuição, biotransformação e excreção dos fármacos.
A farmacodinâmica e nutrição estão relacionadas quando os alimentos ingeridos alteram o efeito clínico do medicamento em uso. Isso pode ocorrer porque a farmacocinética e a alimentação compartilham processos fisiológicos semelhantes no organismo, o que pode resultar em interferências nos processos farmacocinéticos.
A interação fármaco-nutriente acontece, principalmente, por meio da absorção, sendo o trato gastrointestinal o sítio de interação deles. O mecanismo da absorção dos nutrientes e alguns fármacos são semelhantes e competem uns com os outros.
Outras variáveis para interação
Além disso, muitas variáveis específicas de cada indivíduo podem causar ou agravar as interações fármaco-nutriente. Entre elas a polifarmácia, muito comum em idosos, o estado nutricional, genética, dieta, doença subjacente, suplementos nutricionais, fitoterápicos ou fitonutrientes, a ingestão de bebidas alcóolicas, abuso de substâncias, microbioma intestinal, alergias ou intolerâncias, excipientes em fármacos ou alimentos.
A desnutrição tem um destaque no risco para interações fármaco-nutrientes. Isso ocorre devido as mudanças na composição corporal e alterações nas proteínas do corpo, o que frequentemente altera a ligação das proteínas e distribuição do fármaco, afetando a farmacocinética.
Além dessas variáveis individuais, o próprio alimento pode influenciar diretamente a absorção dos medicamentos, como já citado. Refeições ricas em fibras ou gorduras, por exemplo, retardam o esvaziamento gástrico, o que pode atrasar a absorção de alguns fármacos algo que, em muitos casos, não compromete a eficácia, mas pode ser crítico no caso de antibióticos ou analgésicos.
Ainda há alguns nutrientes que interagem quimicamente com medicamentos por meio de reações de quelação, como ocorre entre ferro, cálcio, magnésio ou zinco e certos antibióticos (como tetraciclinas e fluoroquinolonas), reduzindo sua absorção. Nestes casos, recomenda-se ajustar o horário da ingestão de suplementos ou alimentos ricos nesses minerais para evitar perda de eficácia do medicamento.
Por outro lado, alguns medicamentos têm sua absorção favorecida pela presença de alimentos, como é o caso do antibiótico axetilcefuroxima e do antirretroviral saquinavir. Nesses casos, a administração após refeições é indicada para melhorar a biodisponibilidade e reduzir a dose necessária³.
Para melhor visualização, alguns exemplos estão destacados na tabela 1.
Tabela 1. Fármacos, interação e administração.
| Fármaco | Interação | Efeito | Horário de administração |
| Antiosteoporótico: alendronato | Suco de laranja ou café | Redução de 60% na absorção | 30 minutos antes da refeição, com água |
| Suplemento: ferro | Administração juntamente com o alimento | Redução de 50% na absorção | Estômago vazio com aproximadamente235 ml de água |
| Antibiótico: ciprofloxacina | Cálcio ou bebidas fortificadas com cálcio, magnésio, zinco, ferro, alumínio, antiácidos | Formam complexos insolúveis, dificultando a absorção do fármaco e do nutriente | 2 h antes ou 6 h depois do mineral |
| Antidepressivo: amitriptilina | Dieta rica em fibras | Perda do efeito terapêutico | Evitar dietas ricas em fibras |
| Cardiovascular: digoxina | Alimentos ricos em fitatos (farelo de trigo, farinha de aveia) | Perda do efeito terapêutico | Evitar alimentos ricos em fitatos |
| Agente antirretroviral: delavirdina | Suco de laranja ou de mirtilo | Diminui o pH do estômago e aumenta a absorção do fármaco | Ingerir com suco de laranja ou de mirtilo |
| Antibiótico: cefuroxima (axetil) | Presença de alimentos no estômago | A biodisponibilidade aumenta em 52% | Ingerir com alimentos |
| Agente antirretroviral: saquinavir | Ingestão de café da manhã reforçado com até 1.000 calorias e 57 g de gordura | A concentração sanguínea máxima do fármaco aumentou duas vezes | Ingerir após a alimentação |
Fonte: Krause (2010 apud CARELLE, 2014);
Por fim, compreendemos que a interação fármaco-nutriente é um aspecto crucial no cuidado com a saúde. Isto demonstra a importância de como a nutrição interfere na ação dos fármacos, permitindo otimizar tratamentos, prevenir efeitos adversos e garantir melhores resultados terapêuticos, ressaltando que o entendimento e integração entre farmacologia e nutrição deve ser valorizada na prática clínica.
Referências:
¹RIBEIRO, Mirian; MOURA, Leite; GUILLERMO, Felix; et al. Interação fármaco-nutriente: uma revisão. Revista de Nutrição, v. 15, n. 2, p. 223–238, 2002.
²VUONG, Marry; GONZÁLEZ ARAGÓN, Camila ; MONTARROYOS, Stephanie S. Common Food and Drug Interactions. Pediatrics in Review, v. 44, n. 2, p. 68–80, 2023. Disponível em: <https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36720679/>.
³MAHAN, L. Katahleen ; RAYMOND, Janice L. Krause – Alimentos, Nutrição e Dietoterapia. 14. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2018.
5CARELLE, Ana Claudia. Nutrição e farmacologia. 2.ed. São Paulo: Érica, 2014.

